Estás sentado no autocarro, a fazer scroll no telemóvel, e lês uma história sobre alguém a chorar de felicidade num concerto.
Pensas, quase com curiosidade: “Quando foi a última vez que senti alguma coisa com essa intensidade?”
Lembras-te de grandes momentos que deviam ter-te mexido contigo. Um fim de relação. Um novo trabalho. Uma discussão em família.
Por fora, fizeste o teu papel. Sorriste, acenaste, disseste as coisas certas.
Por dentro, parecia que… nada. Apenas uma linha plana no radar emocional.
Começas a perguntar-te se te tornaste frio, ou avariado, ou de alguma forma menos humano do que toda a gente.
E aqui está a parte estranha: a psicologia diz que este “entorpecimento” emocional não é um defeito.
É uma estratégia que a tua mente aprendeu para sobreviver.
E, por vezes, funciona demasiado bem.
Quando os teus sentimentos entram em modo avião
Há uma palavra que os psicólogos usam para esta desconexão emocional: alexitimia.
Soa técnico, quase como uma perturbação rara, e no entanto muitas pessoas vivem algo muito parecido todos os dias.
Sentes-te cansado, inquieto, talvez ansioso.
Mas se alguém pergunta: “O que estás a sentir agora?”, o teu cérebro mostra-te um ecrã em branco.
Podes dizer “Estou bem” porque não tens nada mais preciso.
Ou confundes pensamentos com emoções: “Sinto que estou a falhar” em vez de “Sinto vergonha”.
O mundo lá fora continua a atirar cores para cima de ti.
Por dentro, tudo fica em tons de cinzento.
Imagina uma mulher, 32 anos, bem-sucedida no papel.
É promovida, os amigos planeiam uma celebração, toda a gente fica entusiasmada por ela.
No restaurante, ela ri-se, brinda, publica uma foto com uma legenda cheia de alegria.
A caminho de casa, senta-se no banco de trás do táxi e sente… nada.
Diz para si mesma que é ingrata.
Pergunta-se se está deprimida, ou se simplesmente “não foi feita como as outras pessoas”.
Quando finalmente procura um terapeuta, descobre algo surpreendente.
A desconexão emocional não começou com esta promoção.
Começou anos antes, silenciosamente, sempre que aprendeu que emoções grandes eram “demais” para os adultos à sua volta.
A psicologia descreve a desconexão emocional menos como uma doença e mais como um modo de sobrevivência aprendido.
Muitas pessoas que se sentem entorpecidas cresceram em ambientes onde as emoções eram inseguras, ridicularizadas ou ignoradas.
Se choravas, diziam-te para parar.
Se ficavas zangado, eras “dramático”.
Se estavas triste, eras “ingrato”.
Então o cérebro fez o que faz melhor: adaptou-se.
Baixou o volume dos sentimentos para evitar rejeição, conflito ou castigo.
Com o tempo, esta adaptação torna-se quase automática.
Não decides desligar-te.
O teu sistema simplesmente aciona o interruptor por ti, como um disjuntor a proteger a casa durante uma tempestade.
O problema é que a tempestade parou há anos.
Mas o disjuntor nunca voltou a ser ligado.
Como o teu cérebro fecha, em silêncio, a porta às tuas emoções
Uma forma simples de esta desconexão acontecer é através de distração constante.
O teu cérebro aprende que estar ocupado é mais seguro do que seres honesto contigo mesmo.
Preenches todos os silêncios com podcasts, música, Netflix, redes sociais.
Não porque sejas superficial, mas porque a quietude parece ameaçadora sem sequer perceberes porquê.
Por vezes, os psicólogos chamam a isto “evitamento experiencial”.
Não foges da vida em si; foges da experiência interna que vem com ela.
Dizes que estás “cansado” ou “stressado”.
Por baixo, pode haver luto, solidão ou raiva para os quais nunca tiveste palavras.
As emoções que ficam por nomear não desaparecem; apenas vão para o subsolo.
Imagina um adolescente que aprende a desligar cedo.
Em casa há gritos, crítica, talvez caos emocional.
Ele descobre que, se ficar calado, jogar videojogos, manter o quarto escuro, ninguém o incomoda.
O silêncio torna-se o seu superpoder.
Anos mais tarde, em adulto, ainda usa o mesmo truque.
Quando o parceiro pergunta: “O que se passa?”, o cérebro bloqueia.
Ele sente um peso físico, um nó no peito, tensão no maxilar.
Mas não há um rótulo claro como “triste”, “magoad@” ou “com medo”.
Pode até sentir culpa: outras pessoas estão pior, porque é que não consegue ser normal?
No entanto, o corpo está apenas a repetir uma regra aprendida há muito tempo: emoções são território perigoso.
Do ponto de vista psicológico, a desconexão emocional está no cruzamento de vários mecanismos.
Há a dissociação, em que te sentes desligado de ti próprio, quase como se estivesses a ver a tua vida de fora.
Há o stress crónico, que mantém o sistema nervoso em modo de sobrevivência.
Luta, fuga ou congelamento.
Quando o “congelamento” assume o controlo, o volume emocional desce.
Há também o papel da linguagem.
Se ninguém te ajudou a nomear emoções em criança, o teu dicionário interno ficou básico.
Feliz, triste, zangado - e pouco mais.
Sem palavras, o mundo interior fica enevoado.
Esse nevoeiro não é um defeito de personalidade.
É um conjunto de competências em falta, muitas vezes transmitido em silêncio de geração em geração.
Sejamos honestos: ninguém faz esta aprendizagem emocional na perfeição, todos os dias, sem falhar.
Reaprender a sentir: pequenos passos possíveis
A boa notícia é que a ligação emocional não é um caso perdido.
É mais como um músculo que não usas há algum tempo: rígido, mas não partido.
Um ponto de entrada simples é o corpo.
Em vez de perguntares “O que sinto?”, pergunta “O que noto fisicamente?”
Talvez os ombros estejam tensos, o estômago pesado, a garganta apertada.
Estes sinais são emocionais, mesmo que a mente ainda não os traduza.
Podes começar por fazer um check-in três vezes por dia.
Sem julgamento, sem “consertar”, apenas uma varredura de 30 segundos: cabeça, peito, barriga.
Escreve uma palavra de cada vez.
Não uma frase completa, não um discurso.
Só uma palavra como “tenso”, “vazio”, “vibrante”, “nebuloso”.
Parece pouco.
Mas é o teu sistema nervoso a acender lentamente as luzes outra vez.
Uma armadilha comum é tentares forçar as emoções a aparecer sob comando.
Sentes-te, fechas os olhos e pensas: “Ok, sente alguma coisa. Qualquer coisa.”
Essa pressão geralmente congela-te ainda mais.
Não consegues intimidar as tuas emoções para cooperarem.
Outro erro é comparares a tua vida interior com a dos outros.
Há quem chore facilmente, fale com uma linguagem emocional rica, pareça viver em tecnicolor.
Se a tua experiência é mais silenciosa, mais abafada, podes julgar-te defeituoso.
Não és. Apenas aprendeste um dialeto emocional diferente.
Sê gentil com as partes de ti que se desligam.
Elas protegeram-te no passado.
Não estás a tentar destruir essa proteção.
Estás a explicar, com cuidado, que o perigo mudou.
O progresso nesta área costuma ser irregular.
Uns dias vais sentir-te de repente em carne viva e esmagado.
Outros dias vai parecer que voltaste à estaca zero.
Não voltaste. Estás apenas a aprender uma nova forma de viver dentro da tua própria pele.
A psicóloga Hilary Jacobs Hendel descreve as emoções como ondas que sobem, atingem o pico e descem quando permitimos que se movam através do corpo.
Quando as bloqueamos, elas não desaparecem; transformam-se em ansiedade, entorpecimento ou exaustão.
Pratica um “micro check-in” diário
Uma vez por dia, pára e pergunta: “Neste momento, o que está a acontecer no meu corpo?”
Nomeia uma sensação e uma emoção, mesmo que pareça um palpite.Usa uma tabela simples de emoções
Procura online uma roda básica de emoções e guarda-a no telemóvel.
Quando estiveres bloqueado, percorre as palavras e escolhe uma que te pareça 60% certa.Fala em voz alta, mesmo quando estás sozinho
Descreve o teu dia em termos emocionais como se estivesses a explicar a um amigo próximo.
Isto vai construindo o teu vocabulário emocional, pouco a pouco.Evita frases de autojulgamento
Apanha pensamentos como “Sou dramático” ou “Estou avariado”.
Troca por “Estou a aprender” ou “Isto é novo para mim”.Considera apoio gentil
Um terapeuta, um grupo de apoio, ou até um amigo de confiança pode servir de espelho.
Às vezes precisamos de outro sistema nervoso por perto para voltarmos a encontrar os nossos sentimentos.
