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Tornei-me supervisor de obra sem curso superior e o meu salário mostra que valeu a pena.

Engenheiro num estaleiro de construção, segurando planos, com betoneira e trabalhadores ao fundo.

A primeira vez que um pedreiro com o dobro da minha idade me pôs os planos do dia nas mãos e disse: “Hoje és tu que mandas, chefe”, quase me virei para ver com quem é que ele estava a falar. A betoneira rugia, a grua apitava em marcha-atrás, e ali estava eu: 27 anos, sem licenciatura, capacete azul ainda a estrear. As mãos tremiam-me tanto que fingi estar a ver o telemóvel só para as esconder.

O arquiteto pedia atualizações, o cliente queria uma visita, e um camião de entregas estava a bloquear a rua. Algures entre o caos e o pó, percebi uma coisa que me mudou a vida.

Não queriam saber do meu diploma.

Queriam saber se a obra avançava.

De servente a encarregado de obra: o dia em que os números mudaram

Quando saí da escola sem um curso superior, o meu primeiro trabalho numa obra pagava o suficiente para a renda e massa instantânea barata. Carregava baldes, varria o chão e fazia todas as tarefas que ninguém queria. Ouvi mais do que falei. Observei como o encarregado se mexia, com quem falava primeiro de manhã, como mantinha o plano na cabeça como se fosse uma canção.

Numa sexta-feira, o meu recibo de vencimento veio parar-me às mãos e, por acaso, vi o dele. A diferença foi brutal. Ele ganhava quase o dobro do meu salário. Nessa noite, deitado num colchão num estúdio minúsculo, fiz uma promessa silenciosa: um dia vou ter o trabalho dele. E vou lá chegar sem voltar para a universidade.

O ponto de viragem chegou dois anos depois, numa terça-feira chuvosa. O nosso encarregado ficou preso noutra obra do outro lado da cidade, e o capataz enfiou-me uma planta dobrada nas mãos. “Tu sabes o plano. Hoje coordenadas tu.” Ri-me, nervoso, a achar que era brincadeira - e depois vi toda a gente a olhar para mim. Por isso, comecei a andar.

Falei com o eletricista. Confirmei com o canalizador. Perguntei ao manobrador da grua quantas elevações conseguia fazer antes do almoço. No fim do dia, o diretor de obra apareceu, inspecionou o progresso e acenou com a cabeça. “Bom ritmo”, disse. Duas semanas depois, o meu cargo passou de operário a encarregado adjunto. O meu rendimento subiu 30% num único e-mail. Foi aí que percebi: a porta do diploma tinha-se fechado, mas outra porta esteve escancarada o tempo todo.

Há uma razão simples para este caminho funcionar tão bem na construção. Os projetos vivem e morrem na coordenação, não na teoria. Um encarregado que sabe falar com uma equipa de betão às 6 da manhã vale mais do que um gestor que só sabe falar em salas de reunião. As empresas andam desesperadas por pessoas que saibam ler uma planta, resolver um atraso e manter uma equipa a andar sem rebentar sob pressão.

Essa mistura de competências humanas e raciocínio prático não vive num diploma. Vive na lama, à chuva, entre uma entrega atrasada e um cliente furioso. Quando percebes isso, a escada da carreira começa a parecer muito diferente. Um diploma passa a ser uma ferramenta, não uma parede. E se não o tens, há outras ferramentas que podes afiar.

Como “hackeei” o caminho para a gestão sem um diploma

O primeiro verdadeiro “hack” foi estupidamente simples: comecei a pedir cinco minutos extra ao encarregado no fim de cada dia. Não para reclamar. Só para perguntar o que é que ele tinha feito, de facto. Que chamada mudou o planeamento. Porque é que mudou uma equipa da cave para o terceiro piso.

Era como ter aulas particulares grátis. Enquanto toda a gente ia a correr para o balneário, eu ficava ali, de botas cheias de pó, encostado ao capô da carrinha dele. Esse hábito diário ensinou-me a pensar como um encarregado muito antes de eu o ser. Mais tarde, quando ele precisou de alguém para o substituir, o meu nome foi o primeiro que lhe veio à cabeça - não porque eu fosse brilhante, mas porque eu tinha estado a treinar para a função, em silêncio, nas sombras.

A segunda coisa que fiz foi dizer “sim” a tarefas que me assustavam um pouco. Preencher o registo diário de produção, ligar a um fornecedor, explicar o progresso ao arquiteto quando a voz ainda me tremia. O medo não desapareceu; eu é que deixei de o ver como sinal de que não estava pronto.

Muitos bons trabalhadores ficam presos durante anos porque esperam sentir-se totalmente preparados. Sejamos honestos: ninguém está, todos os dias. Essa fantasia do gestor perfeitamente confiante é só isso - uma fantasia. Quem sobe é quem aceita parecer um bocadinho desajeitado enquanto aprende. Fiz as pazes com o facto de soar inseguro ao telefone, desde que, no fim do dia, o trabalho estivesse feito.

