No Oeste de França, uma raça de galinha de património quase esquecida tornou-se, discretamente, uma aliada útil contra um predador em rápida expansão.
À medida que as vespas asiáticas avançam pela Europa (incluindo Portugal) e pressionam colónias de abelhas-melíferas, uma galinha rústica da Bretanha começou a interessar jardineiros e apicultores: menos “solução milagrosa”, mais uma ajuda constante no terreno.
Uma crise com asas: porque é que as vespas asiáticas assustam os apicultores
A vespa asiática (Vespa velutina) chegou à Europa no início dos anos 2000 e espalhou-se rapidamente. Preda abelhas e outros polinizadores que já lidam com pesticidas, perda de habitat e doenças.
Perto da colmeia, o padrão é repetido: a vespa fica a pairar à entrada e intercepta abelhas forrageiras quando regressam. Uma única vespa pode matar muitas abelhas num dia; o efeito maior é o “bloqueio” da entrada, que aumenta o stress e reduz a colheita, podendo enfraquecer a colónia antes do inverno.
Muitos apicultores tentam garrafas-armadilha, iscos açucarados ou insecticidas agressivos. Em muitos casos, isto também apanha insectos não-alvo (abelhas selvagens, borboletas, vespas nativas) e raramente resolve o problema sozinho. Na prática, costuma funcionar melhor combinar medidas:
- reduzir o “pairar” com grelhas/defesas na entrada e boa colocação do apiário (abrigo do vento, boa visibilidade);
- usar armadilhas de forma limitada no tempo (sobretudo na primavera) e o mais selectivas possível;
- localizar e reportar ninhos para remoção por equipas autorizadas (em Portugal, tipicamente via município/proteção civil/serviços competentes - não tente remover por conta própria).
Pressão constante de vespas perto das colmeias pode baixar a produção de mel, travar a criação e levar pequenos apiários a desistir.
A galinha de Janzé: um tesouro bretão inquieto de volta do limiar da extinção
Entra aqui uma ave de plumagem preta com reflexos verdes: a galinha de Janzé, ligada a uma localidade da Bretanha. A raça quase desapareceu nos anos 1980 e foi recuperada por esforços locais de conservação.
Fisicamente, não parece extraordinária: 1,5–2,5 kg; cerca de 150 ovos brancos/ano (55–60 g). O que a distingue é o comportamento.
Criadores descrevem-na como muito activa, curiosa e pouco tolerante ao confinamento - a “grande viajante”. Em vez de ficar junto ao comedouro, passa horas a patrulhar: esgravata, observa e reage a movimento ao nível do chão, sobretudo em bordaduras, relva curta, sebes e fruta caída.
A Janzé funciona como patrulha móvel: percorre o terreno e “limpa” o que encontra, de forma repetida ao longo do dia.
Com boa visão e reflexos rápidos, apanha insectos como larvas, lagartas, gafanhotos e também vespas - quando estas descem o suficiente para entrar no seu alcance.
Como uma galinha de capoeira enfrenta a vespa asiática
Perto de colmeias e árvores de fruto, as vespas asiáticas pairam e descem para caçar ou aproveitar fruta. As Janzé (e, em menor grau, outras galinhas rústicas com bom instinto de forrageamento) podem explorar esse momento.
O comportamento observado é simples: aproximação, pescoço esticado, espera pela descida da vespa e bicada rápida - no ar ou quando pousa. Segue-se uma segunda bicada para imobilizar e engolir. Para a ave, é proteína concentrada; o “reforço” alimentar ajuda a repetir o comportamento.
Atenção ao alcance: as galinhas actuam no “perímetro de chão” (junto a colmeias, relva, fruta caída). Não eliminam ninhos, nem substituem a remoção profissional. A utilidade é reduzir a pressão local e tornar mais difícil a caça constante à entrada da colmeia.
Uma rainha fecundada capturada no início da época pode evitar a formação de um ninho que, mais tarde, tende a gerar milhares de indivíduos - mas isto é oportunista e não garantido.
Um ensaio relatado num pomar biológico na Bretanha ilustra o potencial em contexto agrícola: cerca de 90 Janzé em 3 hectares (≈30/ha) associaram-se a uma grande redução de pragas e a menos actividade de vespas junto às árvores. O resultado depende muito do terreno, do alimento disponível e da pressão de vespas.
Montar uma patrulha anti-vespa com penas
Espaço, movimento e um verdadeiro terreno de caça
A eficácia cai num cercado pequeno e “limpo”. Para caçar, a ave precisa de percursos e pontos de interesse: sebes, zonas com sombra, pilhas de composto bem geridas, bordaduras e áreas com fruta caída.
