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Segundo a psicologia, estas 9 atitudes parentais comuns são as que mais contribuem para tornar as crianças infelizes.

Criança estuda papel numa mesa com laptop e documentos. Adulto aponta para o ecrã. Mochila e fotos ao fundo.

O supermercado estava barulhento, mas a filha deles era ainda mais. Puxava pela manga da mãe, a implorar pelos cereais coloridos com o tigre de desenhos animados. A mãe, com o rosto tenso de exaustão, sibilou entre dentes: “Pára de chorar, não há nada para estar triste. Estás a ser ridícula.” A criança ficou imóvel. Os olhos não se encheram apenas de lágrimas; pareceram apagar-se, como se alguém tivesse baixado a luz cá dentro.

Cenas assim passam num segundo e depois toda a gente segue em frente. O carrinho afasta-se, a criança cresce, o dia volta a ficar cheio.

Ainda assim, a psicologia repete o mesmo aviso: aquilo que para nós parece “nada” pode, lentamente, construir o clima emocional que uma criança vai carregar pela vida fora.

O lado inesperado é que a maioria dos pais que faz isto ama genuinamente os filhos.

1. Desvalorizar emoções de forma constante: “Estás bem, pára de exagerar”

Os psicólogos chamam a isto invalidação emocional. É o reflexo de corrigir, minimizar ou calar os sentimentos de uma criança porque nos parecem exagerados ou nos deixam desconfortáveis. Uma criança diz que tem medo e um adulto responde: “Não há nada para ter medo.” Um adolescente diz que está triste e ouve: “Tens tudo o que precisas, porque é que és assim?”

À superfície, parece inofensivo. A intenção é muitas vezes consolar. Mas, para a criança, a mensagem escondida é: “O meu mundo interior está errado.” Com o tempo, isso cria confusão e um tipo de solidão silenciosa.

Imagine um rapaz de 9 anos a chegar a casa depois de ter sido excluído de um jogo no recreio. Senta-se à mesa da cozinha, ombros descaídos, olhos no chão. “Eles não quiseram brincar comigo”, sussurra.

O pai, a tentar tirá-lo daquele estado, desvaloriza com uma risada: “Vá lá, não sejas tão sensível. Amanhã já são melhores amigos outra vez.” O rapaz acena que sim, mas o rosto endurece. Aprendeu algo crucial: a sua tristeza é um incómodo. Estudos sobre validação emocional mostram que crianças que ouvem repetidamente os seus sentimentos serem varridos para debaixo do tapete têm maior probabilidade de desenvolver ansiedade, depressão e dificuldade em nomear o que sentem mais tarde.

Quando as emoções são consistentemente desvalorizadas, a criança deixa de as usar como GPS. Aprende a desconfiar das próprias reações e a procurar validação fora. Com o tempo, pode ou explodir com pequenos gatilhos ou desligar-se por completo, porque nunca aprendeu a autorregular-se por dentro.

Psicologicamente, as emoções são dados, não drama. Uma criança que ouve “Estou a ver que estás mesmo desiludido, conta-me mais” cresce a sentir-se real por dentro. Uma criança que ouve “Isso não é nada, pára de chorar” aprende que as suas tempestades internas têm de ficar caladas. E esse silêncio é um terreno fértil para adultos infelizes.

2. Amor condicionado: “Tenho orgulho em ti… quando és perfeito”

Um dos padrões mais comuns que os terapeutas notam é os pais associarem o afeto ao desempenho. Abraços e sorrisos quando as notas são altas, frieza quando descem. Calor quando a criança obedece, sarcasmo gelado quando resiste. A criança começa a sentir-se como um projeto que corre bem ou mal, em vez de uma pessoa que existe e é amada.

Isto nem sempre parece dramático. Às vezes é apenas um pai que só fica verdadeiramente entusiasmado a falar de resultados no futebol ou de notas na escola. O resto do tempo, a vida emocional está em silêncio.

Uma rapariga de quem ouvi falar foi a melhor da turma durante anos. Sempre que trazia para casa um boletim cheio de notas máximas, a mãe publicava no grupo de WhatsApp da família e dizia: “Essa é a minha menina, eu sabia que conseguias!” Num semestre, a rapariga desceu para um “Bom” a Matemática. Sem gritos, sem castigos. Apenas… silêncio. Sem elogios, sem contacto visual, mudança rápida de assunto.

Mais tarde, já na universidade, confessou à terapeuta que nada a aterrorizava mais do que desiludir as pessoas. Não falhar. Desiludir. Essa distinção subtil é a cicatriz do amor condicionado.

