A primeira geada cai sempre em silêncio. Num dia, o jardim é só terra húmida e abelhas preguiçosas; na manhã seguinte, a relva estala sob as botas e o bebedouro dos pássaros aparece tapado por uma película fina, vidrada. Sai com o café na mão, o hálito suspenso no ar, e dá por si a reparar no sossego. Menos chilreios. Nenhum farfalhar na sebe. Apenas o zumbido distante do trânsito e um corvo cansado na chaminé.
Depois, debaixo dos silvados, uma pequena bola de espinhos que devia estar a mexer-se está perfeitamente imóvel.
Sente um pouco de culpa. Este ano queria ajudar a vida selvagem: talvez um hotel de insetos, uma pilha de folhas, um comedouro. A vida acelerou. O inverno chegou depressa.
E algures entre o bebedouro rachado e esse ouriço silencioso, começa a surgir uma ideia estranha, quase ridícula, em grupos de jardinagem e fóruns de vida selvagem: bolas de ténis.
Por mais estranho que pareça, podem ser exatamente o que falta.
Porque é que um punhado de bolas de ténis pode mudar tudo num jardim gelado
A cena repete-se por toda a Europa em cada inverno. Os bebedouros transformam-se em gelo, os pequenos charcos ficam rígidos como pedra, e os visitantes do jardim perdem, de repente, o acesso à água. Preocupamo-nos com a comida - bolas de gordura e sementes - mas esquecemo-nos de que um pisco ou um ouriço têm tanta probabilidade de morrer de sede como de fome.
Um lembrete barato e fluorescente costuma estar esquecido numa gaveta: a humilde bola de ténis. Ponha uma a flutuar à superfície de um lago, de uma bacia, até de um balde grande, e o jogo muda. O movimento constante da bola ao vento impede que uma pequena zona congele por completo. Para nós é um pormenor. Para um pássaro que pesa 20 gramas, pode ser a diferença entre mais um dia e a última noite.
Pergunte a qualquer pequeno centro de recuperação de fauna como é o fim do inverno. Falar-lhe-ão de ouriços desidratados encontrados de dia, confusos e cambaleantes. Mostrar-lhe-ão passarinhos trazidos por vizinhos bem-intencionados, com as asas descaídas, simplesmente fracos demais para aquecer. É brutal, silencioso e, na maior parte das vezes, invisível a partir da janela da cozinha.
Uma voluntária no Reino Unido contou-me que agora distribuem bolas de ténis velhas com folhetos em novembro. “As pessoas lembram-se mais da bola do que do conselho”, disse ela a rir. No último janeiro, depois de uma publicação nas redes sociais ter ficado um pouco viral, contaram mais de 50 chamadas de moradores que “tinham acabado de pôr uma bola de ténis no bebedouro” e começaram a prestar atenção. É assim que a mudança muitas vezes começa: com um truque ligeiramente estranho que toda a gente consegue copiar em 10 segundos.
Há uma lógica simples por detrás da imagem, um tanto cómica, de uma bola néon a balançar na neve. A água congela de cima para baixo, sobretudo em recipientes parados. Quando uma bola de ténis se move - empurrada pelo vento, por gatos ou por crianças a passar - quebra essa placa uniforme de gelo. Um anel ou uma pequena mancha de água líquida fica acessível durante muito mais tempo. Para os ouriços, que muitas vezes bebem à noite em lagos ou bacias baixas, essa abertura pode salvar vidas.
Os pássaros também não precisam de uma piscina. Precisam de um gole e, às vezes, de um mergulho rápido para manter as penas em bom estado. Penas geladas perdem a capacidade de isolar. Uma pequena bola a boiar ajuda a atrasar essa reação em cadeia. Um ligeiro ondular na água pode interromper o drama silencioso de uma noite de inverno.
Como usar bolas de ténis para ajudar aves e ouriços neste inverno
O método é quase embaraçosamente simples. Pegue numa ou duas bolas de ténis - podem ser velhas, gastas, até ligeiramente roídas pelo cão - e deixe-as flutuar em todas as fontes de água ao ar livre que tiver: bebedouros, baldes, tinas rasas, a margem de um lago do jardim. Distribua-as de modo a terem espaço para se mover quando o vento aumentar.
Se o recipiente for pequeno, uma bola chega. Para um lago mais largo, acrescente algumas, para que pelo menos uma mantenha uma zona de água em movimento. Em manhãs muito frias, dê um toque rápido nas bolas com a bota para partir qualquer gelo fino que se esteja a formar à volta. O objetivo não é manter toda a superfície sem gelo. O objetivo é uma abertura por onde se consiga beber. É tudo o que um pisco ou um ouriço precisam.
