A mulher sentada em frente ao psicólogo está exausta. Não do trabalho, não dos filhos, não da falta de sono. De esforçar-se tanto para ser feliz que se sente um fracasso sempre que o seu humor desce abaixo do “só boas vibrações”.
Ela faz scroll no Instagram entre perguntas, a meio a ouvir, a meio a comparar. Viagens à praia, fotos de noivado, promoções, smoothies verdes. Toda a gente parece estar a acertar nesta coisa da “vida feliz”.
O psicólogo não lhe pergunta o que a faria mais feliz. Pergunta-lhe, em voz baixa: “O que é que lhe parece ter sentido para si, neste momento?”
Ela fica confusa. Ninguém lhe tinha perguntado isso antes.
Algo na sala muda.
Porque é que perseguir a felicidade continua a escapar-lhe por entre os dedos
A felicidade costumava ser um bom efeito secundário. Encontrava-se com amigos, fazia o seu trabalho, criava uma família, fazia voluntariado na igreja ou num clube local e, às vezes, sentia-se bem; outras vezes, não.
Agora é um alvo numa aplicação de monitorização do humor. Um objetivo que avalia de 0 a 10 à noite, antes de adormecer com aquela sensação insistente de que ainda “não chegou lá”.
Os psicólogos estão a ver o mesmo padrão: quanto mais as pessoas perseguem a felicidade como um estado constante, mais ansiosas e insatisfeitas se sentem.
É como tentar apanhar a sua própria sombra ao fim da tarde.
Quanto mais depressa corre atrás dela, mais ela se afasta.
Pense no seu último dia “perfeito”. Talvez uma manhã de férias com café numa varanda, o telemóvel em modo avião, o sol a fazer aquela coisa suave das 9 da manhã.
Por um momento, pensou: “Isto. Isto é felicidade. Preciso de mais dias assim.”
Depois o voo atrasou, a caixa de entrada explodiu, as crianças fizeram birras no aeroporto. O brilho desapareceu, e a desilusão bateu duas vezes mais forte.
Essa queda abrupta não é aleatória. A investigação em psicologia social mostra que as pessoas que se fixam em ser felizes tendem a relatar menor bem-estar, mais solidão e mais stress quando a vida não corresponde às expectativas.
Não estão “avariadas”. O objetivo é que está.
Aqui está a armadilha: quando trata a felicidade como o objetivo principal, cada momento neutro ou difícil parece um fracasso.
Dia mau no trabalho? Está “fora do caminho”. Tarde de sábado aborrecida? “Algo deve estar errado na minha vida.”
De uma perspetiva clínica, a felicidade é um estado emocional, não uma estratégia de vida. Flutua com hormonas, meteorologia, sono, notícias, digestão e aquele comentário aleatório que o seu chefe fez numa reunião.
O sentido, por outro lado, é mais robusto. É a sensação de que a sua vida é sobre algo maior do que apenas conforto e bom humor.
É por isso que muitos psicólogos defendem que a vida só começa a mudar a sério quando deixa de perguntar “Sou feliz?” e começa a perguntar “Isto tem sentido para mim?”
Como mudar de perseguir felicidade para construir sentido
Um ponto de partida prático é uma pergunta enganadoramente simples: “O que é que eu ainda iria querer fazer, mesmo num dia difícil?”
Não o que parece impressionante. Não o que recebe aplausos. O que a puxa de volta mesmo quando está cansada, irritadiça ou com medo.
Pegue num caderno e divida uma página em três colunas desorganizadas: Pessoas, Atividades, Causas.
Em Pessoas, escreva com quem sente que é mais você. Em Atividades, anote o que a absorve tanto que se esquece de ver o telemóvel. Em Causas, aponte quais os problemas do mundo que a deixam discretamente zangada ou profundamente comovida.
Essa página é um mapa de onde o sentido já está a tentar crescer na sua vida.
O grande erro que muitos de nós cometemos é esperar por um propósito em forma de raio, uma cena cinematográfica em que tudo “encaixa” e a banda sonora aumenta.
O que acontece, na maior parte das vezes, parece dolorosamente banal.
Decide ir ver um vizinho solitário uma vez por semana.
Mantém-se num projeto criativo confuso, mesmo que ninguém lhe pague por isso.
Continua a aparecer num trabalho que não é glamoroso porque acredita no trabalho e nas pessoas que ele ajuda.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.
Vai esquecer-se, vai acomodar-se, vai voltar ao doomscrolling. Isso não significa que tenha “perdido” o seu propósito. Significa que é humano, e que o sentido é algo a que se regressa, não algo que se segura sem deixar cair.
O sentido também exige um tipo de honestidade emocional de que a cultura do “só boas vibrações” não gosta.