A psicologia chama-lhe “autoestima contingente”: a sensação de que só se é digno quando se alcança algo. Crianças criadas nesse clima muitas vezes tornam-se altamente funcionais e profundamente infelizes. Podem ter sucesso “no papel”, mas viver com medo permanente de perder amor a cada erro.

Um padrão mais saudável é simples: o comportamento pode ser criticado; a pessoa, não. “Não gostei da forma como falaste com o teu irmão” é muito diferente de “O que se passa contigo ultimamente?” Crianças infelizes ouvem a segunda frase tantas vezes que acabam por acreditar nela.

3. Controlo excessivo e a criança que nunca escolhe

Muitos pais confundem segurança com controlo. Marcam cada minuto, escolhem cada roupa, corrigem cada preferência. A criança torna-se um pequeno passageiro num carro que nunca conduz. Por fora, isto pode parecer uma criança “boa”: calma, obediente, com pouco conflito. Por dentro, a história é muitas vezes o oposto.

Crianças que nunca escolhem não chegam a ouvir o seu próprio “sim” e “não”. Crescem a saber o que agrada aos outros, mas não o que realmente lhes faz sentido.

Imagine um rapaz de 12 anos cujos pais mapearam a vida: piano à segunda, programação à terça, natação à quarta - tudo decidido há anos. Ele preferia desenhar banda desenhada no quarto. Quando o menciona, a resposta é rápida: “Isso não te leva a lado nenhum, vais agradecer-nos mais tarde.”

Deixa de falar nisso. Aos 16, já não discute. Não pede. Mal sabe do que gosta sem verificar primeiro se parece “útil”. A investigação sobre parentalidade que apoia a autonomia mostra que crianças com alguma palavra a dizer sobre as suas atividades relatam maior satisfação com a vida e mais motivação. Não são mais preguiçosas. Estão mais vivas.

O controlo excessivo envia a mensagem: “Não se pode confiar em ti para a tua própria vida.” Isso corrói a autoconfiança de forma muito silenciosa. A criança não aprende a decidir, falhar, ajustar e tentar novamente. Alguém puxa sempre os cordelinhos.

Em adultos, podem tornar-se pessoas que duvidam cronicamente de si, fazem sondagens obsessivas a amigos e parceiros antes de qualquer decisão e ressentem-se, em segredo, de quem parece “livre”. Um pouco de proteção é amor. Microgerir cada respiração não é.

4. A cultura da comparação e o “Porque é que não podes ser mais como…?”

Há muito que os psicólogos alertam para os danos da comparação constante dentro das famílias. O irmão “de ouro”, o primo que “nunca dá problemas”, o filho do vizinho que “já fala três línguas” aos cinco anos. Cada comparação desgasta a sensação da criança de que é suficiente.

O pai ou a mãe pode achar que está a motivar. Para a criança, é como estar a ser medida numa balança onde nunca chega ao padrão. O resultado, regra geral, não é motivação, mas vergonha silenciosa.

Pense em irmãos. Um é naturalmente académico, o outro é mais prático e físico. Nos jantares de família, os adultos elogiam o primeiro por ler livros grossos e gozam com o segundo por “não gostar da escola”. “Tu és o desportivo, o teu irmão é o inteligente”, repetem.

À superfície, parece brincadeira. Ao longo dos anos, esses rótulos entram como tatuagens. Estudos sobre rotulagem mostram que as crianças internalizam fortemente estes papéis, muitas vezes limitando as próprias ambições porque “isso não é a minha cena” ou “isso é a coisa da minha irmã, não é a minha”.

A comparação ensina, sem ruído, que o amor é um sistema de classificação. A criança começa a avaliar cada sala: quem é “melhor” e quem é “pior”. Isto é uma receita para inveja, insegurança e amizades que parecem competições.

Celebrar diferenças é mais lento e menos “eficiente” do que dizer “Olha para a tua prima, vês como ela se porta bem.” Mas crianças que se sentem vistas como elas próprias são muito mais resilientes. Não vivem a tentar ganhar uma corrida que ninguém pode realmente vencer.

5. A escola do “aguenta”: gozar com a vulnerabilidade

Algumas famílias veneram a dureza. Chorar é “fraqueza”, medo é “drama”, ternura é “coisa de bebés”. Nessas casas, o primeiro instinto quando uma criança se abre é muitas vezes gozar ou revirar os olhos. A exposição emocional torna-se perigosa. Então as crianças vestem armadura.

A psicologia liga esta atitude a maiores taxas de sofrimento internalizado, sobretudo em rapazes que aprendem cedo que lágrimas são sinónimo de falhanço. Não ganham pele mais grossa. Ganham máscaras mais grossas.

Todos conhecemos esse momento: a criança cai, esfolar um joelho, e olha à volta para perceber se tem permissão para chorar. Um pai pode pegá-la ao colo e dizer: “Assustaste-te, foi?” Outro pode rir-se: “Estás bem, não sejas bebé, isso não foi nada!”

