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Tenho mais de 60 anos e os pés doem-me em pisos duros: isto deve-se ao afinamento das almofadas de gordura dos pés.

Pessoa massajando o pé sentado no chão de madeira, com plantas e objetos de yoga ao fundo.

A primeira vez que Margaret reparou, estava na cozinha, à espera que a chaleira fervesse. Pés descalços nas lajotas, luz da manhã, o mesmo cenário que vivera mil vezes. Só que, desta vez, o chão parecia como se alguém tivesse trocado a cerâmica por betão. Uma dor aguda, como uma nódoa negra, subiu-lhe pelos calcanhares e pela zona anterior do pé. Mudou o peso, tentou com o outro pé. A mesma dor.

Olhou para baixo, mexeu os dedos, um pouco atónita. Nada parecia diferente. Mas algo se sentia profundamente errado.

Então, que raio tinha mudado, quando nada parecia ter mudado?

Quando os pisos duros de repente parecem caminhar sobre pedras

Pergunte a pessoas com mais de 60 anos sobre andar descalço em pisos duros e, muitas vezes, verá a mesma careta. As lajotas da sala, que antes pareciam frescas e neutras, agora parecem um castigo. Cada passo é um lembrete de que os seus pés já não são os mesmos que tinha aos 40.

Começa a evitar a cozinha. Arrasta os pés em vez de andar a bom passo. Planeia percursos à volta de carpetes e tapetes como se fossem ilhas seguras num mar de dor.

Os pisos duros não ficaram mais duros. Os seus pés ficaram mais frágeis.

Veja-se o caso de Jean, 67 anos, que adorava andar descalça pela casa. Ia do quarto ao jardim, café na mão, sem pensar nisso. No ano passado, começou a sentir como se pisasse um seixo sempre que o calcanhar tocava no chão.

Primeiro, culpou os sapatos. Depois, o peso. Depois, perguntou-se se teria desenvolvido fasceíte plantar como a vizinha. Experimentou proteções de calcanhar da farmácia, alongamentos aleatórios do YouTube, até congelou uma garrafa de água para a rolar debaixo do pé. Nada resultou a sério.

A dor não vinha de um músculo. Vinha de algo que estava a desaparecer silenciosamente.

Por baixo da pele dos calcanhares e da zona anterior do pé, existe um sistema natural de amortecimento: uma almofada espessa de gordura e tecido conjuntivo que funciona como o seu amortecedor pessoal. Com a idade, essa almofada pode afinar, deslocar-se ou perder elasticidade.

É a isso que os médicos chamam atrofia da almofada adiposa plantar. Não é um termo atraente, mas é bem real. Quando esse amortecimento diminui, o osso encontra o chão com muito menos proteção. Os pisos duros, que antes pareciam normais, de repente tornam-se implacáveis, quase hostis.

Não está a imaginar. A sua anatomia mudou mesmo.

O que pode fazer quando os seus amortecedores “de origem” se gastam

A primeira grande mudança é simples: deixe de andar descalço em superfícies duras. Não para sempre, mas por agora. Devolva aos seus pés algum amortecimento artificial enquanto o natural já não consegue fazer o seu trabalho.

Procure sapatos ou chinelos com entressolas grossas e macias e uma palmilha ligeiramente anatómica. Pense em “caminhar sobre um marshmallow firme”, não em “ficar em pé sobre uma tábua”. Uma pequena elevação no calcanhar pode aliviar a dor, mas evite saltos muito altos que sobrecarregam a parte da frente do pé.

Dentro de casa, um bom par de calçado de interior almofadado pode parecer um alívio imediato.

Muita gente salta logo para as palmilhas personalizadas mais caras sem mudar os hábitos do dia a dia. Depois, dececiona-se quando a dor não desaparece por magia. Sejamos honestos: quase ninguém usa as palmilhas especiais todas as horas em casa.

Comece pelo básico. Coloque tapetes/mantas de espuma densa nos locais onde fica mais tempo de pé: junto ao lava-loiça, ao fogão, ao espelho da casa de banho. Vá alternando o calçado para que o amortecimento não “abate” demasiado depressa. Evite ténis velhos e achatados, que por fora parecem bem, mas por dentro parecem cartão.

Pequenos ajustes, repetidos diariamente, protegem o que resta da sua almofada adiposa natural.

“Eu pensava que tinha de ‘endurecer’ os meus pés”, diz Robert, 72 anos. “O meu podologista riu-se e disse: ‘À sua idade, protegemos, não endurecemos.’ Essa frase mudou tudo.”

  • Escolha os ajudantes certos
    Protetores de calcanhar em gel macio, palmilhas de qualidade e calçado de interior almofadado reduzem a pressão direta sobre os ossos.
  • Verifique as “zonas” do chão
    Adicione tapetes ou mantas nos locais onde fica de pé mais de um minuto: chaleira, lava-loiça, casa de banho, bancada de trabalho.
  • Controle o tempo de caminhada
    Reduza caminhadas longas em betão e divida-as com pausas para se sentar ou descansar em bancos.
  • Não ignore dor aguda e localizada
    Essa sensação de “pedra no sapato” pode sinalizar um afinamento importante que merece uma consulta de podologia.
  • Fale com um profissional
    Um podologista ou especialista do pé pode distinguir perda da almofada adiposa de fasceíte plantar ou artrose e orientar o suporte adequado.

Uma mudança silenciosa do corpo que ninguém lhe contou

Há algo de inquietante em perceber que os seus pés - a parte de si que o transportou a vida inteira - perderam parte da proteção “incorporada”. Não aparece em fotografias, não há um momento dramático, apenas uma consciência lenta e crescente sempre que atravessa um corredor de azulejo.

O afinamento da almofada adiposa é uma daquelas alterações discretas e pouco glamorosas do envelhecimento sobre as quais quase ninguém o avisa. No entanto, condiciona a distância que caminha, o tempo que aguenta de pé, se diz que sim a uma viagem à cidade ou a uma visita ao museu com os netos. A dor nos pés redesenha o mapa do seu dia sem pedir licença.

Se tem andado em bicos de pés sobre pisos duros, não está a exagerar - e não está sozinho. Há um nome para o que está a acontecer, há formas de o suavizar, e há valor real em falar sobre isto em voz alta. Talvez, da próxima vez que alguém disser “Este chão está-me a matar os pés”, reconheça a história escondida por trás dessas palavras - e partilhe a sua também.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O afinamento da almofada adiposa é real Perda de amortecimento relacionada com a idade sob o calcanhar e a parte anterior do pé expõe os ossos ao impacto Tranquiliza os leitores: a dor tem uma causa física, não é “da cabeça”
Pisos duros aumentam o stress Azulejo, betão e laminado não absorvem choque, por isso cada passo atinge a almofada afinada Ajuda a explicar por que a dor é pior em casa ou em certas superfícies
É possível proteger Calçado almofadado, tapetes/mantas, palmilhas e aconselhamento profissional reduzem pressão e dor Dá estratégias práticas e esperançosas para manter atividade e independência

FAQ:

  • O afinamento da almofada adiposa é o mesmo que fasceíte plantar?
    Não exatamente. A fasceíte plantar é inflamação do tecido ao longo da planta do pé, muitas vezes com dor no calcanhar de manhã. O afinamento da almofada adiposa é perda de amortecimento sob o calcanhar ou a parte anterior do pé, causando uma sensação de nódoa negra e de “caminhar sobre pedras”, sobretudo em pisos duros.
  • A almofada adiposa pode voltar a crescer depois dos 60?
    A estrutura original não se regenera por completo. Algumas pessoas ganham um pouco de tecido mole com aumento global de peso, mas a almofada organizada e elástica em si não volta realmente. O foco está em proteger o que resta e acrescentar amortecimento externo.
  • Há injeções ou “fillers” que ajudem?
    Alguns especialistas usam preenchedores ou enxertos de gordura para acrescentar amortecimento, mas os resultados variam e os custos podem ser elevados. É uma área em desenvolvimento, por isso vale a pena discutir riscos, benefícios e expectativas com um especialista do pé e tornozelo, em vez de avançar precipitadamente.
  • Andar descalço ou usar sapatos minimalistas causa perda da almofada adiposa?
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