Pode ter de admitir que algumas coisas que perseguiu durante anos - um certo estilo de vida, um certo corpo, uma certa promoção - nunca lhe souberam a sentido, apenas a recompensa social.
Um psicólogo com quem falei colocou isto assim:
“Perseguir a felicidade faz-lhe perguntar ‘Como é que me sinto agora?’
Procurar sentido faz-lhe perguntar ‘Para o que é que estou a contribuir - à minha maneira, por mais pequena que seja - ao longo do tempo?’”
Essa mudança parece pequena. Não é.
Aqui está uma lista rápida para consultar quando sentir que está a cair de novo na pura perseguição da felicidade:
- Pergunte “O que é que importa aqui?” em vez de “O que é que me sabe bem?”
- Escolha uma ação pequena e aborrecida que sirva os seus valores hoje.
- Permita sentimentos desconfortáveis sem os tratar como emergências.
- Repare quando está a encenar felicidade para os outros.
- Volte à sua página Pessoas / Atividades / Causas uma vez por semana.
O que muda quando constrói uma vida à volta do sentido
Mudar de “Eu só quero ser feliz” para “Eu quero uma vida com sentido” não resolve magicamente problemas de dinheiro, sustos de saúde ou dinâmicas familiares complicadas.
Isso mantém-se. A vida continua a doer.
O que muda é a forma como a dor encaixa na história.
Um progenitor solteiro a trabalhar em dois empregos para manter um filho seguro não costuma descrever a sua vida como “divertida”.
Ainda assim, muitos descrevem um sentido feroz. O cansaço tem direção. Os sacrifícios fazem parte de uma narrativa em que acreditam.
A investigação psicológica sobre sentido na vida mostra que as pessoas com um forte sentido de propósito conseguem aguentar mais stress e recuperar mais depressa de contratempos.
Não são menos sensíveis. Estão ancoradas de outra forma.
Numa escala mais pequena, isto pode parecer escolher ficar com uma competência difícil - aprender uma língua, treinar para uma maratona, criar um pequeno negócio - mesmo quando o entusiasmo inicial desaparece.
Deixa de perguntar, de duas em duas semanas: “Isto ainda me está a fazer feliz?”
Começa a perguntar: “Isto ainda está alinhado com aquilo de que eu gosto?”
Essa pergunta tolera tédio, planaltos e auto-dúvida de um modo que a felicidade nunca tolera.
E, estranhamente, quando deixa de medir a sua temperatura emocional de cinco em cinco minutos, momentos de alegria voltam a entrar pela porta do lado.
Aparecem enquanto lava a loiça depois de receber amigos, ou quando vai a conduzir para casa após fazer voluntariado, ou ao apertar o último parafuso num projeto no quintal que ninguém mais vai realmente notar.
Pequenos, silenciosos lampejos que dizem: isto importa.
Todos já lá estivemos: aquele momento em que olha à sua volta - o trabalho que lutou para conseguir, o apartamento que decorou, a relação que curou cuidadosamente - e pensa: “É isto?”
Essa pergunta pode parecer perigosa, como puxar um fio que pode desfazer tudo.
Não tem de ser.
Às vezes, é apenas o primeiro sinal honesto de que esteve a otimizar a sua vida para sensações agradáveis, não para profundidade.
Não precisa de uma reinvenção total nem de um bilhete só de ida para Bali.
Talvez só precise de trocar uma pergunta diária.
De “Como é que me torno mais feliz?”
Para “O que tornaria esta hora, esta tarefa, esta conversa, significativa?”
As respostas raramente são vistosas. Normalmente são embaraçosamente simples.
E, no entanto, é aí que a vida começa, discretamente, a mudar.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Passar da felicidade para o sentido | Deixar de usar o humor como principal métrica de vida e começar a perguntar o que está alinhado com os seus valores | Reduz a autoavaliação constante e cria um sentido de direção mais estável |
| Encontrar as suas fontes pessoais de sentido | Mapear Pessoas, Atividades e Causas que realmente importam para si | Dá um ponto de partida concreto para escolhas diárias e decisões de longo prazo |
| Aceitar emoções mistas | Ver stress, tédio e tristeza como compatíveis com uma vida com sentido | Diminui a ansiedade em torno de sentimentos “negativos” e reforça a resiliência emocional |
FAQ:
- Pergunta 1 Perseguir sentido significa que vou ser menos feliz no geral?
- Pergunta 2 E se eu ainda não souber qual é o meu propósito?
- Pergunta 3 Um trabalho de escritório das 9 às 5 pode mesmo ter sentido?
- Pergunta 4 Como lido com dias em que nada parece ter sentido?
- Pergunta 5 É errado continuar a querer conforto, diversão e prazer?
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