A manhã começava sempre da mesma forma. Adiar o despertador duas vezes, olhos a arder, aquela sensação de areia debaixo das pálpebras. Pensava: “É só porque estou a dormir pouco, passa ao fim de semana”. Depois chegava o fim de semana. E eu dava por mim no sofá às três da tarde, telemóvel na mão, a fazer scroll por notícias de que nem me lembrava de ter lido.
Café, mais um. Depois outro. Uma espécie de ruído de fundo na cabeça, como uma rádio mal sintonizada. Nenhuma grande quebra, nenhum sinal dramático. Só um cansaço subtil, insistente, colado a mim.
Demorei meses a perceber que não era “apenas cansaço”.
Era um hábito diário, pequeno, aparentemente inofensivo, que ia escavando devagarinho a minha energia.
Quando o cansaço não é só cansaço
Para mim, o alerta chegou no escritório, numa terça-feira qualquer. Estava sentado em frente ao ecrã, documento aberto, o cursor a piscar. Fiquei a olhar para ele quase dez minutos, incapaz de escrever uma frase com sentido. Sentia a cabeça cheia e vazia ao mesmo tempo.
Não estava doente, não tinha febre, nem sequer era uma fase trágica. E, no entanto, parecia que arrastava o corpo como uma mala sem rodas. Cada gesto era um esforço. Cada decisão, mesmo mínima, uma mini-montanha para escalar.
A frase que repetia para mim era sempre a mesma: “Estou só a passar por uma fase intensa”.
Depois reparei num detalhe. Sempre que tinha dois minutos livres, a mão ia sozinha ao bolso. Telemóvel. Feed. Notificações. Reels, stories, vídeos curtos, mensagens. Nem respirava entre um conteúdo e o outro.
Percebi que já não tinha um momento de verdadeira pausa. Nem na casa de banho. Nem na fila da caixa. Nem na paragem do autocarro. Cada micro-segundo de vazio era preenchido por um ecrã luminoso à frente dos olhos.
Aquele gesto automático, repetido dezenas de vezes por dia, estava a consumir uma quantidade enorme de energia mental que eu nem sabia que tinha.
Não estou a falar de demonizar o telemóvel ou as redes sociais. Estou a falar de sobrecarga. O nosso cérebro não foi feito para lidar com milhares de micro-estímulos diários sem nunca desligar. Cada notificação pede uma decisão: abro ou não abro, respondo agora ou depois, ponho gosto ou sigo em frente.
Parece nada, mas a soma destas micro-decisões desgasta. No fim do dia não estamos “só cansados”: estamos saturados. Não é o corpo que fica destruído, é a capacidade de atenção que se foi esfarelando pouco a pouco.
O mais traiçoeiro é que te convences de que é normal.
O hábito invisível que esvazia as baterias
O meu hábito diário era simples: zero espaços vazios. Acordava e a primeira coisa que fazia era olhar para o ecrã. Mensagens, e-mail, meteorologia, notícias. Depois, ao pequeno-almoço, um vídeo curto, depois outro, depois outro. Um fluxo contínuo do nascer ao pôr do sol.
A mente nunca tinha aquele minuto de silêncio para recuperar o fôlego. Nem quando parecia que eu “não estava a fazer nada”. Estava sempre a consumir atenção. Sempre a filtrar informações, imagens, emoções de pessoas que nem conhecia.
O resultado? À noite estava exausto… sem saber exatamente porquê.
Lembro-me de uma sexta-feira à noite particularmente reveladora. Estava de rastos, zero vontade de sair, amigos a insistirem no chat. Abri o Instagram “só um segundo” antes de me despachar. Passaram 45 minutos sem eu dar por isso.
Quando olhei para o relógio, estava atrasado, nervoso, com aquela sensação absurda de já ter “gasto” a noite sem ter feito nada de real. Cheguei ao encontro esvaziado, com a cabeça ainda presa ao que tinha visto online.
Não era preguiça. Era um tipo de fadiga que nasce de demasiadas janelas abertas ao mesmo tempo na cabeça.
Os psicólogos falam de “fadiga de decisão” e “carga cognitiva”. Cada vez que saltamos de um conteúdo para outro, o cérebro tem de se reajustar: mudar de contexto, filtrar, interpretar. É como estar a meter mudanças de três em três segundos no pára-arranca do trânsito na cidade.
A longo prazo, esta mudança constante de foco consome a mesma reserva de energia que usamos para trabalhar, amar, criar. E assim chegamos ao fim do dia sem forças para o que realmente importa.
Digamo-lo sem rodeios: não estamos cansados, estamos sobre-estimulados. E chamamos-lhe “cansaço” só porque não conseguimos dar-lhe outro nome.
Como quebrei o ciclo (e o que também pode servir para ti)
Não fiz detox radicais nem atirei o telemóvel pela janela. Comecei com uma experiência minúscula: proteger três micro-pausas por dia. Três momentos de 5 minutos em que não tocava no ecrã. Nada. Só estar ali.
A primeira vez foi estranhamente difícil. A mão a ir sozinha ao bolso, o cérebro a perguntar “e agora o que faço?”. Aguentei. Olhei pela janela, ouvi os ruídos à minha volta, deixei a mente vaguear. Uma sensação quase embaraçosa, como quando não sabes onde pôr as mãos.
