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Segundo a psicologia, quem cresceu nas décadas de 60 e 70 desenvolveu 9 forças mentais que hoje são raras.

Homem idoso e jovem consertam objeto ao ar livre, com mapa, bússola, bicicleta, rádio e roupa no fundo.

Ceux que cresceram nas décadas de 60 e 70 conviveram com cortes de eletricidade, telefones de disco, pais raramente disponíveis e uma liberdade que muitos considerariam hoje perigosa. Cresceram entre a Guerra Fria, a crise petrolífera e a televisão a preto e branco, aprendendo a lidar com o tédio como um desporto nacional. Psicólogos e investigadores confirmam: essa geração forjou forças mentais singulares, cada vez mais raras num mundo ultra‑conectado. E algumas dessas forças fazem-nos muita falta.

À noite, em certos bairros, as ruas esvaziavam-se, mas as crianças dos anos 60 e 70 ficavam na rua «até acenderem os candeeiros». Sem GPS, sem mensagens, apenas um relógio mais ou menos certo e uma regra: voltar vivo. A casa não era um casulo emocional constante; era mais uma base de retaguarda a que se regressava com joelhos esfolados e histórias por vezes impossíveis de verificar. Inventavam-se jogos com uma bola murcha, resolviam-se discussões sem adultos-mediadores. Sem o saberem, aprendiam a desenrascar-se mentalmente.

1. Uma tolerância à frustração quase desaparecida

Os psicólogos falam em «tolerância à frustração»: a capacidade de aguentar que as coisas não corram como queremos - já. As crianças dos sixties e seventies treinaram isso todos os dias. Não havia streaming, nem entregas em uma hora. Se perdias o teu programa preferido, acabou, ponto final. Querias um brinquedo? Esperavas pelo Natal, na esperança de não receberes meias em vez disso. Essa espera forçada construía um músculo interior discreto: aguentar a falta sem explodir.

Um estudo publicado no Journal of Personality mostrou que quem cresceu antes da era digital tolera melhor o tédio e a lentidão administrativa. Quando um site demora mais de dez segundos a carregar, suspiram, mas não entram em espiral. Michel, 63 anos, conta que aos 10 anos esperou seis meses para receber pelo correio um kit de maqueta encomendado num catálogo. «Ia ver a caixa do correio todas as noites. Quando a encomenda finalmente chegou, eu tremia.» Esta experiência de espera em “formato longo” deixa uma marca profunda na forma de gerir frustrações em adulto.

Do ponto de vista psicológico, esta exposição repetida à frustração cria o que se chama uma melhor «regulação emocional». O cérebro aprende a abrandar em vez de exigir gratificação imediata. Hoje, o acesso instantâneo a tudo encurta essa distância entre desejo e satisfação. Em muitos mais novos, a emoção surge com força total ao mínimo contratempo. Os boomers, por seu lado, “cablarem” a mente de outra forma: sabem que a vida não obedece à velocidade da fibra. É uma força que acalma catástrofes imaginárias.

2. Uma autonomia mental forjada sem GPS nem pais-helicóptero

Crescer nos anos 60 e 70 era deslocar-se com um mapa em papel, memória visual e um sentido de orientação improvisado a partir de padarias, plátanos e entradas do metro. Perguntava-se o caminho a desconhecidos, errava-se, recomeçava-se. Os pais não tinham aplicações de geolocalização nem grupos de WhatsApp da turma. Confiavam, muitas vezes por obrigação. Esta autonomia física passou para uma independência mental: decidir sozinho, avaliar riscos, improvisar quando o plano A cai.

Todos já vivemos o momento em que percebemos que os nossos pais - crianças dos anos 60 ou 70 - não entram em pânico onde nós vemos um drama. Isso liga-se frequentemente a esses anos de «desenrascanço com limites». Claire, 58 anos, recorda as suas viagens de autocarro aos 9 anos, com a mochila quase maior do que ela. «Se falhava a ligação, desenrascava-me.» Um inquérito britânico de 2018 mostrou que as crianças dessa época faziam, em média, três vezes mais deslocações sozinhas do que as de hoje. Com o tempo, o cérebro fortalece-se: sentimo-nos capazes, mesmo sem rede.