Num quintal de dimensão limitada, ainda pode funcionar se houver variedade de micro-habitats e tempo diário de pastoreio. Recintos estreitos e sem estímulo tendem a gerar tédio (e problemas como bicagem de penas) em vez de caça.
Regra prática: quanto mais “paisagem” acessível (relva + arbustos baixos + cantos húmidos + sombra), mais tempo útil de patrulha.
Estratégia de alimentação: não encher demasiado o comedouro
Sobre-alimentar reduz o instinto de procura. Se o comedouro está sempre cheio, as aves ficam por perto e patrulham menos.
O objectivo não é criar fome, mas manter parte da dieta ligada ao forrageamento, garantindo ao mesmo tempo saúde e postura. Uma rotina simples:
- Manhã: ração medida (o suficiente para manter condição corporal e postura)
- Durante o dia: acesso ao terreno à volta de colmeias/pomar/horta
- Noite: fechar no galinheiro (segurança) e rápida verificação do bando
Evite colocar água e ração mesmo ao lado das colmeias: concentra as galinhas num ponto e pode aumentar sujidade/pressão no local.
Custos e detalhes práticos
Na Bretanha, aves de Janzé são vendidas por ~30–50 € (varia com idade e linhagem). Em Portugal, esta raça pode ser difícil de encontrar; se a ideia for replicar o princípio, raças rústicas e activas (e cruzamentos menos “industriais”) tendem a forragear melhor do que linhas seleccionadas apenas para produção intensiva.
Na prática, o custo real inclui infra-estrutura e tempo:
- galinheiro que feche bem à noite (raposas e cães são um risco comum);
- vedação adequada ao terreno (em muitos quintais, rede + boa gestão de portões é o que mais falha);
- limpeza e controlo de parasitas (piolhos/ácaros) para manter as aves activas.
| Aspecto | Galinha de Janzé |
|---|---|
| Função principal | Forrageamento/predação de insectos + postura |
| Ovos anuais | ~150 ovos brancos |
| Ambiente ideal | Pastoreio livre em pomares, apiários e jardins grandes |
| Custo de compra | ~30–50 € por ave (origem França) |
| Benefícios extra | Menos fruta apodrecida, algum arejamento do solo, fertilização |
Trabalho o ano inteiro: mais do que controlo de vespas
A vespa asiática chama a atenção, mas a vantagem das galinhas está no trabalho contínuo.
- Primavera: procuram larvas no solo e lagartas novas; podem ajudar a “baixar” pragas antes do pico.
- Verão: patrulham sombras e áreas húmidas onde insectos descansam; reduzem fruta caída (menos fermentação, menos atracção de insectos).
- Outono: mexem na folhada e encontram larvas que passariam o inverno.
Há contrapartidas: o esgravatar pode desenterrar plântulas e espalhar mulch. Em hortas, costuma resultar melhor limitar o acesso a canteiros sensíveis (rede baixa, vedações móveis) e abrir zonas “de trabalho” de cada vez.
O efeito secundário é fertilização: dejectos + mistura superficial do solo. Para não concentrar nutrientes num só sítio (e evitar lama), a rotação por áreas ajuda.
Para quintais e pequenas explorações, um bando activo pode acumular três funções: controlo de alguns insectos, “gestão” de restos orgânicos e ovos.
Limites, riscos e como isto pode traduzir-se noutros locais
Isto não é controlo total. As galinhas não alcançam ninhos altos e muitas vespas caçam fora do seu raio. Além disso:
- podem comer insectos benéficos juntamente com pragas;
- podem danificar canteiros e cobertura do solo;
- podem ser predadas (raposas, cães, aves de rapina) - fechar à noite não é opcional;
- podem atrair roedores se houver excesso de ração no chão.
As vespas também ajustam o comportamento: com pressão ao nível do solo, podem caçar mais alto na copa ou mudar de zona. Por isso, as galinhas fazem mais sentido como parte de um conjunto de medidas, especialmente perto das colmeias.
Em Portugal, onde a criação de aves em zonas urbanas pode ter regras municipais (ruído, higiene, distâncias), vale confirmar antes de investir - e lembrar que a resposta mais eficaz a longo prazo continua a passar por vigilância, reporte e eliminação de ninhos por quem tem equipamento e autorização.
Para testar a abordagem, o caminho mais seguro é um piloto pequeno: poucas aves activas, boa vedação, alimentação controlada, observação do comportamento junto às colmeias e ajustes ao longo de semanas. Se houver redução do “pairar” e mais tranquilidade na entrada, já está a obter o ganho principal: menos stress para as abelhas no perímetro imediato.
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