Outro dia, num banco à porta de um supermercado, vi uma mulher no fim dos seus sessenta anos tirar do bolso uma lista de compras amarrotada. Sem telemóvel, sem app, sem scroll frenético. Apenas um pedaço de papel marcado a caneta e aquele tipo de foco calmo que já quase não se vê. Ao lado dela, um adolescente ia alternando entre três apps ao mesmo tempo, auscultadores postos, um olho no TikTok, outro nas mensagens, e zero contacto visual com o mundo à sua volta.
Deu-me que pensar como as pessoas que cresceram nos anos 60 e 70 se movem de forma diferente pela vida. Menos apressadas. Menos frágeis. Vergam, mas não partem.
Os psicólogos também têm reparado nisso.
1. Tolerância ao tédio e ao silêncio
Pergunte a alguém que cresceu nos anos 60 ou 70 o que fazia em longas viagens de carro, e muitos respondem o mesmo: “Olhava pela janela.” Sem ecrãs. Sem streaming. Apenas nuvens, campos e os próprios pensamentos. Esse tempo de quietude, repetido durante anos, criou um tipo de músculo mental que hoje raramente treinamos: a capacidade de estar consigo próprio sem precisar de estimulação constante.
Hoje, mal há uma pausa - um atraso no comboio, um amigo que chega tarde - lá sai o telemóvel. O cérebro habitua-se a ser alimentado sem parar.
Os psicólogos chamam-lhe “tolerância ao tédio”, e os estudos ligam-na à criatividade e à regulação emocional. Um estudo de 2013 da University of Central Lancashire chegou mesmo a concluir que participantes aborrecidos tinham ideias mais criativas do que aqueles constantemente estimulados. Para quem foi criado nos anos 60 e 70, o tédio fazia parte do dia-a-dia: esperar na paragem do autocarro, ver longos intervalos na televisão, ouvir discos inteiros porque não era assim tão simples saltar faixas.
Esse espaço vazio no dia ensinou-lhes, silenciosamente: nada de terrível acontece quando não acontece nada.
Quando o seu sistema nervoso aprende cedo que o silêncio não é perigoso, cresce a reagir menos. Não entra em pânico porque alguém leu e não respondeu. Consegue estar numa sala de espera sem sentir que a pele lhe está a “comichar”. Isto não quer dizer que as pessoas dessa era “tinham mais sorte”. Quer dizer que o ambiente delas, por acaso, treinou uma resiliência que muitas gerações mais novas agora precisam de reaprender com apps, meditação ou retiros de desintoxicação digital.
O tédio deles tornou-se um ginásio mental. O nosso tornou-se um problema para resolver.
2. Resolução de problemas no mundo real, não delegação instantânea
Se cresceu numa altura em que as coisas avariavam com frequência e o dinheiro era curto, não abria uma app. Abria uma caixa de ferramentas. Quem chegou à idade adulta nos anos 60 e 70 aprendeu a arranjar fechos, coser botões, trocar fusíveis, remendar pneus de bicicleta. Não eram necessariamente mais talentosos; simplesmente foram obrigados a tentar. Esse processo de tentativa e erro criou uma confiança profunda: “Eu consigo desenrascar-me.”
Os psicólogos ligam isto ao que se chama “autoeficácia” - a crença de que as suas ações têm impacto e de que é capaz.
Uma vez entrevistei um homem nascido em 1964 que me falou do seu primeiro carro, uma lata velha enferrujada que avariava quase de quinze em quinze dias. “O meu pai disse: ‘Se queres conduzi-lo, aprendes a arranjá-lo’”, contou, a rir. E assim fez - com um manual emprestado e os nós dos dedos esfolados. Anos depois, quando enfrentou um divórcio e a perda do emprego no mesmo ano, disse-me que aquele carro lhe deu, estranhamente, coragem. “Já tinha aprendido que a maior parte dos problemas não é impossível. É só chato”, disse.
Este é o valor escondido desses pequenos desafios práticos: treinam o cérebro para os grandes.
Hoje, os psicólogos veem um padrão preocupante: ao primeiro sinal de dificuldade, muitos adultos mais jovens passam imediatamente a delegar ou a desistir. Não porque sejam mais fracos, mas porque o ambiente recompensa a conveniência em detrimento da resiliência. Para quem cresceu nos anos 60 e 70, muitas vezes não havia escolha. Navegavam com mapas sem GPS, decoravam números de telefone, resolviam mal-entendidos cara a cara.
Cada problema resolvido acrescentava um tijolo minúsculo a um muro mental que ainda os sustenta décadas depois.
3. Robustez emocional sem entorpecimento emocional
Uma das características mais fortes que os psicólogos notam nas pessoas dessa época é uma espécie de firmeza emocional discreta. Viveram assassinatos, crises do petróleo, a Guerra Fria, convulsões sociais. Muitos viram os pais perder empregos, mudar de país ou lutar para se adaptarem. Havia medo e incerteza, mas a vida quotidiana continuava.
A mensagem absorvida, muitas vezes sem consciência, era: “Os sentimentos são reais, mas não podem parar tudo.”
Isso não quer dizer que a geração tenha recebido educação emocional. Longe disso. Muitos ouviram “ganha juízo” ou “pára de chorar senão dou-te motivos para chorares”. Ainda assim, essa dureza teve um efeito secundário: a capacidade de funcionar sob pressão emocional. Uma mulher nascida em 1955 contou-me como foi para a escola no dia seguinte a uma discussão enorme entre os pais. “Foi horrível”, disse, “mas tinhas na mesma de fazer o teste de matemática.”