Houve uma coisa que ouvi muitas vezes: “Sem diploma, vais bater no teto.” Talvez também já tenhas ouvido isso. Percebo de onde vem, e há alguma verdade em estruturas corporativas grandes. Mas na obra reparei noutra coisa.

Já vi pessoas com curso superior rebentarem ao fim de três meses de caos real - e já vi antigos serventes tornarem-se o tipo de encarregado com quem toda a gente quer trabalhar.

Por isso, construí o meu próprio sistema discreto para crescer sem diploma:

  • Aprender a “língua” dos desenhos e das plantas antes de tudo.
  • Voluntariar-me para coordenar uma parte pequena da obra, e depois outra.
  • Pedir feedback honesto ao trabalhador mais resmungão da equipa.
  • Fazer pelo menos uma formação curta por ano, mesmo que seja à noite ou ao fim de semana.
  • Tomar notas de cada problema que resolvo, grande ou pequeno, e de como o resolvi.

Esse “MBA caseiro” não me deu um certificado bonito. Deu-me algo melhor: prova diária de que eu conseguia fazer o trabalho que estava a pedir.

Como é o meu rendimento - e os meus dias - agora

Hoje, quando o meu recibo chega à caixa de e-mail, ainda me lembro dos dias em que contava moedas para pôr combustível. Como encarregado de obra, o meu rendimento está agora confortavelmente dentro da faixa que eu achava que era reservada a pessoas de escritório com currículos longos. O salto não foi de um dia para o outro. Foi passo a passo: servente, operário qualificado, encarregado adjunto e, depois, encarregado com responsabilidade por orçamentos, segurança e datas de entrega.

O dinheiro não é tudo. Mas a primeira vez que paguei uma conta do dentista sem suar, a primeira vez que marquei um fim de semana fora em vez de mais um mês “em casa”, senti algo a desatar dentro do peito. Aquela pressão silenciosa de “nunca vou sair disto” começou a desaparecer.

A contrapartida é real. Os meus dias começam cedo. O telemóvel toca quando alguma coisa corre mal, mesmo num domingo de manhã. Há pressão, prazos e dias em que a chuva ou o vento apagam uma semana de planeamento cuidadoso numa única tarde. Nessas manhãs, ponho o capacete, respiro fundo e caminho pela obra na mesma.

Não vou fingir que isto é um conto de fadas. Há noites em que chego a casa com pó no cabelo e dúvidas na cabeça. Fiz bem? Devia ter lutado para voltar aos estudos formais? Depois lembro-me do trabalhador que me puxou de lado no mês passado e disse: “Eu ia contigo para a próxima obra, chefe.” Essa frase pesa mais do que qualquer diploma na parede.

A maior mudança é cá dentro. Deixei de ver a falta de diploma como uma falha vergonhosa no meu CV e comecei a tratá-la como uma rota diferente no mesmo mapa. O meu rendimento prova que a rota funciona. O meu dia a dia prova que não é fácil, mas é real.

Há espaço nesta indústria para quem aprende com as mãos e com os ouvidos tanto quanto com livros. Se hoje estás em cima de uma laje de betão fresco a pensar que vais ficar ali para sempre, ouve isto: o caminho para o contentor do encarregado pode já estar debaixo das tuas botas. A questão não é se tens o papel certo. A questão é se estás pronto para começar a andar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A experiência vence o diploma na obra Coordenação diária, resolução de problemas e competências humanas contam mais do que títulos formais Dá esperança e um ângulo concreto para progredir sem voltar a estudar
Pequenos esforços extra acumulam Debriefs de cinco minutos, dizer “sim” a tarefas assustadoras e formações curtas ao longo dos anos Mostra uma estratégia realista e exequível, em vez de um atalho mágico
O crescimento do rendimento é gradual mas real Progressão de servente a encarregado com subidas em cada etapa Ajuda o leitor a visualizar uma trajetória financeira que vale a pena perseguir

FAQ:

  • É mesmo possível tornar-se encarregado de obra sem qualquer curso superior?
    Sim, sobretudo em empresas de construção que valorizam experiência de terreno. Muitos encarregados começam como serventes ou oficiais e vão crescendo ao aprender planeamento, segurança e coordenação no trabalho.

  • Quanto tempo demora, normalmente, a subir?
    Partindo do zero, conta com 4–7 anos para chegar a encarregado “a sério”: uns anos como trabalhador, depois como operário qualificado ou chefe de equipa, depois encarregado adjunto e, finalmente, encarregado.

  • Que competências contam mais se eu não tiver diploma?
    Ler plantas, noções básicas de planeamento, comunicação clara, gestão de conflitos e consciência de segurança. A capacidade de manter a calma quando três problemas aparecem ao mesmo tempo vale ouro.

  • As formações ou certificados ainda ajudam?
    Sim. Cursos curtos em segurança, gestão ou competências técnicas específicas podem melhorar o teu perfil e justificar aumentos, mesmo que não sejam licenciaturas.

  • Vou ganhar tanto como alguém com diploma?
    Às vezes sim, às vezes um pouco menos no topo absoluto. Em muitas obras, encarregados experientes sem curso superior ganham salários muito competitivos, sobretudo com prémios e horas extra.

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