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Um médico está a ser processado pela Ordem dos Médicos por recusar renovar uma receita: "Não havia emergência médica."

Médico de bata branca levanta a mão numa consulta, sentado à secretária com computador e calendário.

Não houve gritos - apenas duas vozes baixas a tentar soar calmas e a falhar. De um lado, um médico de família com ar cansado, braços cruzados, os óculos a escorregarem pelo nariz. Do outro, um doente a apertar um saco de plástico com uma receita com tanta força que o papel estalava.

  • Não posso renovar isto - disse o médico. - Não há uma urgência médica.
    O doente ficou a olhar para ele, atónito. Uma pausa. Depois: - Quer dizer que me vai deixar ficar sem isto?

A rececionista ficou imóvel, a fingir que escrevia. Uma mulher com tosse levantou os olhos do telemóvel. Todos sentiram que, de repente, faziam parte de algo maior do que uma consulta de rotina.
Alguns meses mais tarde, esse mesmo médico de família viria a estar perante a Ordem dos Médicos, a defender exatamente essa frase.

Quando um “não” no consultório do médico de família vira notícia nacional

No papel, parece simples: um médico de família recusou renovar uma receita porque “não havia urgência médica”. Na realidade, o caso agora analisado pela Ordem dos Médicos está longe de ser simples. Toca no medo, na confiança, no dever profissional e numa pergunta a que nenhuma norma responde verdadeiramente: onde termina o juízo clínico e começa a negligência?

O médico, cujo nome tem circulado entre colegas mas nem sempre na imprensa, insiste que agiu de acordo com os padrões clínicos. O doente afirma que foi exposto a um risco desnecessário, ficando sem medicação vital. Entre estas duas posições existe uma zona cinzenta que a maioria de nós só percebe quando algo corre mal.

A um nível humano, é o tipo de história que mexe com quase toda a gente. Se é doente, imagina-se a ficar sem os comprimidos que mantêm o corpo ou a mente estáveis. Se é médico, imagina a sua assinatura numa receita com a qual não se sente totalmente confortável. É essa corda bamba que este caso expõe, em plena luz do dia.

Numa tarde semelhante, um ano antes, outro doente noutra cidade entrou no consultório do seu médico de família com o mesmo pedido: “Renove só a minha receita habitual.”
Nesse caso, o médico também hesitou. A dose não mudava há anos, a condição parecia estável e não havia análises recentes no processo. Ainda assim, a receita foi renovada “só desta vez” para evitar conflito, para manter as coisas simples. Ninguém reclamou, não houve Ordem dos Médicos, nem notícias. A vida continuou.

A grande diferença? Neste caso mais recente, o médico traçou uma linha. Defendeu que continuar um fármaco de longa duração sem avaliação clínica recente não era seguro. O doente diz que explicou repetidamente que estava em risco sem a medicação. Notas clínicas, e-mails e chamadas telefónicas estão agora a ser dissecados por advogados e peritos como uma caixa negra após um acidente.
Os números mostram que estas situações estão longe de ser raras: em muitos países, as renovações de receitas representam bem mais de metade de todos os itens que os médicos de família assinam semanalmente. Uma pequena pausa ou recusa nessa rotina, e todo o sistema sofre um sobressalto.

O papel da Ordem dos Médicos não é refazer a cena com o benefício de uma retrospetiva perfeita, mas responder a uma pergunta mais difícil: o “não” do médico foi uma decisão clínica razoável ou uma falha de cuidados? Para isso, analisam orientações sobre continuidade terapêutica, dever de prevenir danos e a forma como os médicos devem gerir medicação não urgente, mas sensível ao tempo. Do lado do médico, o argumento é segurança e limites: nem todos os pedidos equivalem a uma urgência. Do lado do doente, é continuidade, confiança e o pânico invisível de ver os comprimidos a acabar.

Há ainda outra camada: como se define “urgência médica” na vida real, fora dos manuais. Dor no peito? Todos concordam. Crise suicida? Claro. Mas e alguém cuja medicação antiepilética termina daqui a três dias? Um doente com antidepressivos que não podem ser interrompidos abruptamente? Insulina? Comprimidos para a tensão arterial? Faixas de tempo em que ainda não aconteceu nada dramático, mas o relógio está a contar. É aí que os juízos clínicos se tornam confusos - e onde as três palavras do médico (“não há urgência médica”) soam agora dolorosamente frágeis.

