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Um peixe antes ignorado está a tornar-se popular no Brasil devido à sua segurança, baixo preço e valor nutricional, sendo agora muito procurado.

Pessoa preparando peixe numa tábua, com arroz, limão e ervas ao lado, numa cozinha bem iluminada.

Um peixe “de pobre”, supostamente cheio de espinhas, menos nobre do que o salmão importado ou o atum em lata. Em alguns mercados do Nordeste, os vendedores quase o escondiam, como mercadoria de segunda. Depois os preços da carne dispararam, os escândalos alimentares sucederam-se, e os brasileiros voltaram a olhar para este peixe de outra forma.

Numa manhã húmida nas margens do rio São Francisco, um velho pescador pousa as redes a pingar numa mesa de plástico. À sua frente, uma fila de tambaquis prateados e pesados, ainda a estremecer. Uma jovem mãe pára, hesita, compara os preços com a carne de vaca de fraca qualidade mesmo em frente. Pergunta, timidamente: “Isto é bom para as crianças?”. O pescador sorri e começa a enumerar proteínas, ómega-3, ferro, como um nutricionista improvisado.

A poucos metros, uma banca de fritos anuncia “Tambaqui na brasa – promoção”. A fila não abranda. Estudantes, operários da construção, uma funcionária bancária de fato. Toda a gente sai com o mesmo cheiro nos dedos e a mesma surpresa: sempre foi assim tão bom?. Uma frase circula devagar na multidão, quase sussurrada: “O peixe dos pobres está a mudar de lado.”

Do “peixe dos pobres” à estrela discreta dos pratos brasileiros

Durante décadas, o tambaqui - um peixe amazónico de corpo espesso e um grande sorriso de dentes - esteve no fundo da pirâmide social da alimentação no Brasil. Alimentava comunidades ribeirinhas, balcões de almoço nas periferias, cantinas escolares com orçamentos apertados. Famílias de classe média em São Paulo ou no Rio preferiam bacalhau importado no Natal, ou peitos de frango embrulhados em plástico e marketing.

Agora, com os preços da carne a baterem recordes dolorosos, as bancas de tambaqui em muitas cidades passaram, de repente, para o centro do palco. Vê-se grelhado em esquinas de rua, assado inteiro em cozinhas de família, a aparecer em ementas “trendy” sob molhos sofisticados. Pessoas que antes torciam o nariz ao “peixe de pobre” agora publicam filetes dourados no Instagram com legendas orgulhosas sobre saúde e tradição.

A mudança não é só nostalgia. É matemática no talão. Quando um quilo de carne de vaca decente parece uma aposta para muitas carteiras, o tambaqui muitas vezes custa menos de metade em mercados regionais, sobretudo perto de polos de produção no Norte e no Centro-Oeste. Num país onde a inflação alimentar vira notícia com frequência, essa diferença pode significar proteína no prato - ou nada.

Em Manaus, a peixeira Daniela, 32 anos, diz que reparou na viragem “quase de um mês para o outro”. Quando o frango subiu de preço, os clientes habituais começaram a perguntar que peixe dava para esticar uma refeição de família sem rebentar o orçamento. A resposta dela era sempre a mesma: “Leva tambaqui.” Leve tambaqui.

Ela começou a cortar porções mais pequenas, a preparar tiras prontas a fritar, a explicar a clientes apressados como temperar com alho e lima. Alguns admitiam que nunca o tinham cozinhado em casa, apesar de terem crescido perto de rios. Outros diziam que os avós adoravam, mas que eles tinham mudado para nuggets e salsichas processadas há muito.

O que começou como um compromisso para poupar dinheiro transformou-se lentamente numa redescoberta. Pais voltavam a dizer que as crianças limpavam o prato. Uma cliente idosa confessou que não provava tambaqui desde a infância e acabou a chorar na primeira dentada. O balcão do peixe tornou-se uma espécie de cabine de memória colectiva, onde receitas e histórias eram trocadas entre a balança e o gelo.

Por trás das histórias humanas há também um cálculo mais racional. O tambaqui é rico em proteína de alta qualidade, vitaminas do complexo B, cálcio e fósforo (das espinhas), e tem um perfil sólido de gorduras saudáveis. Nutricionistas em programas de saúde pública no Brasil recomendam-no discretamente há anos, sobretudo para crianças e mulheres grávidas.

Ao mesmo tempo, uma monitorização mais rigorosa das pisciculturas e da qualidade da água ajudou a dissipar dúvidas antigas. À medida que os supermercados passaram a destacar tambaqui de aquacultura com certificações e códigos QR para rastrear a origem, a ideia de que “peixe barato tem de ser perigoso” começou a estalar. As famílias perceberam que podiam trocar parte da carne semanal por um peixe que não só era mais barato, como verdadeiramente nutritivo.

Para muitos brasileiros de baixos e médios rendimentos, isso não é uma escolha de estilo de vida. É uma estratégia de sobrevivência que, ainda assim, sabe a pequeno luxo no garfo. Um raro ganha-ganha à mesa.

Como os brasileiros estão a trazer o tambaqui de volta à cozinha do dia a dia

O regresso do tambaqui acontece com um truque simples de cada vez. Em inúmeras cozinhas, o primeiro gesto é quase sempre o mesmo: um banho rápido em sumo de lima ou limão. Não para afogar o peixe, mas uma fricção breve para “acordar” a carne, domar qualquer nota forte de rio e criar essa promessa cítrica antes da primeira dentada.

A partir daí, a maioria dos cozinheiros caseiros mantém tudo quase embaraçosamente básico. Sal, alho esmagado, talvez um toque de pimenta-preta ou paprika, e um fio generoso de óleo. Postas grossas da costela vão diretas para uma grelha quente ou frigideira de ferro, com o lado da carne para baixo para selar os sucos, e a pele para ficar estaladiça e “cantar”. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas quando fazem, só o cheiro já junta pessoas à volta do fogão.