Viver com sentimentos que chegam tarde, suavemente, ou não chegam
Por vezes, o objetivo não é tornares-te um fogo de artifício emocional.
É simplesmente sentires-te um pouco mais perto da tua vida interior do que te sentias no ano passado.
Podes nunca ser a pessoa que chora em todos os filmes ou escreve entradas poéticas no diário todas as manhãs.
E não precisas de ser.
O que importa é que, devagar, as tuas emoções deixam de parecer estranhas.
Começas a notar que o “nada” que sentiste depois daquela discussão era afinal mágoa, misturada com medo de rejeição.
Apanhas-te a dizer: “Não sei o que sinto… mas acho que estou inclinado para tristeza.”
Essa hesitação é progresso.
Estás a passar de um desligamento total para um sinal fraco, mas honesto.
Todos já estivemos lá: aquele momento em que vês outras pessoas a rir, a chorar, a conectar-se, e sentes que estás atrás de um vidro.
A psicologia não te rotula como “avariado” por isso.
Sussurra: “Esta foi a tua forma de sobreviver.”
À medida que reaprendes a escutar por dentro, podes surpreender-te com o que aparece.
Lutos antigos. Pequenas alegrias. Tédio, irritação, ternura.
Nenhum destes sentimentos é prova de que algo está errado.
São sinais de que o sistema está a ligar-se de novo.
Podes nunca lembrar-te do dia exato em que deixaste de te entorpecer.
Não há linha de meta; há apenas uma familiaridade crescente com o teu próprio clima interno.
O que mudaria nas tuas relações, nas tuas escolhas, na tua rotina diária,
se seres honesto sobre os teus sentimentos parecesse só um pouco mais seguro do que ficares entorpecido?
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| O entorpecimento emocional é uma proteção aprendida | Frequentemente enraizada em ambientes onde os sentimentos eram inseguros ou desvalorizados | Reduz vergonha e autoacusação, abre a porta à autocompaixão |
| A consciência corporal é um primeiro passo prático | Pequenas varreduras diárias para tensão, peso ou sensações | Dá uma forma concreta de voltar a ligar sem exigir linguagem emocional perfeita |
| Práticas pequenas e consistentes funcionam melhor do que pressão | Micro check-ins, rodas de emoções e apoio gentil ao longo do tempo | Torna a reconexão emocional exequível, não avassaladora nem “tudo ou nada” |
FAQ:
- Pergunta 1 Porque é que não sinto nada em eventos que “deveriam” ser emocionais, como casamentos ou funerais?
Resposta 1 Isto acontece muitas vezes quando o teu sistema nervoso aprendeu a proteger-te desligando emoções fortes. Eventos grandes podem ativar padrões antigos de stress e, em vez de sentires profundamente, ficas entorpecido. Não significa que não te importas; significa que o teu sistema te está a sobreproteger.
Pergunta 2 Sentir-me desligado das minhas emoções é o mesmo que depressão?
Resposta 2 Podem sobrepor-se, mas não são a mesma coisa. A depressão inclui sintomas como humor baixo persistente, perda de interesse, alterações no sono e no apetite. A desconexão emocional é mais sobre não conseguires identificar ou aceder ao que sentes. Algumas pessoas têm as duas, outras só uma.
Pergunta 3 As experiências de infância podem mesmo afetar as minhas emoções em adulto?
Resposta 3 Sim. Se, ao crescer, as tuas emoções foram ignoradas, ridicularizadas ou castigadas, o teu cérebro adaptou-se baixando o volume dos sentimentos. Essa adaptação pode acompanhar-te na vida adulta até começares, conscientemente, a reaprender competências emocionais.
Pergunta 4 E se, sinceramente, não faço ideia do que estou a sentir, mesmo depois de tentar?
Resposta 4 Começa mais pequeno. Foca-te primeiro nas sensações do corpo: apertado, pesado, leve, trémulo. Usa rótulos simples como “bom”, “mau”, “neutro”. Com o tempo, com repetição e talvez apoio de um terapeuta, o teu vocabulário emocional pode expandir-se.
Pergunta 5 Posso resolver o entorpecimento emocional sozinho, ou preciso de terapia?
Resposta 5 Podes fazer progressos reais sozinho com práticas pequenas e consistentes. Dito isto, a terapia pode acelerar o processo e oferecer segurança, especialmente se o entorpecimento estiver ligado a trauma. Não és fraco por pedir ajuda; estás apenas a escolher um tipo diferente de apoio.
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