Saltar para o conteúdo

Trabalho em coordenação de cadeia de abastecimento e a progressão salarial é uma realidade.

Mulher trabalha com mapa numa mesa de escritório, com portátil e maquetes de contentores marítimos ao lado.

Foi uma noite de terça-feira, 22h47, e o meu telemóvel vibrou com mais uma mensagem do tipo “Onde está o camião?”. Eu ainda estava na secretária, a olhar para um mapa cheio de contentores atrasados, com o café meio bebido a arrefecer. O meu cargo diz “coordenador/a de cadeia de abastecimento”, mas na maior parte dos dias parece mais controlador/a de tráfego aéreo, bombeiro/a e terapeuta - tudo ao mesmo tempo.

A parte engraçada? Não odeio isto. Porque todos os anos em que sobrevivo a mais uma época alta, o meu recibo de vencimento sobe discretamente de nível.

As pessoas acham que a supply chain é armazéns poeirentos e folhas de cálculo. O que não veem é a progressão salarial muito real por detrás do caos.

E está a tornar-se difícil de ignorar.

De trabalho invisível a elevador salarial poderoso

A primeira vez que vi “supply chain” num portal de emprego, achei que soava a… bege. Nada glamoroso, nada criativo, apenas “coordenação”. Depois vi as bandas salariais e pisquei os olhos duas vezes. As funções de entrada já pagavam de forma decente, e a curva de crescimento parecia menos uma linha plana e mais uma escadaria.

Quando estás no meio de fornecedores, fábricas, transportadoras e clientes, tornas-te a pessoa de quem todos precisam no marcadores rápidos. É aí que o dinheiro começa a fazer sentido. Porque quanto mais complexo é o fluxo, mais valiosa é a pessoa que impede que tudo se desmorone.

O meu próprio percurso pareceu muito normal ao início. Comecei como coordenador/a júnior numa empresa de média dimensão, com um salário que mal batia o que os meus amigos ganhavam no retalho. Em 18 meses, conduzi o meu primeiro lançamento de produto de ponta a ponta: 40 contentores, três portos, uma migração de armazém e um diretor comercial a respirar-me no pescoço.

Quando o lançamento, de facto, chegou a horas, o tom mudou. A avaliação seguinte trouxe um aumento de 12% e um bónus que pagou a minha carta de condução. Dois anos depois, eu coordenava uma pequena equipa e a minha remuneração tinha subido, discretamente, quase 40% face àquela primeira proposta “bege”.

Isto não é só uma história pessoal. Estudos em logística, retalho e indústria mostram repetidamente que funções de supply chain a meio da carreira ultrapassam muitos empregos clássicos de escritório em termos de compensação. Porquê? Porque estamos exatamente onde as empresas estão a perder dinheiro: atrasos, ruturas de stock, penalizações, carga aérea urgente. Se reduzes isso, mesmo que apenas alguns pontos percentuais, as poupanças são enormes.

Essa é a lógica silenciosa por trás da progressão salarial. Não estás só a “coordenar” e-mails. Estás a transformar dores de cabeça operacionais em fluxos previsíveis. E paga-se bem a quem torna a confusão menos cara.

Como a escada salarial se move, na prática, na coordenação de supply chain

Há um padrão de como a remuneração sobe nesta área, mesmo que ninguém te o explique no primeiro dia. O primeiro degrau é execução básica: marcar transportes, verificar documentos, atualizar ETAs, responder a e-mails do tipo “Onde está a minha encomenda?”. Pagam-te para seres fiável e não perderes o fio às coisas.

O degrau seguinte aparece quando começas a detetar padrões. Reparas que uma rota chega sempre atrasada, ou que um fornecedor envia paletes mal acondicionadas todas as segundas-feiras. Quando começas a propor melhores rotas, a renegociar janelas, ou a ajustar pontos de reposição, o teu trabalho muda discretamente de “administrativo” para “operacional com influência”. É aí que a compensação começa a acelerar.

Uma colega minha, a Léa, é o exemplo perfeito. Entrou como temporária, a fazer pura introdução de dados de expedições. Ninguém esperava que ficasse. Em seis meses, montou um dashboard simples de tracking em Excel porque estava cansada de andar a perseguir atualizações por e-mail. Essa folha reduziu para metade as perseguições internas.

O gestor reparou. Veio um contrato sem termo, depois um aumento, depois formação num TMS novo e sofisticado. Dois anos mais tarde, a Léa já não era a estagiária. Era a pessoa que mandavam para outros sites para ajudar a “fazer como ela fez”. E o salário acompanhou esse novo estatuto, passo a passo.

Do ponto de vista analítico, a progressão salarial em coordenação de supply chain segue três alavancas. A primeira é o âmbito: o número de fluxos, regiões ou linhas de produto que geres. A segunda é o impacto: quanto dinheiro as tuas decisões influenciam realmente, através de custo, nível de serviço ou inventário. A terceira é a escassez: quantas pessoas na tua empresa conseguem mesmo substituir-te se saíres.

À medida que o teu âmbito se alarga, o teu impacto cresce e as tuas competências se tornam mais raras, o teu valor de mercado sobe. É aqui que a supply chain se torna uma carreira a sério, e não apenas um trabalho de passagem. As empresas sabem-no também, sobretudo sempre que há uma disrupção e percebem que, sem bons coordenadores, a estratégia “bonita” não passa de um PowerPoint.

