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Se se sente inquieto quando as expectativas desaparecem, a psicologia explica esta fase de adaptação.

Mulher sentada à mesa com caderno aberto, segurando um balão e uma caneca de chá, ao lado de uma planta.

O dia em que o meu grande projeto foi cancelado, a minha caixa de entrada ficou silenciosa de uma forma quase hostil. Deixaram de existir prazos afixados no meu calendário. Deixaram de aparecer pings no Slack a pedir atualizações. No papel, tinham-me oferecido algo precioso: tempo, espaço, liberdade. Na realidade, passei essa primeira semana a andar em círculos na minha própria cozinha, a abrir o frigorífico, a fechá-lo, a fazer scroll no telemóvel e a perguntar-me porque é que o meu peito parecia um punho apertado.

Todos já passámos por isto: aquele momento em que aquilo para que estavas a caminhar desaparece de repente.

A promoção falha.
A relação termina.
O exame acabou, e os resultados já saíram.

Às vezes, o desaparecimento das expectativas é mais desestabilizador do que as más notícias.

O teu cérebro tem de alcançar um mundo sem guião.

Porque é que perder expectativas parece perder a gravidade

Quando uma expectativa desaparece, o teu cérebro não se limita a encolher os ombros e seguir em frente. Perde um ponto de referência. Durante dias ou semanas, existe um pânico interno silencioso: “Para onde é que estou a apontar agora?” Podes sentir-te estranhamente cansado, inquieto ou “a flutuar”, como se alguém tivesse baixado o volume da tua vida.

Por vezes, os psicólogos falam disto como uma forma de micro-luto. Não estás a fazer luto por uma pessoa ou por um objeto, mas por uma história em que estavas a viver. Essa história tinha regras. Acordar, fazer isto, apontar para ali, atingir aquele marco.

Quando a história se dissolve, o teu sistema nervoso pode sentir-se como se estivesse a rodopiar no ar.

Pensa em alguém que treinou para uma maratona durante seis meses. Os dias dessa pessoa são construídos à volta da corrida: treinos cedo, planos de alimentação, quilometragem semanal. Depois, o dia da prova chega e passa. Ganhe ou perca, a grande expectativa evapora-se de um dia para o outro.

Muitos corredores descrevem a mesma coisa na semana seguinte: humor em baixo, irritabilidade, um “E agora?” Alguns até sentem aquilo a que os psicólogos do desporto chamam post-race blues, uma quebra temporária que se parece muito com uma depressão ligeira.

O mesmo padrão aparece depois de casamentos, grandes lançamentos, graduações e até reformas há muito aguardadas. A mente estava calibrada para um alvo. Quando esse alvo desaparece, o sistema vacila.

A psicologia tem um nome para parte disto: a fase de ajustamento. O teu cérebro constrói previsões sobre o que vai acontecer a seguir, e essas previsões são como mobiliário mental. Dão forma aos teus dias. Quando as expectativas colapsam, o mecanismo de previsão tem de se reconfigurar.

Esta reconfiguração não é apenas mental; é física. As hormonas do stress que estavam ancoradas a prazos ou a tensões relacionais já não sabem para onde ir. Os circuitos de recompensa que estavam viciados em marcadores de progresso ficam subitamente silenciosos.

É por isso que te podes sentir estranhamente à deriva, mesmo que a mudança seja positiva. O teu corpo ainda está a viver na história de ontem, enquanto a tua vida já está numa nova.

Como atravessar a fase de ajustamento sem entrares em pânico

Há um pequeno gesto prático que ajuda muito: criar expectativas minúsculas e de curto prazo enquanto as grandes desaparecem. Não um plano a cinco anos. Não uma nova missão de vida. Pensa “durante os próximos sete dias, vou experimentar…” e completa com algo simples.

Talvez seja caminhar depois do almoço. Enviar duas candidaturas. Ler dez páginas antes de dormir. A questão não é produtividade. A questão é dar ao teu cérebro sinais novos e claros sobre para que serve o tempo.

Esta “micro-estrutura” funciona como um corrimão temporário. Continuas a sentir a curva da escada, mas é menos provável que caias.

Muita gente salta este passo porque acha que ou tem de ter uma nova visão completa, ou então ficar em queda livre total. Esse pensamento tudo-ou-nada torna a fase de ajustamento muito mais dura do que precisa de ser.

Não és fraco por quereres um pouco de estrutura enquanto te reorientas. Não estás a “desperdiçar o teu potencial” só porque ainda não estás pronto para saltar para a próxima grande coisa. Pensa nisto como reabilitação das tuas expectativas. Os músculos reaprendem o movimento devagar, com repetição, não com transformação instantânea.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar. Vais falhar, esquecer ou largar coisas. O objetivo é direção, não perfeição.

Às vezes, o teu sistema nervoso precisa de provas, não de discursos motivacionais. Ações pequenas e repetíveis são essa prova: “Vês? Ainda estamos a avançar. O mundo não acabou. Outra história pode começar aqui.”

