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Um peixe antes desprezado está a tornar-se popular no Brasil, graças à segurança, baixo preço e bons valores nutritivos agora reconhecidos.

Mãos colocam cavalas numa frigideira em cima de uma mesa com ingredientes como arroz, limão e salsa.

On a sticky Thursday afternoon in São Paulo, no vasto mercado da Lapa, o balcão do peixe está estranhamente calmo em frente ao salmão caro. A verdadeira multidão está dois passos à esquerda, onde uma mulher de avental de plástico levanta um peixe comprido e prateado para a balança e anuncia o preço como se fosse uma piada. “Cavala, minha filha, cavala… hoje mais barata do que frango!” Atrás dela, um letreiro manuscrito diz apenas: “CAVALA – FRESCA – R$ 12,90/kg”. Há uns anos, este mesmo peixe ficava quase intocado ao fundo, visto como “peixe de pobre”, bom apenas para fritar em óleo no dia de pagamento.
Agora, compradores de classe média em roupa de ginásio estão ombro a ombro com estivadores reformados, todos a apontar para a mesma coisa sobre o gelo. Algo mudou claramente.
E começou com uma pergunta simples: e se o peixe que antes ignorávamos fosse afinal aquele de que precisávamos?

O regresso da cavala: do estigma à estrela da mesa

Passe uma manhã num mercado costeiro brasileiro e sente-se no ar: a cavala está na moda. Este peixe do oceano, primo próximo do sarda/cavala (mackerel), era antes descartado como tendo cheiro forte, rústico, daquelas coisas que a avó fazia na panela de pressão porque não havia mais nada. Hoje, os filetes aparecem bem limpos, porcionados para marmitas, e publicados no Instagram ao lado de tostas de abacate. Nutricionistas recomendam-na, chefs escrevem o nome em quadros pretos com giz confiante, e os compradores perguntam quando chega o próximo barco.
Vêem-se mãos a escolher aquilo que, há pouco tempo, alguns quase tinham vergonha de servir a visitas.
O mesmo peixe, uma história muito diferente.

No Recife, Juliana, enfermeira de 43 anos e mãe solteira, diz que a cavala salvou discretamente o orçamento semanal. Durante a pandemia, a carne de vaca virou luxo e até o frango básico subiu de preço. Uma vizinha disse-lhe para voltar a experimentar cavala, “como quando éramos miúdos”. Ela hesitou, lembrando-se de uma posta seca e demasiado cozinhada de algum almoço de infância.
Acabou por comprar um quilo “só para testar” e assou-o de forma simples com cebola e tomate. Os dois filhos esvaziaram o tabuleiro antes de ela se sentar. No mês seguinte, Juliana começou a comprar cavala todas as semanas, congelando porções para ter jantares rápidos depois de turnos tardios.
“Eu achava que peixe bom era só salmão do supermercado”, ri-se. “Afinal, o peixe bom era aquele por que eu passava sempre sem olhar.”

O que mudou não é apenas o gosto, mas a confiança. Durante anos, a cavala carregou um rótulo injusto: barata, arriscada, “peixe para pobre”. Muitos brasileiros associavam preço baixo a pouca segurança, com medo de mercúrio, parasitas ou má manipulação. Depois veio uma vaga de conteúdos de nutrição acessíveis, Reels virais de avós do litoral a fritar postas brilhantes, e orientações mais claras das autoridades de saúde: peixes oceânicos de pequeno e médio porte como a cavala são, em geral, seguros, com baixos níveis de contaminantes e ricos em ómega‑3.
Com os salários a não acompanharem a inflação dos alimentos, as famílias começaram a fazer contas. Grama por grama, a cavala oferece proteína de alta qualidade, gorduras boas, ferro, vitamina D e B12 por uma fração do custo da carne de vaca ou do salmão. Depois do momento “espera lá, porque é que estou a pagar o triplo por menos nutrição?”, o estigma não dura muito.

Como os brasileiros estão a cozinhar cavala para ela brilhar, e não apenas “encher o prato”

O primeiro segredo que muitos cozinheiros caseiros partilham é brutalmente simples: comprar fresca e pedir ao peixeiro que a limpe bem. No mercado de Niterói, os vendedores agora oferecem automaticamente cortar a cavala em postas ou filetes, aparar as linhas de sangue escuras e ensacar cabeça e espinhas à parte para caldo. Só isso já transforma um peixe “feio” e barato em algo com ar de jantar para convidados.
Em casa, as pessoas estão a afastar-se de fritar tudo em imersão. Marinam a cavala com lima/limão, alho e ervas, e depois assam a alta temperatura para as bordas tostarem e o centro ficar suculento. Ou grelham postas grossas rapidamente e servem com farinha de mandioca, salada e arroz.
O peixe que antes sofria no fogão finalmente está a ser cozinhado nos seus próprios termos.

O maior erro de quem está a começar? Tratar a cavala como tilápia ou salmão e esperar o mesmo sabor suave. A cavala é assertiva, com um toque mais “selvagem”, e isso faz parte do encanto. Quando alguém a compra “porque é barata” e depois a cozinha sem acidez, sem especiarias ou sem calor suficiente, muitas vezes sai dali a achar que a odeia. Todos já passámos por isso: culpar o ingrediente em vez da receita.
A mudança que se vê nas cozinhas brasileiras é mais cuidadosa. As pessoas juntam cebola em rodelas, pimento, coentros, leite de coco, e deixam o peixe cozinhar apenas até lascar. Servem com farofa ou com um puré simples de mandioca e chamam-lhe banquete, não compromisso.

“A cavala estava na praia antes do sushi, antes do poke da moda, antes do salmão do supermercado”, diz a chef Ana Paula, que tem um pequeno restaurante em Santos. “Quando as pessoas se lembram de que famílias do litoral criaram gerações com este peixe, deixam de o ver como ‘de pobre’ e passam a vê-lo como inteligente.”