Transformar um trabalho de “coordenação” num motor salarial

O verdadeiro truque não é esperar por aumentos. É trabalhar como alguém que já está na banda salarial seguinte. Um método muito prático: acompanhar o teu impacto como se acompanhasses uma expedição. Mantém um registo simples dos problemas que resolveste, dos atrasos que reduziste, dos custos extra que evitaste. Quantifica sempre que possível, mesmo que seja uma estimativa.

Depois liga isso a dinheiro. Se evitaste quatro envios urgentes por carga aérea este mês, estima o custo por envio. Se reduziste o atraso médio numa rota, traduz isso em menos stock de segurança ou menos penalizações. Estás a construir um dossiê privado que diz: “Eis porque a minha coordenação vale mais este ano do que valia no ano passado.”

Há também o lado humano, aquele que ninguém escreve no LinkedIn. Vais cometer erros, enviar datas erradas de booking, interpretar mal Incoterms, esquecer um documento aduaneiro. Todos já passámos por isso - aquele momento em que percebes que um camião esteve à espera no portão durante duas horas… por tua causa.

É aqui que a progressão pode estagnar ou acelerar. Se te escondes, culpas os outros, ficas em silêncio, tornas-te “aquele/a coordenador/a arriscado/a”. Se assumes, reparas, aprendes e partilhas a lição com a equipa, tornas-te alguém em quem confiam para responsabilidades maiores e melhor pagas. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, impecavelmente. Mas quem o faz vezes suficientes é quem vê o salário mexer mais depressa.

“A supply chain costumava estar na cave. Agora, quando algo falha, o CEO está nas nossas reuniões”, disse-me um/a gestor/a sénior. “Cada disrupção transforma o nosso trabalho invisível em valor visível. E sim, o salário está a acompanhar isso.”

  • Documenta as tuas vitórias
    Aponta poupanças, reduções de atrasos e recuperações de crises, mesmo as pequenas.
  • Aprende um nível acima
    Se és coordenador/a, percebe o que interessa a planeadores, compradores e gestores de armazém.
  • Mantém-te perto dos números
    Pergunta às finanças ou ao teu gestor como os KPIs de logística se traduzem em dinheiro.
  • Usa dados de mercado
    Consulta estudos salariais para a tua função e região antes de cada avaliação.
  • Fala de progressão cedo
    Não esperes cinco anos para dizer que queres evoluir para analista, planeador/a ou gestão.

Para onde este caminho pode levar quando aproveitas a onda

A resposta honesta é: mais longe do que a maioria pensa. Muitos empregos bem pagos são simplesmente versões avançadas do que os coordenadores fazem todos os dias, com melhores ferramentas e orçamentos maiores. Analista de supply chain? É um/a coordenador/a com competências de dados mais fortes. Gestor/a de logística? Um/a coordenador/a que aprendeu a liderar pessoas, além de camiões e contentores.

E, a partir daí, começam a aparecer títulos como “Responsável de Supply Chain”, “Diretor/a de Operações”, até “COO”. Muitos desses líderes começaram onde os telefones tocam e os camiões chegam tarde. Apenas ficaram tempo suficiente para transformar a intuição operacional em estratégia.

Ponto-chave Detalhe Valor para o/a leitor/a
O salário pode crescer depressa Âmbito, impacto e escassez fazem subir a remuneração quando vais além de tarefas administrativas básicas Perceber porque a tua função é mais valiosa do que pode parecer no papel
Acompanha o teu impacto Regista poupanças, atrasos reduzidos e crises evitadas em números simples Entrar nas avaliações com motivos concretos para negociar um salário mais alto
Pensa em degraus de carreira Coordenador/a → analista/planeador/a → gestor/a → liderança de operações Ver o emprego atual como trampolim, e não como beco sem saída

FAQ:

  • A coordenação de supply chain é mesmo um trabalho bem pago?
    Ao nível de entrada, muitas vezes está “a meio da tabela”, mas a progressão pode ser bem mais acentuada do que em muitas funções genéricas de escritório. Quando passas a gerir fluxos maiores, projetos ou equipas, os salários tornam-se muito competitivos, sobretudo em sectores como e-commerce, фарма e automóvel.
  • Preciso de um curso específico para aumentar o salário nesta área?
    Um curso especializado ajuda no primeiro emprego, não no quinto. Muitos coordenadores bem pagos começaram com gestão geral, línguas ou até sem curso superior. O que faz subir a remuneração mais tarde é a tua capacidade de lidar com complexidade, usar dados e comunicar com clareza sob pressão.
  • Quanto tempo demora a ver progressão salarial real?
    Se fores proativo/a e estiveres numa empresa em crescimento, podes sentir uma subida real em 18–24 meses. Pode ser uma promoção, uma subida de banda, ou uma mudança para um empregador que paga melhor e valoriza a tua experiência.
  • Vale a pena mudar de empresa para ganhar mais?
    Às vezes, sim. Se atingiste um teto ou se a tua empresa ainda trata a logística como um centro de custo sem percursos de carreira, mudar pode desbloquear rapidamente uma banda mais alta. Usar o teu registo de impacto nas entrevistas pode justificar uma proposta inicial mais elevada.
  • Em que competências devo focar-me para aumentar a remuneração?
    Duas grandes: literacia de dados (Excel, dashboards, análise básica) e comunicação (e-mails claros, atualizações estruturadas, gestão calma de crises). Junta uma terceira, como previsão, inventário ou otimização de transportes, e tornas-te muito mais “caro/a” - no melhor sentido.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário