Saltar para o conteúdo

Segundo a psicologia, porque é que tens dificuldade em aproveitar o momento presente?

Homem concentrado no telemóvel, sentado à mesa, com café a fumegar e caderno aberto ao lado. Plantas ao fundo.

Estás finalmente de férias. O mar está ali, a luz é dourada, o telemóvel está em silêncio. E, mesmo assim, a tua mente já está na reunião de terça, a repetir uma conversa antiga e a escrever emails na cabeça.

Depois vem a segunda camada: “Eu devia estar feliz e relaxado.” E aparece culpa por não estares a desfrutar “como era suposto”. Estás no sítio certo, mas sentes-te ausente.

Porque é que o teu cérebro resiste secretamente ao presente

Há uma explicação simples (e pouco romântica): a mente humana divaga. Um estudo muito citado encontrou divagação em cerca de 47% do tempo acordado - e, em muitas pessoas, isso vem acompanhado de menos bem‑estar.

O presente, na prática, nem sempre é “zen”: pode parecer silencioso demais, incerto, ou até desconfortável. Por isso, a tua mente prefere fugir para dois lugares onde sente mais controlo:

  • Passado (ruminação): “eu devia ter dito…”
  • Futuro (antecipação): “e se acontecer…?”

A psicologia chama a isto evitamento experiencial: escapar ao que está a acontecer agora, sobretudo quando é aborrecido, tenso ou imprevisível. O passado e o futuro são editáveis; este segundo exato não é.

Repara como isto aparece num dia normal: lavas os dentes a ler emails, bebes café a fazer scroll, caminhas para o autocarro já a responder mentalmente a mensagens. O dia passa depressa porque a atenção esteve em todo o lado - menos aqui.

Quando a tua programação de sobrevivência sabota a tua alegria

O teu cérebro foi “afinando” para detetar ameaça, não para saborear prazer. Isso alimenta o viés de negatividade: o que pode correr mal tende a ter prioridade na tua atenção (prazos, rejeição, dinheiro, saúde).

Resultado: mesmo num momento bom, surge um sussurro interno - “não relaxes, isto pode virar”. O corpo reage: tensão no peito, respiração mais curta, alerta subtil. Por fora estás à mesa com amigos; por dentro estás num escritório imaginário.

Antecipar problemas às vezes é útil. Viver num “e se” permanente cansa e treina o cérebro a associar relaxar a “ficar vulnerável”. A alegria vira condicional: só quando a caixa de entrada está limpa, a vida resolvida, o futuro garantido. Como isso quase nunca acontece, a alegria fica sempre adiada.

Um erro comum aqui é tentar “pensar positivo” à força. Muitas vezes o que ajuda mais é baixar a vigilância do corpo (não vencer a mente num debate).

Pequenas mudanças mentais que te trazem de volta ao agora

Os psicólogos não propõem “desligar pensamentos”. Propõem ancorar: escolher uma sensação concreta para voltares ao presente (respiração, pés no chão, sons, temperatura do ar, sabor).

Faz assim: escolhe uma âncora e fica com ela 20–60 segundos. Quando a mente fugir (vai fugir), nota e regressa - sem bronca. O treino é o retorno, não a “mente vazia”.

Um atalho útil quando estás muito acelerado: alongar a expiração. Por exemplo, inspira 3–4 segundos e expira 5–6 segundos por 5 ciclos. Muitas pessoas sentem o corpo abrandar antes de a cabeça “acreditar”.

Evita transformar “viver o momento” numa performance. Forçar gratidão e depois culpar-te por divagares só adiciona ruído. Uma meta mais realista: reparar. Presença começa por notar (mesmo que seja café morno e lençóis amarrotados), não por amar.

Jon Kabat-Zinn resume bem: “Não consegues parar as ondas, mas podes aprender a surfar.” As ondas são pensamentos; surfar é manter contacto com sentidos e corpo, mesmo com o tempo mental instável.

  • Escolhe uma âncora simples (respiração, pés, sons ou toque).
  • Usa micro‑momentos: 30 segundos antes de desbloqueares o telemóvel; 3 respirações antes de responderes; 1 detalhe sensorial antes de comer.
  • Troca “presença perfeita” por “mais 2% aqui do que antes”.
  • Dá nome ao filme mental (“ruminar”, “planear”, “preocupar‑me”) e regressa à âncora.
  • Uma vez por semana, recorda 3 momentos pequenos em que estiveste mesmo ali (sem “nada de especial”).

Aprender a estar aqui sem precisar que seja perfeito

Se te custa desfrutar do presente, isso não prova ingratidão nem que há “algo de errado” contigo. Muitas vezes é sinal de um sistema nervoso em modo de emergência há demasiado tempo: notificações, pressa, tensões familiares, ruído em casa, contas, comparação constante.

Querer mais da vida e, ao mesmo tempo, praticar estar aqui para a vida que já tens pode coexistir. O passado não se apaga, o futuro não desaparece - o que muda é a proporção: menos viagens mentais e mais contacto direto com o que está a acontecer.

Atenção a um ponto honesto: estar presente pode trazer emoções que estavas a evitar. Se surgir ansiedade forte, ataques de pânico, tristeza persistente, ou isto estiver a afetar sono, trabalho ou relações, faz sentido procurar apoio profissional.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A mente divagar é normal O cérebro alterna naturalmente entre passado e futuro, muitas vezes para sentir controlo e segurança. Reduz culpa e vergonha por “falhar” em estar presente.
A programação de ameaça sequestra o momento Viés de negatividade e stress crónico fazem com que relaxar pareça arriscado. Ajuda-te a perceber porque a alegria pode ser difícil sem te culpares.
Ancorar traz-te de volta Âncoras sensoriais e micro‑momentos de atenção reeducam o cérebro com suavidade. Ferramentas práticas e realistas para mais presença no dia a dia.

FAQ:

Pergunta 1 Há algo de errado comigo se eu não consigo desfrutar do momento?
Resposta 1 Em muitos casos, não. Uma mente errante é comum, sobretudo sob stress. Se isto for intenso ou durar meses com impacto no sono, trabalho ou relações, um psicólogo pode ajudar a enquadrar e treinar estratégias.

Pergunta 2 Tenho de meditar todos os dias para me sentir mais presente?
Resposta 2 Não. Meditação formal ajuda algumas pessoas, mas micro‑práticas contam: 3 respirações antes de uma chamada, sentir os pés numa fila, notar 1 som no trajeto.

Pergunta 3 Porque é que me sinto ansioso quando finalmente abrando?
Resposta 3 Porque, ao reduzir distrações, preocupações e sensações antigas podem vir ao de cima. Não significa que abrandar esteja errado; significa que o teu sistema deixou de “abafar” sinais.

Pergunta 4 As redes sociais podem tornar mais difícil desfrutar do presente?
Resposta 4 Muitas vezes, sim: comparação, notificações e estímulo constante treinam o cérebro para o “próximo pico”. Limites simples (silenciar notificações, horários para apps) costumam ajudar.

Pergunta 5 Quanto tempo demora a sentir diferença com estas práticas?
Resposta 5 Algumas pessoas notam alívio em 1–2 semanas de âncoras curtas diárias. Mudanças mais profundas tendem a ser uma questão de meses - os pequenos “eu estive mesmo ali” acumulam-se.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário