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Uma faixa castanha, do tamanho de um continente, marca agora o Atlântico e revela quem realmente paga pelo nosso modo de vida.

Homem observa mar com binóculos, segurando frasco e smartphone ao lado, com dois navios ao fundo.

O azul não desapareceu - foi cortado por uma faixa espessa, baça e castanha, tão longa que parecia não ter fim. No convés, o cheiro chegou primeiro: doce e podre, como fruta ao sol.

Era sargaço. Em mar aberto, pode ser vida. Encostado à costa, vira uma fatura: alguém tem de a pagar, e quase nunca é quem a emitiu.

Uma cicatriz castanha que se vê do espaço

Do espaço, o Grande Cinturão Atlântico de Sargaço aparece como uma cadeia de manchas e estrias castanhas com cerca de 5 000 a 8 000 km, a derivar entre a África Ocidental e as Caraíbas. Não é petróleo: são algas.

Convém separar duas realidades:

  • Ao largo, o sargaço é muitas vezes abrigo e berçário (peixes juvenis, invertebrados, tartarugas). Remover “porque é feio” pode destruir esse habitat.
  • Em terra, quando se acumula e apodrece, passa a ser um problema sanitário, económico e logístico.

O que mudou não foi a existência do sargaço, mas a escala e persistência. Em muitos anos recentes, as arribações foram mais densas e menos previsíveis. Em várias ilhas, a “estação do sargaço” já compete com a época dos furacões - só que com menos calendário.

Porquê? Em geral, é um efeito combinado:

  • Águas superficiais mais quentes favorecem crescimento e sobrevivência.
  • Nutrientes em excesso (fertilizantes, esgotos, escorrência urbana) chegam ao Atlântico por grandes rios e zonas costeiras.
  • Ventos, correntes e variabilidade climática empurram e concentram as massas.

Quando dá à costa, deixa de ser “paisagem”. Vira um muro. E o cheiro é o aviso de que a decomposição já começou.

Quem paga quando o oceano envia a fatura?

Quando o sargaço chega às praias, a economia torna-se física: máquinas, camiões, equipas, deposição, dias e noites de trabalho. A biomassa vem encharcada - pesada, volumosa - e a operação raramente acompanha o ritmo da maré.

As perdas não são abstratas:

  • Turismo: cancelamentos, praias encerradas, reputação danificada (“não era isto que a brochura prometia”).
  • Pesca: redes rasgadas, hélices e entradas de água entupidas, dias sem saída para o mar.
  • Infraestruturas: queixas de corrosão acelerada e manutenção mais frequente junto a zonas afetadas.
  • Saúde: perto de grandes montes a apodrecer, há relatos de dor de cabeça, náuseas, irritação ocular e respiratória.

Aqui mora a ironia: muitas comunidades na linha da frente têm pegadas de carbono baixas, mas pagam cedo e caro por um problema alimentado por cadeias globais - energia, transporte, consumo, agricultura intensiva.

E a ligação com a Europa (incluindo Portugal) não é “moral”; é material. A procura por carne e laticínios, por exemplo, puxa por ração (soja/milho), fertilização e, em alguns contextos, desflorestação e escorrências que acabam no oceano. Nada disto aparece no recibo - mas aparece na costa, em castanho.

O que podemos realmente fazer, estando longe?

Não há um gesto único que “pare” o cinturão. Há escolhas que mexem nas duas alavancas principais: calor (emissões) e nutrientes (poluição). Em Portugal, dá para agir sem heroísmos - com realismo.

Na prática, o que costuma pesar mais:

1) Alimentação (impacto silencioso e repetido)
Reduzir carne e laticínios alguns dias por semana já corta procura por sistemas intensivos e por fertilização a montante. Regra simples: troca parte da proteína animal por leguminosas (feijão, grão, lentilhas) e evita desperdício - comida deitada fora também foi fertilizante e energia desperdiçados.

