Sabe aquela sensação estranha, meio leve e flutuante, depois de uma grande mudança de vida? O emprego de que finalmente se afastou. A relação tóxica que terminou. A descoberta na terapia que o deixou a olhar para o tecto às 2 da manhã, de repente sem saber bem quem é sem os velhos hábitos.
Há uma fase silenciosa e desconfortável de que pouca gente fala: a parte depois do “glow-up”, quando devia sentir-se orgulhoso e poderoso, mas em vez disso sente-se… deslocado.
Faz scroll, cumpre, sorri quando é preciso. Por dentro, algo parece ligeiramente desalinhado, como se a sua vida estivesse um passo ao lado de onde deveria estar.
Não está estragado. Não está a regredir.
Pode simplesmente estar numa recalibração psicológica.
Porque é que crescer pode saber pior antes de saber melhor
O crescimento pessoal parece glamoroso visto de fora: novos hábitos, novos limites, uma nova linguagem de “auto-respeito” e “alinhamento”.
Por dentro, pode parecer arrancar o soalho e descobrir todo o pó que esteve escondido por baixo. Ultrapassou uma versão antiga de si, mas a nova ainda não solidificou.
O seu sistema nervoso, as suas relações, a sua identidade - todos os sistemas silenciosos que o mantêm “você” - de repente têm de reescrever o código. E essa reescrita não se sente como um dia de spa. Sente-se como uma actualização de software em que tudo fica lento, falha e reinicia a horas estranhas da noite.
Imagine isto: alguém termina um grande ciclo de terapia para deixar de agradar a toda a gente. Finalmente diz “não” a trabalho extra. Deixa de rir de piadas que magoam demais. No papel, isto é uma história de sucesso.
Mas, em vez de andar por aí a sentir-se forte, chega a casa e sente culpa, solidão e um ligeiro enjoo. O telemóvel fica mais silencioso. Algumas pessoas afastam-se. Até o corpo fica tenso, como se estivesse a preparar-se para um impacto que nunca chega.
A investigação sobre mudança e formação de hábitos mostra que o nosso cérebro se agarra ao familiar, mesmo quando o familiar dói. Por isso, no momento em que a vida muda, os alarmes internos começam a gritar - não porque fez algo errado, mas porque fez algo novo.
Do ponto de vista psicológico, isto é o seu “ponto de regulação” interno a ser desafiado. Tinha uma ideia de base sobre quem era: o fiável, o calado, o que nunca se queixa, o que aguenta sempre.
Quando cresce para lá disso, surge um intervalo entre a autoimagem antiga e os novos comportamentos. Esse intervalo sente-se como inquietação, dúvida, ou até um luto ligeiro.
O cérebro prefere coerência à verdade; por isso, quando as suas escolhas já não combinam com a identidade antiga, entra em modo de emergência para perceber quem manda agora. Essa agitação é a sensação de desconforto - a mente a lutar para actualizar a história de si.
Como atravessar a recalibração interna sem entrar em pânico
Uma das coisas mais estabilizadoras que pode fazer nesta fase é dar-lhe um nome. Diga literalmente a si mesmo: “Isto é recalibração. O meu sistema está a actualizar.”
Depois, volte ao corpo. Sinta os pés no chão, as costas na cadeira, o peso das mãos. Respirações lentas e deliberadas, com uma expiração um pouco mais longa, dizem ao seu sistema nervoso que não há nenhum tigre a persegui-lo.
Escolha um hábito-âncora que pertença ao “novo você” - talvez uma caminhada à noite, escrever três linhas num diário, ou fechar o portátil a horas - e trate-o como um farol. Sinais pequenos e consistentes ajudam o cérebro a entender que a nova identidade não é uma fase; é o novo padrão.
Muita gente sabota esta etapa porque o desconforto parece um sinal de que escolheu o caminho errado. Voltam a correr para o emprego, os padrões, o parceiro que encaixavam na identidade antiga, só porque esses papéis são familiares.
Essa é a armadilha. A mente interpreta o familiar como “seguro” e o desconhecido como “perigoso”, mesmo quando o desconhecido é mais saudável.