Os erros mais comuns são estranhamente humanos. Apressar o descongelamento debaixo de água quente, o que arruína a textura. Temperar demais por medo de que o peixe “não saiba a nada”. Ou virar as postas uma e outra vez até se desfazerem e colarem à frigideira.

As pessoas também hesitam por se lembrarem do trauma das espinhas da infância. Muitos adultos ainda carregam essa memória de se engasgarem à mesa de domingo. Então cozinham demais o tambaqui “para estar seguro”, transformando um peixe naturalmente suculento em algo seco e triste. Num dia de semana corrido, isso basta muitas vezes para voltarem às salsichas ou aos noodles instantâneos.

A nutricionista brasileira Carla Moura gosta de reajustar esses medos com conversa simples.

“O tambaqui é um dos raros alimentos que cumpre quase todos os requisitos para famílias com dificuldades financeiras”, diz. “É proteína acessível, apoia produtores locais e, quando se aprendem duas ou três receitas básicas, acaba por facilitar a vida em vez de a complicar.”

Os conselhos práticos dela aparecem repetidamente em oficinas comunitárias e grupos de WhatsApp:

  • Comece por filetes ou postas de costela com menos espinhas se for para crianças pequenas.
  • Cozinhe uma vez por semana, não todos os dias, para manter especial e fácil de gerir.
  • Acompanhe com arroz, feijão e uma salada simples para compor uma refeição completa e energizante.

Nesse encorajamento suave há uma mensagem mais silenciosa: não são necessárias técnicas elaboradas para servir algo bom e digno. Numa noite de semana, quando todos estão cansados e com fome, essa simplicidade pode parecer quase uma graça.

Um “peixe de pobre” a apontar para um futuro alimentar diferente

Todos conhecemos aquele momento em que se abre o frigorífico e se sente uma ligeira derrota. Uns ovos, algum arroz, o feijão de ontem, talvez um pedaço triste de carne que se tenta esticar mais um dia. Em muitas casas brasileiras, uma pequena porção de tambaqui agora muda a história, transformando um “como é que vamos comer?” em “ah, isto vai ser bom”.

À medida que o tambaqui ganha estatuto, algo subtil muda na forma como se fala de valor e dignidade à mesa. Avós que antes pediam desculpa por servir “peixe simples” agora partilham receitas com um orgulho discreto. Adolescentes publicam fotos de costelas grelhadas não como sinal de falta, mas como emblema de cultura e escolhas inteligentes.

Isto não é um conto romântico da vida ribeirinha. A aquacultura tem problemas - da desflorestação ao uso de água - e a pressão comercial pode atingir duramente pescadores tradicionais. Ainda assim, a procura crescente por tambaqui também acendeu debates sobre aquacultura sustentável, preços justos e cadeias alimentares locais. Compradores comuns passam a fazer perguntas sobre origem, sazonalidade e nutrição que antes eram deixadas aos especialistas.

Nesse sentido, este “peixe de pobre” antes ignorado tornou-se mais do que jantar. É um espelho que reflecte ansiedade com a inflação, medo de comida insegura e a vontade de algo familiar e fiável. Os novos fãs não procuram necessariamente perfeição. Querem comida que pareça honesta, que não minta no rótulo, e que ainda permita terminar o dia com o prato cheio e uma pequena história para contar.

Da próxima vez que vir um tambaqui a brilhar sobre gelo num mercado brasileiro, não está apenas a olhar para uma pechincha. Está a ver uma revolução silenciosa na forma como um país come, recorda e se adapta. E essa história ainda está a ser escrita, uma receita partilhada de cada vez.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Renascimento do tambaqui De “peixe dos pobres” a básico dominante em mercados e restaurantes Ajuda a identificar um alimento de elevado valor antes de ficar caro ou demasiado “hiper”
Nutrição vs. custo Rico em proteína e gorduras saudáveis, muitas vezes a metade do preço de carne de vaca decente Oferece uma forma concreta de proteger a saúde sem rebentar o orçamento alimentar
Truques simples de cozinha Fricção com lima, tempero leve, virar o mínimo, evitar cozinhar demais Facilita cozinhar e gostar de tambaqui em casa, mesmo em dias cheios

FAQ:

  • O tambaqui é mesmo seguro para comer regularmente? O tambaqui de aquacultura moderno vendido em supermercados e em peixarias estabelecidas costuma cumprir as normas nacionais de segurança, e muitos produtores já disponibilizam rótulos de rastreabilidade com origem e condições de criação.
  • Como é que o tambaqui se compara, do ponto de vista nutricional, à carne de vaca ou ao frango? O tambaqui oferece proteína semelhante ou superior, com menos gordura saturada e um melhor perfil de ómega-3, além de minerais úteis como fósforo e cálcio quando as espinhas são usadas em caldeiradas ou caldos.
  • Qual é a forma mais fácil de cozinhar tambaqui para iniciantes? Comece com postas grossas da costela, marine brevemente com lima, sal e alho, e depois grelhe ou sele numa frigideira em lume médio-alto, virando apenas uma vez para manter a carne intacta e suculenta.
  • Crianças e grávidas podem comer tambaqui? Sim. Quando comprado a vendedores de confiança, o tambaqui é amplamente recomendado por nutricionistas brasileiros como opção densa em nutrientes para crianças, grávidas e mulheres a amamentar.
  • Escolher tambaqui é melhor para o ambiente? Pode ser, sobretudo quando vem de aquacultura responsável ou de pescas bem geridas. No entanto, o impacto varia, pelo que procurar produtores certificados ou localmente respeitados continua a ser uma boa decisão.

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