Um erro comum é pensar: “Na minha zona não faz assim tanto frio, a vida selvagem aguenta.” Depois chega uma vaga de frio, a mangueira congela, e cada poça vira betão da noite para o dia. Sejamos honestos: ninguém anda pelo jardim à meia-noite a partir gelo do bebedouro todos os dias. A bola de ténis é o seu substituto, a fazer a parte aborrecida enquanto está quentinho em casa.
Outro deslize é usar recipientes fundos e de paredes íngremes. Os pássaros conseguem, os ouriços podem não conseguir. Um ouriço cansado que caia lá dentro pode não conseguir sair. Disponibilize sempre, pelo menos, um tabuleiro largo e raso ou uma pedra inclinada na borda de um lago mais fundo. Um tijolo simples ou uma rampa podem transformar uma armadilha mortal num ponto seguro. Pense nisto como desenhar um pequeno café de inverno: acesso fácil, saída clara, uma bebida fiável.
“As pessoas imaginam que o resgate de vida selvagem é todo heroísmo”, disse-me um cuidador de ouriços francês. “Mas a maioria das vidas salva-se com hábitos aborrecidos. Um prato de água. Uma abertura debaixo da vedação. Uma estúpida bola de ténis em janeiro. O drama está no que não acontece - no animal que nunca chega a colapsar.”
- Coloque as bolas cedo
Deixe-as na água assim que as noites começarem a aproximar-se do ponto de congelação, não depois do primeiro grande choque de gelo. - Use vários pontos
Ofereça água em dois ou três cantos diferentes: junto a sebes, ao pé de um barracão, perto dos comedouros. - Acrescente rotas de saída
Ponha pedras, tijolos ou uma pequena rampa em qualquer bacia funda para que os ouriços consigam sair facilmente. - Renove semanalmente
Passe as bolas por água e mude a água com regularidade para não se transformar numa sopa de bactérias. - Combine com abrigo
Deixe pilhas de folhas, montes de lenha ou uma casa para ouriços por perto, para que os visitantes não tenham de atravessar relvado aberto.
Para lá das bolas de ténis: uma nova forma de ver o seu jardim no inverno
Depois de deixar cair dois ou três pontos amarelos no jardim, costuma acontecer outra coisa. Começa a olhar mais. Repara no melro a verificar a água antes de ir ao comedouro. Vê pegadas de ouriço na margem lamacenta do lago. Dá por si a abrir a porta das traseiras numa noite gelada só para ouvir. A bola de ténis deixa de ser um truque e passa a ser um lembrete de que partilha este pedaço de chão com outros corações a bater.
A partir daí, outros gestos surgem naturalmente. Um canto do relvado deixado comprido em vez de rapado. Uma pilha de ramos desarrumada onde se pode esconder vida. Menos veneno para lesmas, mais paciência. O jardim muda de vitrina para habitat, de algo que “possui” para um pequeno lugar que acolhe. Sem discursos, sem grandes “projetos de renaturalização”. Apenas a sensação crescente de que o conforto no inverno não devia ser um luxo apenas humano.
Todos já passámos por aquele momento em que pensamos: “Sou só uma pessoa, que diferença faz o meu pequeno quintal?” Uma bola de ténis a flutuar diz: comece aqui, comece pequeno, comece hoje à noite.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Manter a água acessível | As bolas de ténis atrasam o congelamento em bebedouros, tinas e lagos | Forma simples e de baixo custo de evitar a desidratação de aves e ouriços |
| Reduzir riscos escondidos | Use recipientes rasos e acrescente rampas de saída ou pedras | Transforma pontos de água em locais seguros para beber, em vez de armadilhas acidentais |
| Pensar como a vida selvagem | Combine água com abrigo, comida e cantos tranquilos | Converte um jardim comum num pequeno refúgio de inverno mais resistente |
FAQ:
- As bolas de ténis impedem mesmo que a água congele por completo? Nem sempre. Normalmente mantêm uma pequena área sem congelar por completo ou tornam o gelo muito mais fino, o que chega para as aves bicarem e abrirem passagem ou para si partir facilmente.
- A tinta ou o material não fazem mal aos animais? Em geral, bolas de ténis comuns são seguras quando usadas desta forma. Não está a incentivar a mastigação, apenas a flutuação, e o contacto com a água é mínimo e de curta duração.
- E se o meu lago for muito grande? Use várias bolas e combine com outros truques, como colocar uma tábua de madeira a flutuar ou manter uma pequena bomba ligada para criar movimento num canto.
- Posso usar outra coisa em vez de bolas de ténis? Sim, qualquer objeto flutuante que se mexa ligeiramente pode ajudar: bolas de pingue-pongue, pequenas garrafas de plástico com a tampa posta. As bolas de ténis são apenas fáceis de ver e manusear.
- Não chega alimentar as aves no inverno? A comida ajuda, mas sem água líquida, aves e ouriços continuam a sofrer. Uma combinação de comida, água e abrigo dá-lhes a melhor hipótese de atravessar os meses frios.
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