Dentro da realidade confusa das renovações de receitas

Por trás das manchetes, este caso obriga a olhar de perto para a forma como as renovações de receitas funcionam no dia a dia. Os médicos de família assinam dezenas - por vezes centenas - de renovações por semana. Muitas são feitas sem ver o doente presencialmente. É rotineiro, rápido, eficiente. Também é onde riscos silenciosos e invisíveis se acumulam ao longo do tempo.

O processo ideal parece arrumado no papel: revisões regulares, monitorização clara, contacto fácil se surgirem problemas. A vida real é mais irregular. As pessoas esquecem consultas, as vagas para análises estão cheias, o pessoal administrativo filtra mensagens à pressa. Um médico pode percorrer um ecrã cheio de nomes ao fim de um dia longo e clicar em “aprovar” ou “recusar” em segundos. Todo o sistema assenta na suposição de que todos agirão de forma razoável e serão ouvidos a tempo.

Para os doentes, um método simples pode reduzir o risco de bater nessa parede do “não renovo”. Ajuda manter uma linha temporal básica: quando começou a medicação, quando a dose mudou e quando foram prometidas revisões. Até um pequeno caderno ou uma nota no telemóvel pode fazer diferença. Levar essa linha temporal à consulta muda a dinâmica de “dê-me só o habitual” para “isto é o que tem acontecido com o meu tratamento”.

Do lado do médico, explicar a razão no momento da recusa é crucial. Dizer “não” sem acrescentar “porque” é como bater uma porta na cara de alguém. Frases claras como: “Estou preocupado em renovar isto sem verificar X e Y; por isso, aqui está a forma como podemos fazer uma ponte em segurança” transformam conflito em colaboração. É exatamente esse tipo de nuance que a Ordem dos Médicos irá questionar: não apenas o que o médico decidiu, mas como o comunicou.

Quando a sua medicação parece uma tábua de salvação, ouvir “não há urgência médica” pode soar como um julgamento da sua própria experiência. Pode parecer: está a exagerar, não é grave, espere pela sua vez. Num plano racional, os médicos têm de priorizar as situações mais urgentes e potencialmente fatais. Emocionalmente, porém, a urgência é pessoal. Ficar sem medicação para a ansiedade numa segunda-feira de manhã antes do trabalho pode não ser um enfarte, mas para a pessoa em causa pode, ainda assim, parecer um precipício.

Todos já passámos por esse momento em que o corpo ou a mente gritam “isto não pode esperar” enquanto o sistema à volta responde “não é urgente”. Essa distância gera ressentimento de ambos os lados. Os doentes sentem-se ignorados, os médicos sentem-se acusados. Se faltou a consultas ou esticou receitas para além do recomendado, muitas vezes entra vergonha na sala - mesmo que ninguém diga a palavra. Sejamos honestos: ninguém faz isto perfeito todos os dias.

Por isso, a linguagem simples e empática importa. Médicos de família que tiram dez segundos para dizer “vejo que isto a/o está a stressar; aqui está o que me preocupa clinicamente” muitas vezes evitam situações que mais tarde acabariam em queixas formais. Doentes que dizem “tenho medo do que acontece se parar isto de repente” dão ao seu médico uma imagem mais clara com que trabalhar. Não se trata de quem tem razão em teoria, mas de quem se sente ouvido no momento.

“Não recusei porque não me importava”, disse-nos um médico de família envolvido num caso semelhante, sob anonimato. “Recusei porque me importava o suficiente para ser cauteloso. Essa parte nunca encaixa bem numa manchete.”

Este tipo de caso também levanta lições práticas discretas que a maioria das pessoas nunca ouve. Por exemplo, muitas unidades têm políticas de prescrição de urgência que permitem uma curta dispensa “ponte” enquanto se agenda uma revisão. Nem todos os doentes sabem que podem pedir isso explicitamente. Em alguns locais, algumas farmácias comunitárias podem disponibilizar quantidades muito pequenas em situação de urgência, sob regras rigorosas. Mais uma vez, muitas pessoas só descobrem isso quando a situação já escalou.

