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Segundo a psicologia, estas nove atitudes parentais estão fortemente ligadas a criar crianças infelizes, muitas vezes sem os pais perceberem.

Mulher ajuda criança a estudar na cozinha, com livro aberto na mesa e salada ao lado.

O supermercado estava cheio, daqueles sábados em que os carrinhos chocam e as crianças choramingam em estéreo. Perto da zona dos cereais, um rapaz de uns oito anos puxou a manga da mãe para lhe mostrar um desenho que tinha feito na lista de compras. Ela nem sequer olhou. “Agora não, estou ocupada”, ripostou, com os olhos colados ao telemóvel e o polegar a deslizar mais depressa do que o coração dele. O rapaz ficou calado num instante, os olhos a descerem para o chão, os ombros a encolherem como se alguém lhe tivesse acabado de baixar o volume.
Passamos por cenas destas todos os dias, quase sem dar por isso.
Os psicólogos dão por isso. E vêem um padrão.

1. Crítica constante disfarçada de “ajudá-los a melhorar”

Muitos pais acreditam sinceramente que estão a fazer um favor aos filhos ao “puxar por eles para serem o melhor possível”. Comentam as notas, a postura, as maneiras, a forma como a cama está feita, o aspeto dos trabalhos de casa. No papel, parece exigência saudável. Na realidade, o que a criança ouve é uma rádio diária de “não chega, não chega, não chega”.
Com o tempo, esta banda sonora deixa de ficar do lado de fora. Entra na cabeça e torna-se a voz interior.

Imagine uma rapariga que chega a casa com um teste de 18/20. Está orgulhosa, quase a brilhar. Antes de terminar a frase, o pai aponta para as duas respostas erradas. “O que aconteceu aqui? Não estavas concentrada?” O tom nem é agressivo, é apenas clinicamente desapontado. Ela ri para desvalorizar, mas nessa noite, na cama, aquelas duas cruzes a vermelho parecem maiores do que a página inteira. No mês seguinte, as notas descem, não porque seja preguiçosa, mas porque a perfeição começa a parecer inútil.
Estudos clínicos mostram que crianças criadas sob crítica crónica têm maior risco de ansiedade e depressão.

Do ponto de vista psicológico, a crítica repetida “cablifica” o cérebro para esperar rejeição. A criança fica hiper-atenta aos erros, a varrer o ambiente em busca de perigo em vez de explorar o mundo. Aprende que o amor é condicional, que o carinho vem quando ela “rende”, não quando simplesmente existe. Isto não cria adultos resilientes; cria adultos que pedem desculpa por ocuparem espaço. O mais triste é que muitos pais críticos acham que estão a construir carácter. O que muitas vezes constroem é dúvida crónica de si próprio embrulhada num sorriso educado.

2. Frieza emocional mascarada de “endurecê-los”

Alguns pais não abraçam muito. Raramente dizem “tenho orgulho em ti” em voz alta e preferem gestos práticos a palavras ternas. Dizem que estão a preparar os filhos para um “mundo duro” onde ninguém os vai mimar. À primeira vista, a ideia parece lógica, até admirável. Só que o sistema nervoso das crianças não funciona como um campo de treino militar. Uma criança que não se sente calorosamente vista aprende cedo que os seus sentimentos são um fardo privado para esconder.
O corpo lembra-se desse frio por muito mais tempo do que de qualquer sermão.

Imagine um rapaz que cai da trotinete, esfolando o joelho, e desata a chorar. A mãe revira os olhos: “Vá lá, não é nada, pára de chorar como um bebé.” Ele morde o lábio, engole as lágrimas e acena com coragem. À superfície, isto parece “dureza”. Por dentro, o cérebro está a aprender outra lição: “Quando me dói, estou sozinho.” Anos mais tarde, esse mesmo rapaz, agora adolescente, provavelmente terá dificuldade em falar de tristeza ou medo, mesmo com pessoas em quem confia. Pode explodir em raiva, porque foi a única emoção que nunca foi ridicularizada.

A psicologia é muito clara aqui: as crianças regulam as emoções através da ligação, não do isolamento. O calor não as estraga; ajuda o sistema de stress a voltar à calma. Quando o afeto é racionado como um prémio raro, as crianças começam a negociar consigo próprias. “Se eu não chorar, talvez me abracem hoje à noite.” Essa forma de pensar não desaparece aos 18; molda discretamente relações amorosas, amizades e até a maneira como trabalham. A frieza emocional não cria apenas adultos “independentes”. Muitas vezes cria pessoas que não sabem onde colocar a própria dor.

3. Controlo excessivo apresentado como “ser um pai/mãe cuidadoso e envolvido”

A parentalidade moderna muitas vezes desliza para o controlo sem que nos apercebamos. As agendas estão cheias: música, língua extra, desporto, programação. Os pais acompanham os trabalhos de casa em aplicações, sabem cada nota em tempo real e, por vezes, falam pelo filho diante dos professores. Parece dedicação. Na cabeça da criança, sente-se como ser gerido, não como ser confiado. Aprende que outra pessoa decide sempre o que é seguro, o que vale a pena, o que é permitido.
A liberdade torna-se uma língua estrangeira que nunca teve oportunidade de aprender.