Esta autonomia mental traduz-se num menor medo do julgamento exterior. Quando passas a adolescência a resolver as tuas pequenas catástrofes sem live-tweet nem stories, interiorizas que nem tudo diz respeito ao mundo inteiro. Psicólogos e terapeutas notam que esta geração tem muitas vezes um «locus de controlo interno» mais sólido: a convicção de que temos influência sobre a nossa vida. No ambiente atual, saturado de conselhos, alertas e opiniões, esta capacidade de filtrar mentalmente - sem pedir uma opinião a cada cinco minutos - torna-se uma raridade valiosa.

3. Uma capacidade singular de relativizar os dramas

As décadas de 60 e 70 foram um concentrado intenso: guerra do Vietname na televisão, crises económicas, choque petrolífero, tensões sociais, início dos grandes medos ambientais. Crescer nesse contexto era perceber cedo que o mundo nem sempre está bem. As más notícias não caíam continuamente num feed do Twitter, mas quando chegavam, marcavam. Resultado: muitos desenvolveram um reflexo de sobrevivência mental, um hábito de colocar os acontecimentos no seu devido lugar. Nem minimizar, nem dramatizar.

Os psicólogos falam aqui de «reavaliação cognitiva»: a capacidade de reclassificar o que acontece, de dizer por dentro: «Ok, é pesado, mas não é a minha vida inteira.» Jean, 66 anos, lembra-se dos alertas de bomba e das imagens de guerra em repetição no telejornal da noite. «Tínhamos medo, mas aprendíamos a continuar a viver.» Os números confirmam: um estudo europeu indica que as gerações nascidas antes de 1980 referem menos catastrofização face às preocupações do dia a dia. Quando uma fatura dispara, queixam-se - mas não falam de «vida destruída».

Esta aptidão para relativizar joga-se em pequenos gestos mentais: comparar com situações mais graves, lembrar períodos já atravessados, aceitar a incerteza. As crianças dos anos 60 e 70 foram expostas cedo à noção de risco coletivo e à fragilidade económica. O cérebro habituou-se a viver com «talvez» e «logo se vê». Num contexto atual em que cada sobressalto se amplifica nas redes, esta sobriedade emocional parece uma forma de sabedoria. Não fria - apenas enraizada.

4. Como inspirar-se hoje nestas forças mentais

A boa notícia é que estas forças não estão reservadas a quem nasceu antes de 1980. Treinam-se, como um músculo que deixámos enferrujar. Um método simples é reintroduzir voluntariamente pequenas «fricções» no dia a dia: esperar por algo que poderias ter já; deixar o telemóvel noutra divisão durante uma hora; perder-te um pouco na cidade sem abrir o GPS ao primeiro momento de dúvida. Parece insignificante, mas é precisamente este tecido de experiências mínimas que moldou a geração 60–70.

Outro gesto concreto: permitir-te gerir sozinho um problema sem o partilhar instantaneamente. Um conflito no trabalho, uma fatura confusa, um e-mail desagradável. Dar-te 24 horas, respirar, escrever a reação num caderno em vez de a publicar num grupo. Assim reativas esse «locus de controlo interno». Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas quando o fazemos de vez em quando, algo acontece. Redescobrimos que conseguimos aguentar, pensar e, só depois - se for preciso - pedir ajuda.

Os terapeutas recomendam também um pequeno ritual mental inspirado nessas gerações: fazer três perguntas perante um problema.

«Isto ainda vai importar daqui a um ano? O que é que a versão de mim aos 70 anos acharia disto? Alguém em 1975 teria sobrevivido a isto?»

Este desfasamento no tempo muda a perceção.

Para o enraizar de verdade, alguns acham útil criar um mini «kit anos 70» interior:

  • Escolher um momento por semana sem ecrãs, como uma noite “a preto e branco” interior.
  • Aprender uma competência inutilmente lenta (costura, maqueta, jardinagem) só para voltares a sentir a progressão.
  • Recuperar um caderno de papel para anotar o que está mal… e o que ainda se mantém de pé.

