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Tendência crescente entre seniores: mais “cumulantes” trabalham após a reforma para conseguirem pagar as despesas.

Idosa sentada à mesa com chá, usando telemóvel e escrevendo em bloco de notas, com um envelope marcado "Reforma".

Tuesday morning, 9:17, num corredor de supermercado com um leve cheiro a detergente e café. Atrás da caixa, uma mulher no fim dos sessenta passa as compras a um ritmo constante, brinca com os clientes habituais e ajusta os óculos entre dois códigos de barras. No crachá lê-se: “Claire – Membro da Equipa.” Não “reformada”, não “ajudante”. Membro da equipa.

Do outro lado do tapete, um pai jovem paga com o telemóvel enquanto está numa chamada. Para ele, a Claire faz parte do cenário. Para ela, este “pequeno trabalho extra” é o que paga a eletricidade, ajuda-a a mimar um pouco os netos e impede-a de ficar a olhar para a televisão a tarde inteira.

Ela já tinha “acabado” com o trabalho uma vez. Agora voltou.

E está longe de ser a única.

Porque é que mais reformados estão discretamente a voltar ao trabalho

Por toda a Europa e América do Norte, está a acontecer uma mudança lenta e silenciosa. A geração a quem foi prometida uma reforma calma e confortável está a regressar ao mercado de trabalho, com crachá ao pescoço e despertador na mesa de cabeceira outra vez.

Alguns chamam-lhes “cumulantes”: pessoas que recebem a pensão e, ainda assim, continuam a trabalhar, acumulando empregos e fontes de rendimento como peças de um puzzle. As suas caras são familiares. O contínuo de cabelos grisalhos no cinema. O treinador de 70 anos no ginásio às 10 da manhã de uma terça-feira. O antigo gestor que agora conduz para uma app de TVDE, falando da carreira de antes entre viagens.

Por detrás desta tendência, há números muito concretos. Em muitos países, o custo de vida subiu mais depressa do que as pensões. Rendas, aquecimento, alimentos frescos, taxas médicas - tudo aumentou, menos o cheque mensal.

Tomemos a França como exemplo: a proporção de pessoas entre os 65 e os 74 anos que continuam a trabalhar mais do que duplicou em dez anos. Nos EUA, os maiores de 65 são o grupo que mais cresce no mercado de trabalho. Isto não é apenas o ocasional “estou aborrecido em casa, vou fazer algum voluntariado”. É uma estratégia real e pragmática para manter o frigorífico cheio e a conta bancária fora do vermelho.

Porquê agora? A maior esperança de vida é um fator: reformar-se aos 62 ou 64, quando se pode viver até aos 90, deixa muitos anos para financiar. Muitas pessoas também tiveram carreiras interrompidas - trabalho a tempo parcial, períodos de desemprego, cuidados a familiares - que reduziram as pensões.

Há outra verdade que poucos se atreviam a dizer em voz alta há uma década: uma única pensão muitas vezes já não chega para viver com dignidade em muitas cidades. Assim, a ideia da reforma como uma aterragem final e tranquila está a dar lugar a algo mais confuso, mais híbrido. Uma fase em que se negoceia entre saúde, vontade e orçamento mensal. Uma fase em que “deixar de trabalhar” e “deixar de ganhar” já não são gémeos automáticos.

De “trabalho de sobrevivência” a “biscate escolhido”: como os seniores estão a reinventar o trabalho

Os seniores que regressam ao trabalho não o fazem todos da mesma forma. Alguns aceitam o que aparece, rapidamente: umas horas na padaria, inventários de loja à noite, contratos em call centers. Outros tornam-se surpreendentemente estratégicos.

A tendência mais falada são os trabalhos pequenos e flexíveis: explicações, babysitting depois da escola, pet-sitting para vizinhos que vão passar o fim de semana fora. E depois há o grupo em expansão de reformados que passam recibos como freelancers: ex-contabilistas a ajudar pequenas empresas, ex-enfermeiros a fazer visitas domiciliárias, ex-professores a dar aulas online. Não querem uma nova carreira a tempo inteiro. Querem blocos de trabalho que consigam controlar.

Veja-se o caso do Jean, 71 anos, antigo técnico de manutenção. A pensão mal lhe cobre a renda, o seguro e a alimentação. Quando a caldeira avariou há dois invernos e o senhorio arrastou o assunto, o Jean percebeu que estava a uma fatura grande de distância do desastre. Por isso, voltou ao que sabe fazer.

Agora repara pequenos eletrodomésticos para os vizinhos, faz biscates no prédio e ajuda um café local com manutenção básica. As ferramentas cabem numa única mochila. Cobra pouco, mas de forma justa, e chega para cobrir os imprevistos: o dentista, os óculos partidos, a conta do aquecimento a subir. “Cansa às vezes”, admite, “mas sinto-me útil. E durmo melhor sabendo que consigo aguentar uma despesa surpresa.”

Por detrás destas soluções está uma equação muito simples. As pensões foram desenhadas para um mundo em que os preços eram mais estáveis, as carreiras mais lineares e a ajuda familiar mais disponível. Esse mundo estalou.

Trabalhar depois da reforma está a tornar-se um amortecedor de choques financeiros. Apanha aquilo que o sistema de pensões já não amortece. Mas também responde a outra necessidade: manter contacto, ser visto, não desaparecer. O mesmo trabalho que paga a conta da eletricidade também pode afastar a solidão. Quando os seniores falam do seu pequeno trabalho, o dinheiro aparece sempre. Mas, logo a seguir, ouve-se muitas vezes: “E obriga-me a sair de casa.”

Trabalhar após a reforma sem rebentar: pequenos passos que mudam tudo

Os reformados que lidam melhor com esta “segunda ronda” de trabalho costumam começar com um passo muito prático: calcular as necessidades reais mensais. Não o orçamento de sonho, não o valor “para o caso de”. O real.

Listam o que é obrigatório pagar, depois o que seria bom ter, depois o que pode esperar. A partir daí, definem uma linha muito clara: “Preciso de mais X por mês.” Esse número torna-se uma bússola. Evita aceitar qualquer trabalho “por via das dúvidas” e acabar exausto. Uma tarde no mercado, três noites de babysitting, ou duas manhãs de apoio administrativo podem ser suficientes se estiverem organizadas por esse valor.

A grande armadilha - sobretudo para quem tem netos ou problemas de saúde - é dizer “sim” a tudo. Sim a turnos mais longos, sim a ficar mais tarde “só desta vez”, sim a um segundo biscate “só por uns meses”. Todos conhecemos esse momento em que dizer não parece egoísta, preguiçoso ou ingrato.

No entanto, esta nova fase de vida tem uma regra escondida: a sua energia é o seu capital. Gastá-la como aos 40 leva diretamente ao ressentimento e às dores nas articulações. Uma abordagem saudável é definir, por escrito se for preciso, quantas horas por semana são aceitáveis, que dias são descanso sagrado e que tarefas estão fora de limites do ponto de vista físico. Sejamos honestos: ninguém faz isto de forma perfeita todos os dias. Mas quem tenta é quem aguenta.

Uma coisa surge repetidamente nas conversas com “cumulantes”: a necessidade de se sentirem respeitados, não apenas tolerados.

“Não quero que me tratem como um mascote”, diz a Maria, 68 anos, que trabalha a tempo parcial numa loja de roupa. “Eu sei vender, fiz isto a vida toda. Não estou aqui só para sorrir na montra.”

Para proteger essa dignidade, muitos seniores constroem discretamente um “código de trabalho” pessoal:

  • Aceitar apenas funções em que as suas competências são realmente usadas, e não apenas o seu tempo.
  • Pedir horários claros, por escrito se possível, para evitar mudanças em cima da hora.
  • Manter uma consulta médica por ano apenas para falar de fadiga, sono e dores associadas ao trabalho.
  • Reservar pelo menos um dia inteiro por semana sem qualquer tarefa paga, nem que seja “só duas horas”.
  • Falar abertamente com a família sobre dinheiro, para que o apoio possa ser também emocional, não apenas financeiro.