Uma mãe com quem falei descreveu como organizava cada minuto do dia da filha de 12 anos “para ela não desperdiçar potencial”. Quando a rapariga foi convidada para uma simples festa do pijama, a mãe recusou. “Demasiado risco, demasiada perturbação.” A rapariga anuiu, como sempre, mas semanas depois começou a ficar acordada às escondidas a ver vídeos até tarde, só para sentir um fio de controlo sobre alguma coisa. As notas mantiveram-se altas, o quarto manteve-se arrumado, mas ela confidenciou à psicóloga da escola que, por vezes, fantasiava perder o autocarro de propósito, só para tomar uma decisão que não estivesse marcada por outra pessoa.

Do ponto de vista psicológico, a autonomia não é um luxo; é uma necessidade. Crianças que nunca decidem coisas pequenas têm enorme dificuldade quando chegam as decisões grandes. O controlo excessivo diz-lhes: “Tu não dás conta da vida; eu trato disso por ti.” Essa mensagem vai corroendo lentamente a confiança e a alegria. O mundo torna-se uma lista de verificação, não uma paisagem para explorar. Uma criança que cresce sem verdadeira voz muitas vezes torna-se um adulto que ou se submete em silêncio, ou se revolta às cegas, sem bússola interna. Nenhum dos caminhos sabe a felicidade genuína.

4. Amor condicional escondido em “eu só quero o melhor para ti”

Uma dinâmica mais subtil, mas devastadora, aparece quando o afeto sobe e desce consoante o desempenho. Sorrisos quando o boletim é bom, frieza quando não é. Abraços quando a criança se porta “bem”, silêncio gelado quando contraria. O pai ou a mãe pode nunca dizer “eu amo-te se…”, mas a criança sente-o claramente. O amor torna-se um sistema de recompensas, não um chão firme. Já não está apenas a tentar crescer; está a tentar ganhar o direito de pertencer à própria família.

Considere uma adolescente que revela aos pais que é lésbica. A mãe fica rígida. “Nós continuamos a amar-te… mas isto é uma grande desilusão.” Dias depois, as conversas encurtam, os olhares arrefecem, o apoio passa a vir cheio de hesitação. A adolescente lê cada microexpressão como um exame que está constantemente a reprovar. A investigação sobre jovens LGBTQ+ mostra que a rejeição percebida por parte dos pais aumenta drasticamente o risco de depressão e autoagressão. Isto não é “drama”. É biologia a reagir ao medo primordial de ser expulso da tribo.

A um nível psicológico, amor incondicional não significa aprovar todos os comportamentos; significa separar o valor da criança das suas ações. Quando essa linha se esbate, a vergonha instala-se. As crianças começam a dizer a si próprias: “Se eu fosse diferente, eles amavam-me de verdade.” Esse pensamento é letal para a felicidade. E sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. Os pais são humanos, cansam-se, reagem. O perigo surge quando o amor condicional se torna o clima padrão, e não uma tempestade passageira.

5. Invalidação emocional sob a bandeira do “manter-se positivo”

Há um estilo parental que parece luminoso, mas por dentro é sufocante. A criança diz: “Tenho medo”, e ouve: “Não sejas parvo, não há nada a temer.” Sussurra: “Estou triste”, e recebe: “Vá, anima-te, olha para tudo o que tens.” A intenção é elevá-la, protegê-la da negatividade. O que acontece, na prática, é que a criança aprende a duvidar dos próprios sentimentos. A realidade passa a ser discutível, e o mundo interior dela perde sempre.

Um miúdo chora depois de ser excluído de um jogo no recreio. O pai, que detesta ver lágrimas, diz: “Estás bem, não exageres, vai brincar com outra pessoa.” O miúdo pára de chorar, mas não porque se sinta melhor. Pára porque percebe que a tristeza dele é inconveniente. Da próxima vez que algo doer, talvez nem mencione. Na adolescência, este padrão aparece muitas vezes como entorpecimento emocional ou irritabilidade sem explicação. Estudos ligam consistentemente a invalidação crónica na infância a taxas mais elevadas de traços borderline e a um vazio profundo, difícil de nomear, mais tarde.

Os psicólogos chamam a isto “gaslighting light”: a realidade é negada de forma suave, mas repetida. Com o tempo, as crianças desligam-se dos próprios sinais. Fome? “Ainda agora comeste.” Raiva? “Não tens motivo nenhum.” Cansaço? “És é preguiçoso.” Este desligamento torna muito difícil construir um sentido de self estável. A felicidade precisa de alinhamento interno: “Eu sinto o que sinto, e isso está bem.” Quando as crianças nunca ouvem “percebo porque te sentes assim”, crescem para adultos que pedem desculpa pelas próprias emoções - ou explodem, porque nunca aprenderam um meio-termo.

Como quebrar estes padrões sem nos afogarmos em culpa

A boa notícia - e é mesmo boa - é que não precisa de uma parentalidade perfeita para criar crianças emocionalmente sólidas. A reparação importa mais do que uma performance impecável. A menor mudança começa muitas vezes com uma única pergunta: “Como é que isso foi para ti?” Fazer esta pergunta, nem que seja uma vez por dia, abre uma pequena fenda em padrões rígidos. Passa de dirigir a vida deles a co-criar a experiência deles. É aí que a ligação se esconde: nessas conversas pouco glamorosas e sem grande risco sobre um teste de matemática ou uma discussão com um amigo.

A armadilha em que muitos pais amorosos caem é o pensamento tudo-ou-nada. Lêem sobre “parentalidade tóxica” e entram em espiral de vergonha, revendo mentalmente cada voz levantada, cada porta batida. Essa espiral não ajuda ninguém. As crianças não precisam de santos; precisam de adultos capazes de dizer: “Eu errei, estou a trabalhar nisso.” Um simples “Ontem fui demasiado duro contigo, desculpa, tu não merecias isso” faz algo poderoso no cérebro de uma criança. Mostra-lhe que as relações podem dobrar sem partir, que o amor pode coexistir com conflito. Isso é segurança emocional em prática.

A terapeuta e investigadora Brené Brown costuma dizer: “Não precisamos de ser pais perfeitos, mas precisamos de estar envolvidos e conscientes.” Esta consciência cresce em ações pequenas e repetíveis: parar antes de criticar, nomear as suas próprias emoções em voz alta e ousar ficar presente quando o seu filho está zangado ou triste, em vez de tentar “resolver” tudo de imediato.

  • Repare num padrão recorrente (crítica, controlo, distância emocional).
  • Escolha uma situação pequena esta semana em que vai responder de forma diferente.
  • Use frases como “Conta-me mais” ou “Isso parece difícil” antes de dar conselhos.
  • Peça desculpa quando reage em excesso, sem acrescentar justificações.
  • Planeie um momento diário de presença sem distrações, nem que sejam apenas 10 minutos.

Atitudes parentais e crianças infelizes: um espelho que nenhum de nós pediu

Estas nove atitudes - crítica constante, frieza emocional, controlo excessivo, amor condicional, invalidação e as suas primas mais silenciosas - raramente nascem da maldade. Na maioria das vezes são estratégias de sobrevivência herdadas, passadas de geração em geração como mobília antiga. “Os meus pais eram assim e eu fiquei bem”, dizemos. Só que os números crescentes de jovens adultos ansiosos, solitários e exaustos sugerem que muitos não ficaram realmente bem; ficaram funcionais. Há diferença - e as crianças sentem-na.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que os olhos do seu filho se enchem de lágrimas e você ouve a voz do seu próprio pai ou da sua própria mãe a sair da sua boca. É desconcertante. E também pode ser a primeira verdadeira bifurcação no caminho. Pode repetir a frase, ou pode inspirar, pausar e tentar uma nova. Uma mais suave. Não será perfeita, mas será diferente. E é no diferente que as correntes geracionais começam a afrouxar.

A pergunta mais profunda por trás de tudo isto não é “Sou um bom pai/uma boa mãe?”, mas “Que tipo de mundo emocional estou a construir, dia após dia, com coisas banais?” As crianças não se lembram de cada palavra; lembram-se do clima. Era seguro sentir? Falhar? Ser diferente de si? Essas respostas vão moldar a felicidade delas, em silêncio, muito depois de saírem de casa. O trabalho é exigente, mas estranhamente esperançoso: cada pequeno momento presente com elas é uma oportunidade de reescrever a história que você próprio viveu.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Crítica e controlo Exigência elevada misturada com microgestão corrói a autoestima e a autonomia. Ajuda os pais a identificar comportamentos de “ajuda” que, na verdade, drenam a alegria.
Clima emocional Frieza, amor condicional e invalidação moldam a forma como as crianças se veem e como se relacionam. Mostra porque o afeto e a validação não são extras luxuosos, mas necessidades centrais.
Reparação acima da perfeição Desculpas, pequenos check-ins diários e presença podem suavizar padrões antigos. Dá ferramentas realistas que qualquer pai/mãe ocupado pode começar a usar já.

FAQ:

  • Pergunta 1 Como sei se a minha crítica está a magoar o meu filho?
  • Pergunta 2 Posso reparar danos de anos de distância emocional?
  • Pergunta 3 E se o meu companheiro/a minha companheira educa de forma muito controladora?
  • Pergunta 4 Proteger o meu filho da dor não faz parte do meu trabalho?
  • Pergunta 5 Como posso responder quando o meu filho tem “emoções grandes” sem eu próprio perder o controlo?

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