2) Energia e mobilidade (impacto grande por decisão)
Sempre que der, escolhe alternativas de baixo carbono: comboio em vez de avião em trajetos curtos, carro mais pequeno/partilhado, e eletricidade com garantia de origem renovável quando disponível. Não é perfeição; é direção.

3) Dinheiro e voto (onde o “longe” deixa de ser longe)
Pergunta ao teu banco/gestora onde investe e se exclui combustíveis fósseis e desflorestação das carteiras. E apoia políticas que ataquem as causas de raiz: eficiência energética, agricultura com menos perdas de nutrientes, ETARs eficazes, fiscalização de descargas. Sem isto, a limpeza nas praias é só “pagar juros”.

Um bom critério para não te perderes: escolhe uma área (voos, carne, carro, compras) e corta para metade durante 3 meses. Se for sustentável, mantém; se não for, ajusta.

  • Reduz 20–30% num hábito de alto impacto (carne/laticínios, voos, carro a solo, compras por impulso).
  • Muda um serviço financeiro para um prestador com regras claras contra fósseis/desflorestação (não “só marketing”).
  • Em viagens, dá prioridade a operadores que mostrem medidas concretas (gestão de resíduos/água, salários, monitorização local).

Um espelho castanho erguido ao nosso estilo de vida

Diante de uma parede de algas, o desconforto não é só estético. É a sensação de que o nosso conforto, algures, ganhou corpo noutro sítio - em cheiro, lodo e horas de limpeza ao amanhecer.

O sargaço não é o vilão. É o mensageiro: segue o calor e os nutrientes que nós espalhamos. O que ele expõe não é apenas uma “anomalia natural”, mas uma divisão antiga - entre quem consegue amortecer consequências e quem as recebe primeiro.

  • O que é, na prática: um cinturão recorrente de sargaço no Atlântico, alimentado por água mais quente e por nutrientes (fertilizantes/esgotos) que chegam ao mar.
  • Impactos reais: praias impraticáveis, perdas no turismo e na pesca, custos de limpeza, e risco de irritação/indisposição junto a algas em decomposição.
  • Ligação com o quotidiano: dietas ricas em carne, energia fóssil, transporte e cadeias de abastecimento intensivas aumentam emissões e pressão agrícola - e isso favorece florações.

FAQ

  • As algas sargaço são perigosas para quem nada?
    Em geral, sargaço fresco ao largo não é perigoso e pode até concentrar vida marinha. O risco aumenta quando há acumulação perto da rebentação: pode prender os pés, reduzir visibilidade e atrair organismos que picam. Em praia, o problema maior é quando apodrece e liberta gases irritantes.

  • O cinturão de sargaço é causado apenas pelas alterações climáticas?
    Não. O aquecimento ajuda, mas o fenómeno costuma resultar de vários fatores juntos: temperatura, excesso de nutrientes (fertilizantes/esgotos/escorrência) e mudanças de ventos/correntes.

  • Porque afeta tanto as Caraíbas e a África Ocidental?
    Porque muitas vezes estão no caminho das correntes que transportam e encostam o sargaço. E como dependem mais de praia e pesca artesanal, o impacto é imediato - com menos margem financeira para limpezas grandes e contínuas.

  • Não podemos simplesmente recolher as algas e transformá-las em algo útil?
    Há tentativas (composto, biogás, materiais), mas não é “pegar e usar”. A biomassa é muito húmida, difícil de armazenar e pode trazer contaminações (incluindo metais em alguns contextos), o que exige controlo e destino adequado. Pode ajudar em casos locais, mas raramente resolve a escala do problema sozinha.

  • O que fazer se estiver numa zona com sargaço em decomposição?
    Evita ficar muito tempo junto a montes a apodrecer, sobretudo com crianças, idosos ou pessoas com asma. Se houver cheiro forte e sintomas (ardor, tosse, tonturas), afasta-te e segue orientações locais. E não tentes “limpar” sem proteção: a mistura pode irritar pele e olhos, além de ser instável e pesada.

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