Estás a meio de um dia normal e algo pequeno descompensa-te: um comentário seco numa reunião, ou o teu parceiro pega no telemóvel enquanto falas. Por dentro, o peito aperta e a mente entra em “modo filme de desastre”. Por fora, manténs a voz estável e segues.
A pergunta aparece logo: “Porque é que estou a reagir assim, se eu sei que isto não é nada de especial?”
Essa divisão não é um defeito. É o teu cérebro a correr dois sistemas ao mesmo tempo - e, às vezes, eles não chegam ao mesmo diagnóstico.
Porque podes sentir-te emocionalmente inundado enquanto pareces totalmente bem
Há um padrão muito comum: cara neutra, palavras razoáveis… e o corpo em alarme. Coração acelerado, ombros tensos, respiração curta, e uma discussão inteira ensaiada só na tua cabeça.
Isto não é “falsidade”. É diferença de velocidade:
- O sistema emocional (mais antigo) reage em frações de segundo: deteta ameaça, ativa o corpo, prepara luta/fuga/congelamento.
- O córtex pré-frontal (mais “lógico”) entra depois: põe contexto, nuance e alternativas.
Um exemplo simples: recebes “Não posso falar. Estou ocupado.” Sem emoji, sem explicação. O corpo dispara: rejeição, raiva, medo. A mente tenta acompanhar com histórias (“fiz algo?”, “estão zangados?”). Duas horas depois, a pessoa liga e estava só numa reunião.
Logicamente, faz sentido. Mas o corpo não esperou pela explicação - respondeu ao sinal.
Também ajuda perceber isto: o corpo lê perigo por tom, postura, microexpressões e memórias antigas guardadas como “padrões”, não como histórias bem organizadas. A mente lê por palavras e argumentos. Quando os dois relatórios não coincidem, sentes-te dividido - e não estás “maluco”.
Como navegar a divisão sem te traires
O movimento mais útil costuma ser simples: nomear as duas coisas, sem escolher um “vencedor”.
Na tua cabeça (para começar), algo como: “O meu corpo está em alarme. A minha mente acha que isto provavelmente não é uma ameaça real.”
Depois, cria espaço antes de responderes. Uma regra prática: faz uma pausa de 5 segundos e usa-a para baixar o volume do corpo (não para encontrar a frase perfeita):
- expira um pouco mais longo do que inspiras (a expiração tende a acalmar mais),
- sente os pés no chão,
- solta maxilar e ombros.
Um erro comum é esmagar a emoção com lógica: “não sejas sensível”, “sê profissional”. Funciona por fora, mas por dentro fica “trabalho por acabar” - e isso aparece mais tarde como exaustão, irritação, distanciamento ou ruminação.
Imagina: “Essa apresentação foi… ok, acho eu.” Sentes vergonha. O lógico corre a tapar: “estão stressados”. Tu sorris e segues. À noite, estás drenado - não por fraqueza, mas porque o sistema nervoso não teve espaço para completar a reação.
“Maturidade emocional não é sentir menos. É permitir que os sentimentos sejam reais sem deixar que sejam a única verdade na sala.”
Repara primeiro no corpo
Maxilar contraído, peito apertado, respiração curta, mãos frias/quentes. O corpo costuma dar o “alarme” antes de haver palavras.Acrescenta um pensamento claro
“Há algo em mim que se sente ameaçado agora.” (Isto reduz o “eu sou assim” e cria distância saudável.)Escolhe uma pequena ação externa
Pede pausa, propõe voltar ao tema mais tarde, ou diz: “Preciso de um momento para pensar.” Limites pequenos evitam respostas a quente e protegem a relação.
Viver com a tensão em vez de lutar contra ela
A divisão emocional–lógica não vai desaparecer. Faz parte de seres humano. Vais, às vezes, chorar por algo que compreendes. E outras vezes vais sentir-te entorpecido perante algo que “deveria” doer.
O objetivo não é alinhar tudo na perfeição. É parar de tratar o emocional como “infantil” e o lógico como “adulto”:
- Em alguns dias, os sentimentos captam sinais que a razão ainda não processou (por exemplo, falta de respeito, insegurança, limites ultrapassados).
- Noutros, a lógica impede-te de entrares numa espiral de padrões antigos que já não servem.
Uma conversa honesta pode diminuir muito a tensão. Dizer: “Eu sei que isto não faz muito sentido, mas estou mesmo ativado agora” torna a divisão visível sem culpar ninguém. Muitas vezes, isso já baixa a intensidade.
Com o tempo, o que ajuda é um “serviço interno de tradução”: reconhecer padrões no corpo (“este aperto na garganta é desvalorização”, “este calor na cara é vergonha, não raiva”) e deixar a parte racional entrar como intérprete, não como juiz.
Pergunta útil, em privado: “De que é que este sentimento acha que me está a proteger?” Muitas vezes, a resposta vem de experiências antigas - e o momento presente foi só a faísca.
Resumo rápido (para usar no dia a dia):
- Cérebro a duas velocidades: o emocional dispara primeiro; o lógico chega depois com contexto.
- Nomeação interna: “corpo sente X, mente pensa Y” cria espaço para responder melhor.
- Sinais externos simples: pausas e limites curtos evitam explosões e “ressacas” emocionais.
FAQ:
Porque é que me sinto “demasiado emocional” mesmo quando entendo a situação?
Porque o teu sistema emocional guarda experiências como padrões corporais. Quando algo se parece (mesmo vagamente) com uma dor antiga, o corpo reage como se fosse agora - mesmo que a mente saiba que não é tão grave.Isto significa que sou emocionalmente instável?
Não necessariamente. Muitas pessoas com bom autocontrolo por fora sentem ondas fortes por dentro. A divisão, por si só, não é uma perturbação; pode ser sensibilidade + capacidade de “manter a compostura”.Como posso explicar isto a alguém próximo de mim?
“Às vezes o meu corpo reage com muita força antes de eu conseguir organizar pensamentos. Posso ficar mais calado, mas estou a tentar acalmar-me. Não te estou a ignorar.” Frases simples e específicas costumam funcionar melhor.É melhor expressar sempre as minhas emoções em vez de me manter calmo?
Nem sempre. Expressão sem reflexão pode piorar conflitos. O mais útil tende a ser: sentir → nomear → escolher o que partilhar (consoante segurança, timing e relação).Quando devo procurar ajuda profissional por causa disto?
Se isto for frequente e te estiver a afetar sono, trabalho, relações, ou se sentires ataques de pânico/ruminação intensa, um psicólogo/psicoterapeuta pode ajudar a regular o sistema nervoso e a desmontar padrões antigos por trás da intensidade.
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