O joelho cura de qualquer forma. O guião interno não. A investigação sobre vinculação mostra que crianças que se sentem seguras para expressar vulnerabilidade desenvolvem melhores capacidades de coping mais tarde. Não porque a vida doa menos, mas porque não precisam de gastar energia a fingir que são de pedra.

Quando a vulnerabilidade é ridicularizada, as relações viram palcos de desempenho. A criança aprende a mostrar apenas a metade “forte” de si. Isso torna a intimidade quase impossível. Por baixo, sentem-se muitas vezes cronicamente incompreendidas e sós.

A verdadeira força emocional não é nunca chorar. É saber que podes desfazer-te à frente de alguém e, mesmo assim, ser amado. Essa lição começa - ou morre - na infância, nos pequenos momentos em que uma voz trémula é acolhida ou gozada.

6. Amor que vem com culpa e chantagem emocional

Alguns pais nunca gritam, nunca batem, nem sequer usam palavras duras. Em vez disso, usam a culpa como arma. “Depois de tudo o que fiz por ti, falas comigo assim?” “Se fores sair com os teus amigos, eu fico aqui sozinho(a), mas faz o que quiseres.” A criança aprende que as suas necessidades magoam o pai ou a mãe.

Os psicólogos chamam a isto emaranhamento emocional. As linhas entre “eu” e “tu” ficam desfocadas. A criança torna-se terapeuta, parceiro(a) ou salvador(a) do progenitor. Por fora, parecem maduras. Por dentro, estão exaustas.

Uma adolescente quer ir estudar para fora. A mãe suspira pesadamente e diz: “Eu sempre soube que me ias deixar um dia. Só não te esqueças de quem sacrificou tudo por ti.” Não proíbe diretamente. Apenas uma onda de culpa espessa o suficiente para se nadar nela.

A investigação sobre parentificação mostra que crianças que se sentem responsáveis pela estabilidade emocional de um pai ou mãe têm maior probabilidade de desenvolver culpa crónica, dificuldade em estabelecer limites e dificuldade em desfrutar dos próprios sucessos sem uma sensação de traição.

Esta chantagem emocional não cria crianças gratas. Cria adultos que pedem desculpa por terem vida. Têm dificuldade em dizer não no trabalho, nas relações, com os próprios filhos. Dizer “Eu quero isto” parece perigoso, quase um crime contra as pessoas que os amam.

O amor saudável permite que a criança se separe, explore, discorde. O amor enredado em culpa cola-a ao lugar. Podem sorrir. Lá no fundo, sentem-se presas.

7. Viver através do filho: a pressão invisível para cumprir um sonho

Alguns pais despejam todos os seus sonhos por cumprir nos filhos. A criança torna-se o futuro médico, o futuro artista, aquele(a) que vai “chegar longe” de formas que o pai ou a mãe não conseguiu. Parece apoio. Por baixo, há um roubo silencioso: o roubo do direito da criança ao seu próprio caminho.

Os psicólogos vêem isto muitas vezes nas consultas. Adultos que não sabem como foram parar a carreiras, desportos ou estilos de vida que nunca lhes pertenceram de verdade - e que, no entanto, sentem uma estranha deslealdade quando tentam sair.

Pense num pai que sempre quis ser atleta profissional mas não conseguiu. O filho é competente no desporto, mas não é obcecado. Todos os fins de semana, o pai pressiona, analisa, corrige, sonha em voz alta: “Um dia vais fazer o que eu não pude.” O rapaz acena, mas sente-se mais pesado a cada época.

Estatisticamente, estas crianças muitas vezes têm bom desempenho cedo e depois esgotam-se a sério. Descrevem um ruído de fundo permanente: “Se eu parar, destruo os meus pais.” Isto não é motivação. É medo.

Quando uma criança carrega a vida não vivida de um adulto, os seus próprios desejos ficam enterrados. Pode ter dificuldade em responder a perguntas básicas como “O que é que tu queres, de facto?” A psicologia chama a isto identidade difusa: um sentido de si próprio desfocado.

O sonho de um pai ou mãe não é o inimigo. O problema começa quando vira dever. As crianças florescem quando os adultos dizem: “Aqui estão opções, aqui está apoio”, e não “Aqui está o guião, não o deixes cair.”

Como corrigir o rumo com suavidade, sem te odiares

A boa notícia da psicologia é brutalmente simples: reparações pequenas e consistentes contam mais do que uma parentalidade perfeita. Não precisas de te tornar um santo de um dia para o outro. Precisas de reparar, parar e reconectar um pouco mais vezes.