  • Traga acidez: lima/limão, vinagre ou tomate cortam o sabor mais rico e realçam a frescura.
  • Use sabores marcantes: alho, gengibre, coentros, paprika/pimentão, ou óleo de dendê combinam naturalmente com o perfil mais forte da cavala.
  • Controle o tempo: cozinhar rápido e em lume alto mantém a suculência; cozer/estufar por muito tempo só funciona com molho ou caldo suficientes.
  • Pense no peixe inteiro: comprar inteiro costuma sair mais barato por quilo e dá espinhas para sopas e caldos.
  • Comece devagar: se estiver receoso, misture pedaços de cavala numa moqueca ou num guisado de peixe, em vez de servir grandes postas logo no primeiro dia.

Quando um “peixe de pobre” se torna o herói silencioso do prato brasileiro

Está a acontecer algo mais profundo do que uma tendência de receita viral. À medida que a cavala sai do fundo do balcão e vai para a frente, os brasileiros renegociam silenciosamente o que conta como comida “boa”. O marketing dos supermercados passou anos a convencer consumidores urbanos de que o salmão importado ou a tilápia de viveiro estavam no topo da pirâmide. Agora, apertadas por renda, combustível e material escolar, as famílias olham para o lado, não para cima, e encontram valor no que é próximo, sazonal e generoso.
Há uma dignidade estranha em servir aquilo que os avós comiam, mas desta vez por escolha.
Sejamos honestos: ninguém estuda tabelas de peixe e gráficos de ómega‑3 todos os dias.

Ouve-se isso na forma como as pessoas falam no balcão do peixe. “Isto dá para a família toda.” “Posso congelar metade.” “Se eu comprar carne de vaca, acabou, dá só para uma refeição.” A cavala entra em marmitas, em grelhados de domingo, em dietas de perda de peso e planos de musculação. Não finge ser luxo; simplesmente cumpre bem o papel, a um preço que não dói. Para muitos, essa mistura de segurança, nutrição e custo não é apenas conveniente - é sobrevivência.
O rótulo de “peixe de pobre” começa a soar absurdo quando a suposta escolha “pobre” é muitas vezes a mais racional no gelo.

Ao mesmo tempo, as comunidades costeiras sentem um pequeno mas real impulso. Quando a procura muda de opções importadas para a pesca local, o dinheiro fica mais perto dos barcos e dos cais. Alguns pescadores no Espírito Santo dizem que agora vendem cavala antes mesmo de ela chegar ao mercado, através de grupos de WhatsApp de clientes fiéis. Jovens cozinheiros experimentam ceviches, hambúrgueres e pastas feitas com o mesmo peixe que os avós secavam em cordas.
Ninguém sabe quanto tempo vai durar esta onda de entusiasmo. Tendências alimentares podem ser voláteis, e uma má história viral pode desfazer meses de construção paciente de confiança. Mas a redescoberta da cavala - segura, acessível, assumidamente rica em nutrientes - aponta para um futuro em que os brasileiros olham menos para o rótulo e mais para a história por trás da comida.
E talvez o próximo “peixe de pobre” já esteja à espera, em silêncio, sobre o gelo, pronto para a sua vez sob os holofotes.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A cavala é segura e muito nutritiva Peixe oceânico de porte médio, baixo em contaminantes, rico em proteína, ómega‑3, vitamina D e B12 Confiança para trocar carnes caras e peixe importado por uma opção local mais saudável
Baixo custo, alta versatilidade Custa muito menos do que carne de vaca ou salmão; funciona grelhada, assada, em guisados, ou preparada em porções e congelada Fazer o orçamento mensal render sem sacrificar sabor ou saciedade
Dicas simples de manuseamento e confeção Pedir limpeza adequada, usar acidez e temperos fortes, preferir cozedura rápida em lume alto ou guisados com bastante molho Evitar desastres “a saber a peixe” e transformar um peixe antes ignorado num básico fiável em casa

FAQ:

  • A cavala é mesmo segura para comer regularmente? Para a maioria dos adultos saudáveis, comer cavala algumas vezes por semana é considerado seguro. É um peixe de porte médio com níveis geralmente moderados de contaminantes, sobretudo quando é proveniente de zonas costeiras limpas. As orientações de saúde locais costumam incentivar a rotação de diferentes espécies de peixe, em vez de depender sempre da mesma.
  • Como posso saber se a cavala está fresca no mercado? Procure olhos brilhantes e límpidos, carne firme que recupera ao toque, e um cheiro limpo a mar, e não um odor forte “a peixe”. A pele deve estar brilhante, não baça, e as guelras, se visíveis, devem ser avermelhadas e não castanhas ou cinzentas.
  • Qual é a melhor forma de reduzir o sabor forte? Deixe as postas de molho em água fria com um pouco de sal e lima/limão durante 10–15 minutos, depois passe por água, escorra e seque com papel. Cozinhar com tomate, cebola e ervas, ou usar leite de coco e especiarias, também equilibra bem o sabor.
  • Posso congelar cavala sem perder qualidade? Sim. Divida em sacos do tamanho de uma refeição, retire o máximo de ar possível e congele no mesmo dia em que compra. Use dentro de um a dois meses para melhor textura. Descongele no frigorífico, não à temperatura ambiente.
  • A cavala é uma boa opção para crianças e idosos? Muitas vezes sim, desde que as espinhas sejam removidas com cuidado e as porções sejam adequadas às necessidades. A textura macia quando bem cozinhada e o elevado teor nutritivo podem ser especialmente benéficos, embora quem tenha condições de saúde específicas deva seguir aconselhamento médico.

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