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"Sinto pressão para ser produtivo": a psicologia explica como o valor próprio se liga ao desempenho.

Homem jovem em cozinha a trabalhar num portátil, com chávena de café e caderno abertos na mesa.

O teu portátil está fechado, o dia de trabalho “acabou” e, no entanto, o teu cérebro continua a fazer contas em segundo plano. Estás no sofá, a fazer scroll, mas ao mesmo tempo estás a calcular quantas tarefas riscaste, quantos e-mails respondeste, quantos passos deste.

Há aquele beliscãozinho de culpa por não estares a fazer “só mais uma coisa”. Vês um reel de produtividade de alguém no Instagram e, de repente, a tua noite calma parece um fracasso.

Não sabes bem quando aconteceu, mas, algures pelo caminho, descansar começou a parecer que estavas a ficar para trás.

A pergunta que ninguém faz realmente em voz alta é brutal.

Quando “ser suficiente” se transforma em “fazer mais”

Passa um dia a ouvir como as pessoas se descrevem e vais ouvir isto: “Estou mesmo cheio de trabalho agora”, “Esta semana fui super produtivo”, “Fiz imensa coisa”. O nosso calendário torna-se uma personalidade. A nossa lista de tarefas, um placar.

Escorregámos para um mundo em que o valor soa a produção, não a existência. Se estás cansado, dizes “Hoje não fiz o suficiente”, não “Hoje tive um dia humano”. E, em silêncio, instala-se uma nova regra: se não estás a produzir, não estás a progredir.

É assim que a pressão para te manteres produtivo deixa de ser sobre tarefas e passa a ser sobre identidade.

Pensa na Emma, 29 anos, gestora de projeto, a trabalhar remotamente. Acorda, verifica o Slack antes sequer de se sentar. Um ponto vermelho significa adrenalina. Sem ponto vermelho significa ansiedade. Às 10 da manhã, já encheu a manhã de microtarefas só para sentir que está “no caminho certo”.

Ao almoço, come à frente do ecrã, a meio a saborear a comida, a 100% a acompanhar as métricas de desempenho. O smartwatch vibra para ela se levantar, a app de tarefas apita para lembrar “foco”, e os stories do Instagram mostram amigos que acordaram às 5 da manhã para “dominar o dia”.

Às 22h, está exausta, mas abre o portátil “só para despachar mais umas coisas”. O dia não acaba com satisfação, mas com a sensação persistente de que ainda não fez o suficiente para merecer descansar.

Os psicólogos têm um nome para esta mistura de pressão e identidade: autoestima baseada na realização. Quando este padrão se instala, o teu juiz interior não pergunta “Como estou?”, mas “O que fiz?”.

Aprendemos cedo que boas notas, estrelas douradas e elogios aparecem quando desempenhamos. Mais tarde, promoções, aplausos e validação social chegam da mesma forma. Por isso, o nosso sistema nervoso começa a associar segurança à produtividade. Abrandares parece perigoso, como se estivesses a perder valor em tempo real.

Com o passar dos anos, o cérebro vai-se reprogramando em silêncio: fazer menos começa a equivaler a ser menos.

Aprender a existir sem estar sempre a produzir

Um pequeno gesto, radical, é criar bolsos minúsculos de “presença não produtiva”. Dez minutos em que fazes algo sem qualquer resultado mensurável: olhar para o céu, beber café sem telemóvel, desenhar linhas sem sentido numa folha.

Ao início, a tua mente vai gritar. Vais pegar no dispositivo, rever mentalmente a lista de tarefas, sentir uma comichãozinha de pânico. Isso não é preguiça, é abstinência. Estás habituado a microdoses de valor vindas da ação constante.

Ficar nesse desconforto alguns minutos por dia ensina ao teu cérebro uma mensagem nova: “Eu continuo a existir, continuo a importar, mesmo quando não estou a produzir nada de útil.”

A armadilha em que muita gente cai é transformar o autocuidado noutro projeto de produtividade. A pausa tem de ser “otimizada”. A rotina da manhã tem de ser “perfeita”. A meditação torna-se algo que te avalias a ti próprio.

Podes dizer a ti mesmo: “Descanso depois de acabar esta lista”, mas a lista nunca acaba de verdade. Ou instalas cinco apps para acompanhar hábitos e depois sentes-te um falhanço quando falhas um dia. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.

Ser gentil contigo aqui significa baixar a fasquia. Dois minutos a respirar contam. Sentar-te no chão com o teu cão conta. Uma caminhada sem estrutura, sem podcast, sem objetivo, também conta.

Às vezes, a coisa mais corajosa que podes fazer numa cultura obcecada com produtividade é dizer: “Neste momento não estou a fazer nada, e isso é totalmente permitido.”

  • Muda a pergunta
    Em vez de “O que é que eu fiz hoje?”, experimenta “Em que momentos me senti vivo hoje?” Nem que seja um instante minúsculo.

  • Redefine um “bom dia”
    Um bom dia não tem de significar “Limpei a caixa de entrada”. Pode significar “Respeitei a minha energia” ou “Falei comigo com gentileza uma vez”.

  • Repara nas vitórias invisíveis
    Regulaste as emoções num momento difícil, disseste que não a mais uma tarefa, foste para a cama quando estavas cansado. Isto não são falhas de produtividade; são atos silenciosos de autorrespeito.

Deixar que o teu valor seja maior do que o teu desempenho

Se recuares um pouco, talvez comeces a notar como a nossa métrica atual é estranha. Reduzimos vidas inteiras a KPIs: tarefas, passos, prazos, contas pagas, mensagens respondidas. E, no entanto, os momentos de que nos lembramos em noites más raramente têm a ver com produção.

Há a gargalhada que te fez deixar cair o garfo. A caminhada em que choraste e, finalmente, disseste a verdade a um amigo. A tarde em que não fizeste nada de especial, mas te sentiste estranhamente bem. Isto não cabe numa avaliação de desempenho, mas são as partes que fazem uma vida parecer habitada por dentro.

E se o teu valor fosse medido mais pela forma como estás presente do que pela quantidade que produces?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Repara na autoestima baseada no desempenho Apanha pensamentos como “Só posso descansar se fizer o suficiente” Dá nome a uma pressão invisível e começa a afrouxar o seu controlo
Cria momentos não produtivos Pausas curtas e regulares sem objetivo de output nem monitorização Ensina ao sistema nervoso que a segurança não depende de ação constante
Redefine um “bom dia” Inclui sinais emocionais, relacionais e do corpo, não apenas tarefas Constrói um sentido de valor mais amplo e mais gentil para além da produtividade

FAQ:

  • Como sei se a minha autoestima está ligada à produtividade? Podes sentir culpa quando descansas, entrar em pânico quando estás “improdutivo” ou acreditar que só mereces gentileza depois de conquistares algo. Se o teu humor cai a pique em dias de pouco output, esse é outro sinal.
  • Querer ser produtivo é sempre mau? Não. Ser produtivo pode ser satisfatório e dar sensação de capacidade. O problema começa quando toda a tua identidade e valor dependem de desempenho constante, sem espaço para descanso ou imperfeição.
  • O que posso fazer quando a culpa aparece sempre que paro de trabalhar? Começa com pausas muito curtas e dá nome à culpa: “Isto é o meu cérebro do desempenho a falar.” Junta a pausa a uma ação de ancoragem, como sentir os pés no chão ou fazer três respirações lentas.
  • Como posso definir limites num trabalho de alta pressão? Clarifica os teus inegociáveis (sono, saúde, tempo com a família) e comunica-os cedo e com calma. Protege pequenos blocos de tempo “offline” e evita justificar ou pedir desculpa em excesso por eles.
  • Quando devo considerar terapia para isto? Se sentes ansiedade constante por não fazer o suficiente, tens dificuldade em descansar mesmo estando exausto, ou as tuas relações e saúde estão a sofrer, um terapeuta pode ajudar a separar o teu valor dos padrões de desempenho.

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