Seja gentil com a vontade de recuar. Não precisa de se obrigar a ser “forte”. Só precisa de um pouco mais de evidência para a nova história do que para a antiga. Pequenas promessas cumpridas a si mesmo - deitar-se 15 minutos mais cedo, dizer uma frase honesta numa conversa - vão inclinando lentamente a balança.
Às vezes, crescer não se sente como tornar-se uma versão melhor de si. Sente-se como perder uma versão de si com a qual toda a gente estava confortável.
- Pausa antes de rotular a sensação como “errada”
Dê 24 horas ao desconforto antes de agir. Muitas vontades de recuar abrandam se não as tratar como emergências. - Acompanhe micro-vitórias, não apenas marcos
Escreva um momento por dia em que escolheu a favor do seu eu futuro. O cérebro precisa de prova concreta para actualizar narrativas antigas. - Limite grandes decisões durante o “chicote emocional”
Logo após uma descoberta ou um limite importante, evite mudanças drásticas. Deixe a poeira assentar para não confundir recalibração com arrependimento. - Fale com uma pessoa que conheça o seu “antes” e “depois”
Uma testemunha de confiança pode lembrar-lhe, com carinho, o quanto avançou quando a sua própria memória tenta reescrever a história. - Permita a estranheza
Um comportamento novo vai sempre parecer um pouco rígido ao início. Os seres humanos não foram feitos para se sentirem imediatamente naturais em papéis totalmente novos.
Viver no “entre”: quando a vida antiga já foi e a nova ainda não chegou
Há um período em que já não reconhece bem a sua própria vida. Os hábitos estão a mudar, os gostos estão a transformar-se, algumas pessoas já não “encaixam” como antes.
Este limbo pode parecer estar num apartamento vazio logo depois de sair: o eco do que era, o branco do que vem a seguir. Ainda não há mobília - só possibilidade e dúvida.
Nalguns dias vai sentir falta da confusão do sítio antigo. Noutros, o espaço vazio parece ar fresco. Esse vai-e-vem não é sinal de falhanço; é a forma como a sua psique testa e confirma a nova forma das coisas.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A recalibração é desconfortável | Inquietação, dúvida e oscilações emocionais são normais após uma mudança positiva | Reduz a ansiedade por “sentir-se mal” durante o crescimento |
| Âncoras pequenas vencem grandes revoluções | Um ou dois hábitos estáveis sustentam a sua nova identidade enquanto ela se forma | Torna a mudança sustentável e menos avassaladora |
| Não confunda desconforto com uma má escolha | O cérebro resiste a padrões desconhecidos, mesmo quando são saudáveis | Ajuda a manter o rumo em vez de recuar |
FAQ:
- Porque é que me sinto pior depois de tomar uma decisão “saudável”?
Porque o seu sistema nervoso está programado para preferir o que é familiar, não o que é bom. Quando finalmente estabelece um limite, sai de um emprego desgastante ou fala com honestidade, o corpo lê “novo” como “arriscado”, o que pode activar ansiedade ou culpa.- Quanto tempo costuma durar esta fase de instabilidade?
Não há um calendário exacto, mas muitas pessoas notam o pico de desconforto a diminuir após algumas semanas de comportamento novo consistente. Quanto mais repete o novo padrão, mais depressa o cérebro o aceita como normal.- Sentir-me instável significa que fiz a escolha errada?
Não necessariamente. O desconforto é um sinal de mudança, não uma prova de erro. Olhe para os seus valores e necessidades a longo prazo, não apenas para o “tempo” emocional do momento.- O que posso fazer quando me apetece fugir de volta para a vida antiga?
Abrande tudo. Fale com alguém que compreenda os seus objectivos, “durma” sobre decisões grandes e reconecte-se com as razões que o levaram a querer mudar. Sejamos honestos: ninguém pensa com clareza a meio de uma espiral às 2 da manhã.- Como sei que estou mesmo a crescer e não apenas preso no caos?
Sinais de crescimento real incluem limites mais claros, conversas mais honestas e escolhas alinhadas com os seus valores, mesmo quando são desconfortáveis. Se as suas acções estão a avançar na direcção do que importa para si, o caos faz parte da recalibração - não é o destino.
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