  • Dá nome à perda
    Escreve qual foi exatamente a expectativa que desapareceu: “A promoção”, “A relação”, “A pressão do exame”. Isto transforma um mal-estar vago em algo que consegues ver e enfrentar.

  • Aceita o meio estranho
    Dá a ti próprio uma janela de tempo em que a vida pode sentir-se esquisita. Duas semanas, um mês. Durante essa janela, o desconforto não é prova de que estás a falhar. É prova de que te estás a ajustar.

  • Acrescenta um ritual de enraizamento
    Uma caminhada diária, café de manhã sem telemóvel, três respirações profundas à secretária. Escolhe um e trata-o como uma âncora enquanto o resto do mapa se redesenha.

  • Fica atento a “decisões em pânico”
    Entrar à pressa num novo emprego, relação ou projeto só para fugir ao vazio costuma sair pela culatra. Se uma escolha é movida sobretudo por “Não aguento esta incerteza”, pára.

  • Procura uma testemunha, não um salvador
    Fala com alguém que consiga dizer: “Sim, esta fase é dura, e é normal”, em vez de alguém que te inunda de soluções. Ser visto acalma o sistema nervoso muito mais do que ser “consertado”.

Viver no espaço depois das expectativas, antes de se formarem novas

Há um tipo estranho de honestidade que aparece quando as expectativas caem. Vês quais rotinas eram genuínas e quais eram apenas andaimes para um objetivo. Aprendes o que fazes quando ninguém está a bater palmas, a contar, ou à espera de um resultado.

Esse espaço pode parecer vazio e assustador. Também pode ser discretamente revelador. Para que é que te viras quando nada é exigido? De que voz sentes falta e qual é a voz que, de repente, ouves mais claramente na tua cabeça?

A fase de ajustamento raramente é glamorosa. É roupa para lavar e caminhadas longas e olhar pela janela. É o cérebro a aceitar gradualmente que o enredo antigo acabou, enquanto a tua parte mais profunda experimenta novos.

Não tens de romantizar este período nem de o transformar num desafio de produtividade. Tens o direito de dizer: “Isto é horrível”, e ainda assim tratá-lo como uma etapa válida, e não como um erro. Só isso pode reduzir o pânico de fundo.

Algumas expectativas desvanecem-se em silêncio; outras partem-se como um ramo numa tempestade. Ambas deixam marca. Ambas pedem um ritmo mais gentil, dias mais simples, menos grandes promessas durante algum tempo.

Se te sentes inquieto quando as expectativas desaparecem, não estás estragado. Estás no processo muito humano de deixar a tua mente, o teu corpo e a tua história apanharem-se uns aos outros. Novas expectativas virão. Para já, a tarefa é menor: manteres-te presente no “entre”, tempo suficiente para reparares que tipo de vida queres, de facto, fazer crescer a partir daqui.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A fase de ajustamento é real A psicologia mostra que o cérebro precisa de tempo para se reconfigurar depois de as expectativas desaparecerem Normaliza a sensação de instabilidade, em vez de a tratar como falha pessoal
Usa micro-estrutura Rotinas de curto prazo e baixa pressão funcionam como âncoras temporárias Reduz a ansiedade e dá um sentido de direção suave durante a incerteza
Deixa o “meio estranho” existir Aceitar a fase esquisita e vazia reduz a pressão para tomar decisões precipitadas Ajuda a evitar escolhas em pânico e abre espaço para próximos passos mais autênticos

FAQ:

  • Porque é que me sinto pior depois de um objetivo ser atingido ou cancelado?
    Porque o teu cérebro estava organizado em torno desse objetivo e, quando ele desaparece, o teu sistema de previsão tem de se recalibrar. Essa lacuna muitas vezes parece uma queda, mesmo que no papel o resultado tenha sido bom.
  • É normal sentir-me perdido depois de uma rutura ou de uma mudança de trabalho que eu queria?
    Sim. Perdeste uma estrutura familiar, não apenas uma pessoa ou um cargo. Querer a mudança não apaga a fase de ajustamento que o teu corpo e a tua mente ainda têm de atravessar.
  • Quanto tempo costuma durar a fase de ajustamento?
    Varia. Para algumas pessoas são algumas semanas, para outras alguns meses. Se o vazio ou a ansiedade parecerem esmagadores ou persistentes, falar com um terapeuta pode ajudar a mapear o que está a acontecer.
  • Devo definir logo novos grandes objetivos para me sentir melhor?
    Saltar à pressa para novas expectativas importantes pode ser uma forma de fuga. Começar com rotinas pequenas e flexíveis é muitas vezes mais seguro enquanto o teu sistema nervoso ainda está a estabilizar.
  • E se eu nunca encontrar uma nova direção?
    Esse medo é comum no ponto mais baixo. Na prática, novos interesses e desejos tendem a surgir gradualmente quando o choque e o luto iniciais abrandam, sobretudo se te mantiveres ligado à vida do dia a dia.

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