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Segundo a psicologia, porque é que algumas pessoas atraem sempre relações tóxicas?

Mão segurando chá com fio vermelho no pulso, caderno aberto e anel de ouro sobre mesa de madeira.

Conhece aquele amigo que parece entrar sempre na mesma história - só muda a cara e o nome? Primeiro vem o encanto (atenção total, promessas grandes), depois um veneno lento: rebaixamentos, drama, castigos de silêncio, chantagem emocional. De fora, o padrão é claro. Por dentro, parece “gravidade”.

Porque é que algumas pessoas são “ímanes” para parceiros tóxicos

Na psicologia fala-se de modelos de relação: ideias e expectativas que aprendemos cedo sobre amor, conflito e segurança. Em adulto, não nos atrai apenas o que é “bom” - muitas vezes atrai-nos o que é familiar, mesmo quando dói.

Isso ajuda a explicar porque é que:

  • uma pessoa foge ao drama ao primeiro sinal;
  • outra sente “faísca” sobretudo quando há incerteza, ciúme ou tensão.

Exemplo curto: a Sara (32) diz que vive “o mesmo pesadelo em versões diferentes”. O padrão repete-se: começo intensíssimo (mensagens sem parar, intimidade acelerada), depois controlo, troça, desaparecimentos, e um regresso como se nada fosse. Quando conhece alguém consistente e emocionalmente estável, sente “tédio”. Muitas vezes, o que o cérebro está a dizer é: “isto não parece o meu normal”.

A investigação sobre estilos de vinculação sugere que, quando o afeto foi imprevisível, é fácil confundir intensidade com ligação. O corpo pode ler stress como paixão (coração acelerado, ruminação, urgência). E a distância do outro pode parecer “prova” de que temos de lutar para merecer amor.

Se amar sempre significou andar em bicos de pés, a calma pode soar a perigo.

A psicologia escondida por trás de “escolher as pessoas erradas”

Uma dinâmica frequente é a compulsão à repetição: quando uma ferida antiga não foi resolvida, a mente tenta recriar cenários parecidos - na esperança de que “desta vez” o final mude. Nas relações, isso pode traduzir-se em escolher (sem perceber) pessoas parecidas com um cuidador distante, crítico ou imprevisível.

A lógica por trás disto costuma ser invisível, mas poderosa: “Se eu conseguir que esta pessoa me ame como deve ser, prova que eu sou amável.”

O Leo (28) cresceu com um pai presente fisicamente, mas frio e crítico. Em adulto, apaixona-se por pessoas que dão pouco… e, de vez em quando, uma migalha. Ele espera horas por respostas, analisa cada detalhe, e sente alívio quando recebe atenção - não porque é amor sólido, mas porque é recompensa intermitente (um motor comum do chamado “vínculo traumático”).

A autoestima entra aqui de forma cruel. Se alguém aprendeu que é “demais”, “difícil” ou que “devia ter sorte por ser escolhido”, a fasquia interna desce. Rebaixamentos começam a parecer normais. E a pessoa fica a negociar consigo: “se calhar estou a exagerar”, “todos os casais são assim”.

Isto não é falta de inteligência. Muitas vezes é um treino antigo: adaptar-se, aguentar, agradar - para manter ligação.

Como quebrar o padrão sem se culpar

Um passo prático (e muito útil) é mapear o padrão, com factos e não só com rótulos.

Escreva as últimas 3 relações (ou situações) e responda, sem justificar:

  • Como começou (ritmo, intensidade, promessas)?
  • Qual foi o primeiro sinal de alerta - e quando apareceu?
  • O que fez para o explicar/desculpar?
  • Em que momento começou a sentir-se mais ansioso(a), pequeno(a) ou “a andar sobre ovos”?

No papel, o “azar” vira padrão legível. A pergunta deixa de ser “o que há de errado comigo?” e passa a ser: “o que é que eu repito - e o que é que isso me dá no curto prazo (ex.: validação, adrenalina, sentir-me necessário[a])?”

O passo seguinte é pausar no início, quando tudo parece perfeito e rápido. Muita toxicidade entra pela porta da pressa: mensagens constantes, love bombing, planos de futuro na 2.ª semana, pedido de exclusividade imediato, pressão para “provar” confiança. Uma regra simples que costuma ajudar: nos primeiros 2–3 meses, evite decisões que o prendam (morar junto, misturar dinheiro, grandes empréstimos, “apagar” amigos/família). A consistência precisa de tempo para aparecer.

Seja gentil consigo: estes padrões muitas vezes nasceram para o proteger. Só que hoje já não servem.

“As relações tóxicas prosperam onde as necessidades são negadas e os limites são vagos.”

Três alavancas que dão resultado na vida real:

  • Use o corpo como alarme cedo: nó no estômago, peito apertado, insónia, ruminação depois do encontro - muitas vezes o corpo percebe antes da cabeça.
  • Tenha 4–6 não negociáveis (ex.: não a insultos, não a castigo de silêncio, não a controlo de telemóvel/dinheiro, não a isolamento). Leia-os antes de se envolver emocionalmente.
  • Treine limites pequenos todos os dias (“não dá”, “preciso de pensar”, “não aceito que me falem assim”). Quem reage com fúria a limites costuma reagir pior mais tarde.

Nota de segurança (importante): se houver ameaças, perseguição, controlo coercivo, violência física/sexual, a prioridade não é “comunicar melhor” - é proteção. Em Portugal, em caso de perigo imediato ligue 112. Pode também procurar apoio especializado (por exemplo, APAV 116 006; Linha de Violência Doméstica 800 202 148).

Escolher algo que não é familiar: amor saudável

Quando alguém começa a sair do ciclo, pode acontecer um momento estranho: conhece uma pessoa presente, gentil, consistente - e sente vontade de fugir. Não é sinal de estar “avariado(a)”. É o sistema nervoso a aprender um novo padrão.

Mudar raramente é uma epifania; costuma ser uma série de escolhas pequenas:

  • responder com menos urgência (para sair do “modo prova”);
  • ir embora ao primeiro desrespeito, em vez de ao décimo;
  • dizer “isto não funciona para mim” sem entrar em debates intermináveis.

Alguns dias isso sabe a poder. Outros sabe a solidão. Nesses dias, ajuda lembrar: não está a evitar o amor - está a criar espaço para um amor que não exija que se encolha.

Quem viveu relações tóxicas muitas vezes fica hiper-atento aos humores dos outros, muito leal, muito capaz de cuidar. Isso são forças - quando não são usadas contra si. A mudança não é tornar-se frio(a). É parar de entregar as partes mais generosas a quem as transforma em arma.

Talvez a pergunta não seja “porque é que eu atraio pessoas tóxicas?”
Talvez seja: “que parte de mim acredita que isto é o melhor que consigo ter - e o que muda se eu deixar essa crença abrandar?”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Modelos de relação O que foi “normal” cedo pode parecer atraente em adulto, mesmo com dor. Ajuda a tirar o tema do “azar” e pôr em padrões.
Compulsão à repetição Feridas antigas podem puxar por parceiros familiares, para tentar “corrigir” o passado. Explica porque o ciclo parece automático.
Escolha lenta e consciente Pausar, nomear sinais e pôr limites antes de se envolver fundo. Dá ações concretas para sair do ciclo.

FAQ:

  • Porque é que tenho saudades do meu ex tóxico, mesmo sabendo que me magoou? Porque o cérebro pode ficar preso ao ciclo de “dor + alívio”: momentos bons intensos no meio do mau criam dependência emocional (recompensa intermitente). A calma pode parecer “vazia” no início.
  • Atrair pessoas tóxicas significa que há algo de errado comigo? Não. Muitas vezes significa que há necessidades, medos ou padrões aprendidos a funcionar no automático. Consciência + limites + tempo mudam isso.
  • As “pessoas tóxicas” são sempre más ou mal-intencionadas? Nem sempre. Algumas têm traumas e pouca consciência. Entender não obriga a ficar: compaixão pode coexistir com distância.
  • Alguém com histórico de relações tóxicas pode ter uma relação saudável? Sim. Com reflexão e prática de limites - e, em muitos casos, apoio profissional - é comum sair de padrões caóticos para relações estáveis.
  • Como sei se uma relação é genuinamente saudável ou apenas “aborrecida” para mim? Saudável não é sem emoção: é respeito + consistência + espaço para conflito sem punição. Se só há “faísca” com ansiedade, pode ser o seu sistema a confundir intensidade com ligação.

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