Um método prático que os terapeutas sugerem é a “reparação de 30 segundos”. Quando te apanhas a responder de forma brusca, a gozar ou a desvalorizar, voltas atrás assim que puderes: “Eu falei de forma dura há pouco. Os teus sentimentos importam. Podemos tentar essa conversa outra vez?” Esses 30 segundos reescrevem horas de tensão.

Outra mudança concreta é trocar julgamentos por curiosidade. Em vez de “És tão dramático(a)”, tenta “Isto parece grande para ti - conta-me o que se está a passar.” Em vez de “Não sejas preguiçoso(a)”, pergunta “O que é que está a tornar isto difícil de começar?” Estas perguntas não desculpam o comportamento; abrem uma porta.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. A vida real é confusa, as pessoas estão cansadas, o dinheiro aperta, os nervos estão em franja. Por isso, apontar para uma parentalidade “suficientemente boa” não é desculpa. É um alvo mais saudável do que uma imagem impossível de calma perfeita.

O psicólogo Donald Winnicott chamou-lhe a “mãe suficientemente boa” (ou pai/progenitor): não impecável, nem sempre paciente, mas responsiva o suficiente para que a criança se sinta, no essencial, segura, vista e tida em mente.

  • Repara num padrão recorrente (gozo, controlo, culpa, comparação).
  • Escolhe um pequeno comportamento para ajustar esta semana, não dez.
  • Diz em voz alta quando falhas: “Não lidei bem com isto.”
  • Oferece uma frase de validação antes de qualquer conselho.
  • Protege pelo menos 10 minutos por dia de presença sem distrações.

O legado silencioso que deixamos na cabeça dos nossos filhos

A psicologia não diz que as crianças precisam de pais perfeitos. Diz que precisam de pais cujo amor não desaparece quando elas choram, falham ou discordam. As atitudes mais associadas a crianças infelizes raramente são as que dão manchetes. São pequenas formas diárias de falar, reagir e organizar a vida familiar - que ou dão espaço a uma criança para existir, ou a encolhem para caber no conforto de outra pessoa.

Cada “Pára de exagerar” ou “Vais matar-me de preocupação” é uma pincelada. Ao longo dos anos, essas pinceladas pintam o mundo interior da criança: é permitido ou proibido sentir; é bem-vinda ou um peso; é livre ou está sempre em dívida.

A parte inquietante é perceber quantos destes padrões absorvemos dos nossos próprios pais, que também nos amavam e também carregavam as suas cicatrizes. A parte esperançosa é esta: o ciclo pode dobrar. Uma única geração que começa a dizer “Os teus sentimentos são reais, as tuas escolhas contam, o meu amor não é um prémio que ganhas” muda o clima emocional para todos os que vêm a seguir.

Se és pai/mãe, futuro pai/mãe, ou apenas alguém a criar a sua própria criança interior, a pergunta fica no ar: que atitude queres que ecoe numa mente jovem daqui a vinte anos?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Validação emocional Ouvir e nomear sentimentos em vez de os desvalorizar Ajuda as crianças a construir segurança interna e clareza emocional
Consideração incondicional Separar o valor da criança do desempenho ou da obediência Reduz perfeccionismo, vergonha e medo de falhar
Autonomia saudável Oferecer escolhas reais e respeitar diferenças Sustenta confiança, resiliência e felicidade a longo prazo

FAQ:

  • Pergunta 1: Alguns erros na parentalidade podem mesmo deixar o meu filho infeliz a longo prazo?
    A investigação sugere que é o clima repetido, não dias maus isolados, que molda as crianças. Erros ocasionais seguidos de reparação raramente causam danos duradouros.
  • Pergunta 2: Validar emoções “mima” a criança?
    Não. Podes validar sentimentos (“Estás mesmo zangado(a)”) e, ainda assim, manter limites firmes no comportamento (“Não podes bater no teu irmão”).
  • Pergunta 3: E se os meus pais me educaram com estas atitudes e eu fiquei “bem”?
    Muitos adultos funcionam bem, mas ainda carregam ansiedade, culpa ou baixa autoestima escondidas. Reparar nisso não apaga as tuas forças; apenas abre espaço para fazer melhor com a próxima geração.
  • Pergunta 4: Quão cedo é que estes padrões começam a afetar as crianças?
    Estudos sobre vinculação mostram que até bebés pequenos captam o clima emocional. Ainda assim, a mudança é possível em qualquer idade, incluindo na adolescência.
  • Pergunta 5: Por onde começo se isto parecer avassalador?
    Escolhe uma área - como não gozar com lágrimas ou reduzir comparações - e foca-te apenas nisso durante algumas semanas. Mudanças pequenas e consistentes têm mais impacto do que grandes resoluções que não consegues manter.

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