Um novo equilíbrio, frágil, entre tempo, dignidade e dinheiro

O exército crescente de reformados a trabalhar obriga a uma pergunta que muitas sociedades preferiam evitar: como é, afinal, “uma boa velhice” quando os preços sobem mais depressa do que as pensões? Alguns dirão que é um escândalo que, após 40 ou 45 anos de trabalho, as pessoas tenham de acumular biscates só para pagar aquecimento e medicamentos. Outros veem, nestes part-times e micro-negócios, uma forma de liberdade e utilidade recuperadas.

A realidade fica, como quase sempre, algures no meio. Para uns, o trabalho pós-reforma é uma tábua de salvação. Para outros, é uma ponte escolhida entre atividade a tempo inteiro e descanso a tempo inteiro. A linha é fina. Um pouco de trabalho extra pode significar dignidade e conforto. Demasiado, e torna-se mais uma forma de exaustão numa idade em que o corpo já não acompanha.

Por trás das estatísticas, há salas de estar onde as contas estão espalhadas em cima da mesa. Há conversas na cozinha em que filhos adultos descobrem a fragilidade financeira dos pais. E há também manhãs luminosas em que alguém de 72 anos coloca um crachá, um cinto de ferramentas ou uns auriculares e sai de casa com a sensação silenciosa de “ainda contar”.

Esta tendência crescente dos “cumulantes” diz algo poderoso sobre o nosso tempo: estamos a viver mais, mas nem sempre mais ricos. O trabalho deixou de ser um capítulo que termina e passou a ser um fio que se estica, se afina e, por vezes, volta a dar nós. A pergunta que sobra não é apenas “Até quando teremos de trabalhar?”, mas “Como queremos viver estes anos emprestados, entre necessidade e desejo, entre cansaço e orgulho?”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Conhecer o seu orçamento real Calcular custos fixos e definir um objetivo claro de rendimento mensal Ajuda a escolher a quantidade certa de trabalho pós-reforma sem se sobrecarregar
Escolher trabalhos flexíveis e à escala humana Privilegiar funções a tempo parcial, locais ou freelance que respeitem limites de saúde Preserva energia e transforma o trabalho em apoio, em vez de um peso
Proteger dignidade e saúde Definir regras pessoais sobre horários, tarefas e acompanhamento médico Reduz o risco de burnout e mantém o trabalho pós-reforma sustentável ao longo do tempo

FAQ:

  • Posso trabalhar e continuar a receber a minha pensão? Em muitos países, sim, mas com regras específicas. Alguns sistemas limitam quanto pode ganhar antes de a pensão ser reduzida; outros permitem acumulação total a partir de uma certa idade. As entidades oficiais de pensões ou websites oficiais costumam ter simuladores simples.
  • Que tipos de trabalho são mais realistas após a reforma? Turnos curtos no retalho, explicações, cuidado de crianças, apoio administrativo, consultoria na sua área anterior, pequenos serviços de manutenção e reparações, pet-sitting e microtarefas online são opções comuns que podem encaixar entre consultas médicas e níveis de energia.
  • Como evito ser explorado por “só querer um extra”? Tratando-se como trabalhador, não como voluntário. Peça contratos, horários por escrito, valores/hora claros e recuse “extras” não pagos. Falar com outros reformados sobre quanto recebem é uma boa forma de detetar propostas injustas.
  • E se a minha saúde não permitir trabalhar regularmente? Pode valer a pena explorar prestações por incapacidade, apoios sociais, subsídios de renda ou ajudas pontuais de emergência. Algumas instituições e autarquias têm programas específicos para seniores com baixos rendimentos que não conseguem assumir trabalho remunerado.
  • Como podem as famílias apoiar um reformado que trabalha? Para além de emprestar dinheiro, o apoio pode significar dar boleias, ajudar com burocracias, partilhar refeições ou simplesmente ouvir sem julgamentos. Incentivar o descanso, ajudar a dizer não e sugerir aconselhamento médico para a fadiga pode ser tão valioso como o apoio financeiro direto.

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