  • Peça com antecedência: contacte a sua unidade de saúde pelo menos 7–10 dias antes de a medicação acabar.
  • Use canais escritos: mensagens seguras ou e-mails criam um registo rastreável do seu pedido.
  • Explique por que é importante: diga de forma breve o que lhe acontece quando falha doses.
  • Conheça o plano B: pergunte à sua unidade ou farmacêutico que opções de urgência existem.
  • Mantenha um registo: anote mudanças, efeitos secundários e orientações anteriores do médico para apoiar o seu pedido.

O que este caso realmente pergunta a todos nós

O processo contra este médico de família na Ordem dos Médicos não vai resolver magicamente a tensão entre prudência clínica e necessidade do doente. Mesmo quando houver decisão, milhares de pequenas decisões silenciosas continuarão a acontecer todos os dias em consultórios e caixas de entrada. Um médico vai hesitar perante um pedido de receita. Um doente vai hesitar em insistir, para não parecer “difícil”. Uma rececionista vai decidir que mensagem sinalizar como urgente. Tudo isso, entrelaçado, molda o nosso sentimento de segurança no sistema.

Para quem lê, a história toca em algo mais íntimo do que a linguagem regulatória. Pergunta como agimos quando as pessoas de quem dependemos impõem limites. Pressionamos, reclamamos, mudamos de médico, ou tentamos compreender o medo do outro lado da secretária? E pergunta também que tipo de honestidade esperamos dos clínicos: queremos que assinem tudo em silêncio para nos manter satisfeitos, ou que arrisquem conflito em nome da cautela?

A frase “não havia urgência médica” continuará a ecoar muito para além da sala de audiências. Em cada unidade onde um médico se pergunta se recusar uma receita hoje pode significar enfrentar um processo amanhã, o comportamento mudará um pouco. Em cada casa onde alguém passa a temer que a sua própria medicação crónica possa ser questionada, a ansiedade sobe um nível. Entre esses dois medos existe um terreno frágil: orientações transparentes, espaço para conversa e margem para que tanto o julgamento profissional como a experiência do doente contem como evidência real.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A frase no centro do processo O médico recusou a renovação afirmando que “não havia urgência médica”. Perceber como três palavras podem virar uma relação de cuidados e acabar perante a Ordem.
A zona cinzenta das renovações As receitas repetidas representam grande parte da atividade dos médicos, com riscos invisíveis. Ver o que realmente está em jogo quando se pede “só” a receita habitual.
Como se proteger como doente Antecipação, registo escrito, explicação dos riscos sentidos, conhecimento das opções de urgência. Manter algum controlo quando o sistema parece bloqueado ou distante.

FAQ:

  • O médico de família tinha autorização legal para recusar a receita? A resposta depende da lei local e das orientações profissionais, mas em muitos sistemas os médicos podem recusar uma renovação se considerarem que é clinicamente insegura. A função da Ordem dos Médicos é decidir se essa recusa se manteve dentro de padrões profissionais aceitáveis.
  • O que conta como “urgência médica” no contexto de medicação? Regra geral, contam ameaças imediatas à vida ou deterioração grave e rápida, como dor no peito, dificuldades respiratórias agudas ou risco suicida ativo. Tratamentos de longo prazo também podem tornar-se urgentes quando a interrupção súbita é perigosa - e é aí que o julgamento se torna difícil.
  • O que posso fazer se o meu médico de família não renovar a receita? Pode pedir calmamente a razão clínica, solicitar uma receita “ponte” de curta duração e perguntar por vagas de revisão urgente. Em algumas zonas, farmacêuticos, serviços fora de horas ou médicos de urgência podem oferecer soluções temporárias sob condições rigorosas.
  • Um caso destes pode mudar a forma como todos os médicos de família prescrevem? Sim. Audições com grande exposição mediática tornam os médicos mais cautelosos ou mais propensos a documentar as razões. Isso pode significar explicações mais completas para os doentes, mas também mais “medicina defensiva”, em que evitar queixas entra na equação.
  • Como podem doentes e médicos evitar chegar ao ponto de uma queixa? Falando mais cedo e com mais clareza. Doentes podem partilhar medos e cronologias; médicos podem partilhar preocupações de segurança e limites. Quando ambos sentem que estão na mesma equipa, um “não” soa menos a castigo e mais a proteção partilhada.

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