A dor não desaparecia. Tinha de coexistir com as responsabilidades.
A psicologia moderna tenta agora equilibrar os dois mundos. Sabemos que suprimir emoções pode causar danos a longo prazo. Também vemos que foco excessivo nos sentimentos, sem treino de resistência, pode tornar a vida insuportável. Quem cresceu nos anos 60 e 70, muitas vezes, carrega as duas partes - de forma desajeitada, mas eficaz. Sente, mas continua.
É uma combinação rara numa época em que ou empurramos as emoções para baixo, ou nos afogamos nelas.
Como “emprestar” hoje estas 9 forças mentais raras
Não dá para viajar no tempo até aos anos 70, mas pode recriar algumas das condições de treino que construíram essas forças. Comece pequeno. Pegue num momento do dia-a-dia e retire-lhe a fuga fácil. Espere pelo autocarro sem telemóvel uma vez por semana. Permita-se ficar aborrecido numa fila. Da próxima vez que uma coisa pequena avariar, tente arranjá-la antes de a escrever na barra de pesquisa ou de encomendar uma substituição.
Estes pequenos atos enviam ao seu cérebro uma mensagem poderosa: “Eu aguento isto.”
Se descobrir que é mais frágil do que pensava, seja gentil consigo. O mundo moderno foi desenhado para o manter dependente e distraído. Notificações intermináveis, entregas imediatas, tutoriais passo a passo para tudo - são convenientes, mas roubam-lhe discretamente as oportunidades de se sentir capaz. Não transforme isto noutro projeto de auto-crítica. Já está a fazer o melhor que consegue num ambiente que está sempre a dizer-lhe para não se esforçar demasiado.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.
“A resiliência não é algo com que se nasce ou não”, explica a psicóloga clínica Dra. Eva M., que trabalha com famílias de várias gerações. “Para quem cresceu nos anos 60 e 70, a própria vida foi um boot camp de resiliência. Hoje, temos de escolher esse treino de forma mais consciente.”
- Agende bolsos de tédio: 10 minutos por dia sem telemóvel, sem música, só você e os seus pensamentos.
- Faça uma tarefa irritante fora do digital: ligue em vez de enviar mensagens, ou vá ao balcão em vez de usar a app.
- Peça a alguém mais velho que lhe ensine uma competência: cozinhar um prato, cerzir roupa, ler um mapa em papel.
- Pratique soluções “suficientemente boas” em vez de perfeitas: tape o buraco, não redesenhe a sua vida inteira.
- Repare num momento por dia em que sobreviveu ao desconforto: uma conversa difícil, um atraso, uma preocupação que passou.
A herança silenciosa dos anos 60 e 70
Quando os psicólogos falam de pessoas que cresceram nos anos 60 e 70, não descrevem super-heróis. Descrevem pessoas que foram repetidamente atiradas para a vida real com menos almofadas. Sem redes de segurança infinitas, com menos opções instantâneas e muito pouca “mão dada”. Essa aspereza moldou nove forças mentais raras: tolerância ao tédio, resolução de problemas no mundo real, firmeza emocional, paciência, engenho, gratificação adiada, apoio comunitário, expectativas realistas e um sentido de identidade assente na realidade.
Não pessoas perfeitas. Apenas pessoas com uma estrutura interna mais robusta.
Vivemos agora noutro mundo. Mais suave em alguns aspetos, mais brutal noutros. Muitos adultos mais jovens sentem culpa por não terem essas forças, enquanto muitos adultos mais velhos se sentem invisíveis, como se os seus músculos mentais arduamente conquistados já não contassem numa economia digital. Ambos os lados perdem algo quando não falam entre si.
Um lado traz velocidade, informação e abertura. O outro traz resistência, perspetiva e calma.
Talvez o próximo passo não seja ter saudades de um passado com gasolina com chumbo e sem cintos de segurança. Talvez seja deixar que as pessoas que o sobreviveram nos ensinem as ferramentas mentais que nem sabiam que estavam a construir na altura. Pergunte-lhes o que faziam quando tinham medo antes do Google. Como lidavam quando tinham de esperar dias por notícias. O que os ajudava a continuar quando nada era imediato.
Há um manual inteiro e escondido de resiliência, sentado em silêncio na geração que cresceu antes da barra de carregamento.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Tolerância ao tédio | Crescer com menos ecrãs treinou a mente para lidar com silêncio e espera | Ajuda a reduzir ansiedade, scroll impulsivo e sobre-estimulação emocional |
| Resolução de problemas no mundo real | Arranjar problemas do dia-a-dia sem apps ou “especialistas” instantâneos construiu autoeficácia | Aumenta a confiança para enfrentar mudanças e contratempos da vida moderna |
| Firmeza emocional | Viver crises e continuar a funcionar criou uma resiliência duradoura | Oferece um modelo para manter os pés assentes em períodos de incerteza pessoal ou global |
FAQ:
- Pergunta 1 Quais são as 9 forças mentais que as pessoas dos anos 60 e 70 costumavam desenvolver?
- Pergunta 2 As gerações mais novas são “mais fracas” do que as que cresceram nos anos 60 e 70?
- Pergunta 3 Alguém que cresceu com smartphones ainda consegue desenvolver estas forças?
- Pergunta 4 Como posso aprender com pessoas mais velhas sem soar paternalista ou constrangedor?
- Pergunta 5 Qual é uma pequena mudança que posso começar esta semana para desenvolver a minha resiliência?
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