5. 9 forças mentais raras que os anos 60–70 esculpiram

Os psicólogos que trabalham entre gerações descrevem frequentemente, em quem cresceu nessas décadas, nove traços mentais que se cruzam. Primeiro, a tal tolerância à frustração, ligada à espera e à falta. Depois, uma autonomia prática muito cedo, que transborda para a confiança interior. Terceira força: uma capacidade de relativizar más notícias num contexto de crises repetidas. Segue-se uma resiliência «de fundo», forjada por oscilações económicas, famílias recompostas sem acompanhamento, doenças geridas com poucos recursos.

Surge também um sentido de coletivo bem diferente: não o dos likes, mas o dos vizinhos, dos sindicatos, das associações. Muitos aprenderam a contar com uma rede humana concreta, não com uma comunidade virtual. A sexta força parece uma sobriedade emocional: expressar, sim, mas sem dramatizar tudo. A sétima é a aceitação do tédio como espaço fértil, não como ameaça. A oitava, uma relação mais nuanceada com a autoridade: desconfiada, mas não sistematicamente em guerra. E a nona, talvez a mais discreta: a capacidade de aguentar no longo prazo, mesmo quando nada muda depressa.

Para os mais novos, estas forças podem parecer longínquas, quase “vintage”. No entanto, respondem às angústias atuais: sobrecarga de informação, pressão de desempenho, exaustão emocional. Os boomers não acertaram em tudo, longe disso, e alguns carregam feridas profundas, não verbalizadas. Mas esta mistura de distância, tenacidade e desenrascanço mental continua a ser um recurso escondido. Podemos olhá-la com nostalgia - ou inspirar-nos nela para inventar uma versão mais suave, adaptada a 2024. Sem renunciar aos progressos, nem negar estes reflexos antigos que, por vezes, salvam a cabeça.

Ponto-chave Detalhes Porque é importante para os leitores
Praticar pequenas doses de frustração Adiar a verificação de mensagens, esperar 24 horas antes de comprar um item não essencial, terminar uma tarefa lenta sem alternar entre apps. Reconstrói o “músculo da frustração” que as pessoas dos anos 60–70 desenvolveram naturalmente, tornando o stress quotidiano menos avassalador.
Recriar autonomia offline Fazer uma tarefa semanal sem GPS, listas ou telefonemas a pedir ajuda; confiar na memória, em indicações e no teu próprio julgamento. Reforça a confiança nas próprias decisões e reduz a necessidade constante de validação e de orientação em tempo real.
Usar perguntas que mudam a perspetiva Perguntar: “Isto vai importar daqui a um ano?”, “O que é que o meu eu de 70 anos pensaria?”, “Isto é uma crise real ou apenas um momento difícil?” Replica a forma como as crianças dos anos 60–70 aprenderam a relativizar o drama, ajudando-te a acalmar picos emocionais antes de tomarem conta de ti.

FAQ

  • As pessoas que cresceram nos anos 60 e 70 são mesmo mentalmente mais fortes? Não são “melhores” por definição, mas foram expostas muito cedo ao tédio, ao risco e à falta. Essa combinação favoreceu algumas forças mentais, como a tolerância à frustração e a autonomia, que a vida moderna estimula menos.
  • As gerações mais novas conseguem desenvolver as mesmas forças mentais? Sim. O contexto muda, mas o cérebro mantém-se plástico. Ao reintroduzir desafios geríveis, atrasos, momentos sem ecrã e decisões tomadas a sós, é possível cultivar os mesmos circuitos mentais, sem ter de voltar a viver em 1973.
  • Isto não idealiza o passado e ignora os seus problemas? Não. Os anos 60–70 também geraram traumas, silêncio emocional e desigualdades massivas. A ideia não é copiar a época, mas extrair o que realmente ajudou as pessoas a aguentar e readaptá-lo hoje.
  • Como posso ensinar estas forças aos meus filhos sem ser “antiquado”? Criando pequenas zonas de liberdade controlada: deixá-los gerir um trajeto simples, uma pequena quantia de dinheiro, um conflito entre amigos sem intervir de imediato. O objetivo não é expô-los ao perigo, mas dar-lhes uma margem de manobra real.
  • Partilhar constantemente os meus problemas online é mau para a minha resiliência? Partilhar alivia a curto prazo, mas se cada micro-preocupação se torna um evento público, o cérebro deixa de aprender a conter, analisar e digerir. Encontrar um equilíbrio entre confidências privadas, reflexão solitária e apoio externo reforça, precisamente, a solidez interior.

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