Ao fim de uma semana, esses 15 minutos por dia tornaram-se uma espécie de lufada de ar no meio do trânsito.
Outro passo foi mudar a primeira e a última meia hora do dia. Antes estava tudo ali: despertador no telemóvel, notificações, resposta rápida às mensagens, scroll automático na cama. Agora o despertador continua no telemóvel, sim, mas deixo-o noutra divisão.
Levanto-me, vou desligá-lo, mas não o levo para a mesa. Pequeno-almoço em silêncio ou com uma música. À noite, meia hora antes de dormir, ecrã desligado e fisicamente longe. Ao início sentia-me “desligado”, com medo de perder alguma coisa. Depois descobri que não estava a perder: estava a recuperar.
Parece pouco, mas muda o tom energético do dia inteiro. É como devolver ao cérebro uma faixa horária só dele.
Uma frase de um terapeuta ficou-me na cabeça: “Não perguntes apenas quantas horas dormes. Pergunta quantas horas por dia a tua mente não é bombardeada por estímulos”.
- Pôr o telemóvel noutra divisão enquanto se come
- Criar “zonas sem ecrã” em casa (cama, casa de banho, mesa)
- Desativar notificações não essenciais durante uma semana de teste
- Usar um despertador analógico para não desbloquear logo o ecrã de manhã
- Substituir um scroll por dia por uma caminhada sem auscultadores, nem que seja só de 7–8 minutos
Reconhecer a verdadeira fonte do cansaço
Quando começas a reduzir este ruído de fundo, acontece uma coisa curiosa. O cansaço muda de forma. Não desaparece por magia, mas torna-se mais legível. Começas a distinguir a fadiga física da mental, o aborrecimento do esgotamento, a tristeza da sobrecarga.
E aqui chega a parte delicada: às vezes descobres que a tua energia não se ia só por causa do telemóvel, mas porque te estavas a anestesiar de outra coisa. De um trabalho de que não gostas, de uma relação que cambaleia, de uma solidão que não sabias nomear.
A verdade um pouco incómoda? O “sempre ligados” dá-nos jeito porque tapa os vazios. Aqueles cinco minutos no metro em que podias perguntar-te se és feliz. Aqueles dez minutos na cama, no escuro, em que talvez surgissem perguntas a que não sabes responder.
Tiras o ecrã, e voltam pensamentos que tinhas posto em pausa há meses. É aqui que muitos desistem e voltam diretos ao feed. Eu compreendo, aconteceu comigo. Mas é precisamente nesse pequeno desconforto que começa a regressar um tipo de energia diferente: não só física, mas emocional.
Todos temos aquele amigo que diz “Estou de rastos” todos os dias. Talvez sejas tu, eu era. Nem sempre é culpa de um grande trauma ou de um problema de saúde (que, ainda assim, deve ser sempre excluído com um médico, sem nos armarmos em especialistas). Às vezes é uma série de micro-escolhas automáticas, repetidas hora a hora, durante meses.
Sejamos honestos: ninguém faz mesmo isto todos os dias com consciência. Ninguém verifica de verdade quanto tempo passa a preencher vazios com um ecrã. Só damos conta do problema quando as baterias internas começam a ceder.
E então vale a pena parar um instante e perguntar: “Que parte do meu cansaço vem mesmo de fazer demais… e que parte vem de nunca desligar a sério?”.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Reconhecer o hábito escondido | Monitorizar quando e quantas vezes se pega no telemóvel durante os “tempos mortos” | Ganhar consciência do gesto automático que drena energia |
| Proteger micro-pausas reais | Três momentos de 5 minutos por dia sem ecrã nem estímulos digitais | Reduzir a sobrecarga mental e recuperar clareza |
| Redesenhar o início e o fim do dia | Telemóvel longe da cama, sem scroll ao acordar ou antes de dormir | Melhorar a qualidade do descanso e o tom energético geral |
FAQ:
- Como faço para perceber se o meu cansaço está ligado ao smartphone?
Experimenta, durante três dias, registar cada vez que lhe pegas fora do trabalho ou de verdadeiras urgências. Se perderes a conta, já é um sinal. Se ao reduzires o uso, mesmo que um pouco, te sentires mais lúcido, encontraste pelo menos parte da causa.- Tenho mesmo de fazer um detox total das redes sociais?
Não, não é obrigatório. Podes começar com pequenas regras: nada de telemóvel à mesa, nada de scroll na casa de banho, uma faixa horária à noite sem ecrãs. A ideia não é demonizar, é voltar a ter controlo.- E se o meu trabalho exigir que eu esteja sempre ligado?
Então o jogo passa para os limites. Define janelas precisas de ligação e janelas de desligar protegidas. Mesmo 10 minutos entre reuniões com os olhos longe do ecrã fazem diferença.- O meu cansaço pode ser um problema de saúde?
Sim, pode. Se te sentes esgotado há muito tempo, tens sintomas físicos ou alterações importantes de humor, fala com um médico ou um especialista. O uso do smartphone é só uma peça do puzzle, não um diagnóstico.- Qual é o primeiro passo mais simples para começar amanhã?
Escolhe apenas um: ou pequeno-almoço sem telemóvel, ou nada de ecrã nos últimos 30 minutos antes de dormir. Faz isso durante uma semana. É pequeno, concreto, e permite-te sentir na pele se algo muda mesmo.
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