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Quem se sente desconfortável com a rotina tende a ver a previsibilidade como uma prisão emocional.

Pessoa escreve num caderno ao lado de uma chávena de café fumegante, telemóvel e relógio de areia, com plantas ao fundo.

O metro abre as portas com o mesmo ruído de ontem. As mesmas caras, as mesmas mochilas, as mesmas manchas de café no chão. Sabes exactamente onde ficar, o que fazer, quando falar. As pessoas deslizam o dedo no ecrã, as pessoas acenam, as pessoas movem-se como se ensaiassem esta cena há anos.

Sentes o peito apertar sem razão aparente.

No papel, não há nada de errado. A vida está estável, a agenda cheia, o frigorífico abastecido. Os teus dias correm sobre carris. E, no entanto, uma voz pequenina na tua cabeça sussurra: “É… só isto?”

Não estás aborrecido, não exactamente. Estás contido.

E esse é o verdadeiro problema.

Quando a rotina deixa de parecer segura e começa a parecer uma jaula

Algumas pessoas relaxam quando tudo é previsível. O cérebro abranda, o sistema nervoso agradece.

Outras olham para a mesma sequência de dias e sentem algo mais próximo de um pânico de baixa intensidade. A repetição não as acalma; pressiona-lhes as costelas.

Começam a associar o horário conhecido a uma espécie de confinamento emocional. Não porque odeiem a vida que têm, mas porque o mundo interior delas é mais alto, mais inquieto, mais curioso do que o seu planeador semanal permite.

Por fora, “têm tudo sob controlo”.
Por dentro, sentem-se como se estivessem, em silêncio, a bater no vidro.

Pensa na Maya, 34 anos, gestora de projectos, sem grandes dramas. Bom salário, relação estável, uma lista da Netflix como toda a gente. Os dias dela funcionam como um relógio: ginásio, deslocação, reuniões, almoço no mesmo sítio, pings no Slack, deslocação, jantar, cama.

Ela disse-me: “Sinto-me culpada por dizer isto, porque a minha vida está bem. Mas acordo e o meu primeiro pensamento é: já sei exactamente como o dia vai correr, e isso dá-me vontade de gritar.”

Então começa a sabotar-se em pequenas coisas. Cancela planos em cima da hora. Assume demasiado trabalho e depois desmorona. Arranja discussões por ninharias, só para sentir que algo muda.

O problema dela não é preguiça nem falta de gratidão. É que o sistema nervoso dela está a morrer de fome por surpresa.

Há uma razão para isto acontecer. Alguns cérebros estão programados para procurar novidade da mesma forma que outros procuram estabilidade.

Quando todos os dias parecem iguais, estas pessoas deixam de se sentir vivas e começam a sentir-se presas, mesmo quando nada de dramático está errado. O sistema nervoso lê a previsibilidade interminável como uma espécie de asfixia emocional lenta.

Não é um problema de atitude, nem uma falha de maturidade. É um desajuste entre o nível de estimulação de que o cérebro precisa e o nível de rotina que a vida exige.

Quando não se dá nome a esse desajuste, ele transforma-se em vergonha.
Quando se nomeia com clareza, torna-se algo com que se pode trabalhar.

Como manter a rotina sem se sentir emocionalmente confinado

Uma mudança simples ajuda muito: manter o esqueleto da rotina, mudar-lhe a pele.

Isto significa que não rebentas com a tua vida. Ajustas as texturas do dia. A mesma deslocação, mas um caminho diferente até à estação. A mesma pausa de almoço, mas sentas-te lá fora em vez de à secretária. A mesma hora de treino, mas uma playlist nova, uma sequência nova, um sítio diferente uma vez por semana.

Podes até agendar “janelas de caos”: 30–60 minutos marcados no calendário em que tens permissão para estar totalmente sem guião. Sem objectivo, sem produtividade - apenas seguir o pequeno impulso que aparecer.

A estrutura mantém-se.
A sensação de sufoco, não.

A armadilha em que muita gente cai é o tudo ou nada. Ou se obrigam a uma rotina rígida que, lentamente, os esmaga; ou explodem com ela e acabam perdidos, culpados e assoberbados.

Dizem a si próprios: “Se eu fosse mais disciplinado, limitava-me a cumprir o plano e parava de me queixar.” E depois perguntam-se porque é que estão cronicamente inquietos, a fazer scroll até tarde, a fantasiar em largar tudo.

A verdade é que as rotinas são ferramentas, não testes morais. Tens permissão para as ajustar ao teu sistema nervoso. Tens permissão para precisar de mais cor, mais aleatoriedade, mais espaços para respirar do que as pessoas à tua volta.

Sejamos honestos: ninguém faz isto exactamente igual todos os dias.
A maioria de nós improvisa em silêncio e finge que não.

Às vezes, a coisa mais corajosa que podes fazer é admitir: “A minha vida parece bem, mas a forma como a estou a viver não me parece minha.”

  • Micro-trocas em espaços familiares
    Muda o café onde trabalhas uma vez por semana, mexe um pouco nos móveis, troca o teu podcast por silêncio ou por música durante a deslocação.

  • “Primeiras vezes” rotativas
    Uma vez por semana, faz algo que nunca fizeste, mesmo que seja pequeno: uma receita nova, um parque novo, um caminho diferente para casa.

  • Rituais suaves, regras soltas
    Mantém rituais que te ancoram, mas segura-os com leveza. Não estás a falhar se a tua rotina da manhã for diferente na quinta-feira do que foi na segunda.

Viver entre segurança e liberdade sem escolher lados

Há um alívio silencioso em perceber que não estás “avariado” por odiar a monotonia. Podes simplesmente ter um temperamento que pende para a exploração.

Podes respeitar essa parte de ti sem deitar abaixo as partes da tua vida que te dão segurança. O truque é deixar de tratar a rotina como uma prisão ou como uma religião. Não é nenhuma das duas.

Quando te dás permissão para manter os carris mas mudar a paisagem, algo se desbloqueia. Os teus dias deixam de parecer uma repetição e voltam a parecer uma sequência de pequenos momentos reais.

Algumas pessoas encontram paz na repetição.
Algumas pessoas encontram paz no movimento.

A maioria de nós precisa de um pouco de ambas - e a mistura muda com o tempo.

A pergunta não é “Porque é que não consigo gostar de rotina como toda a gente?”
A melhor pergunta talvez seja: “Que tipo de previsibilidade ainda deixa espaço para eu me sentir plenamente vivo?”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
As rotinas não são neutras Algumas pessoas vivem a previsibilidade como confinamento emocional Normaliza o desconforto com a repetição e reduz a vergonha
Ajusta, não expludas Mantém a estrutura mas introduz novidade com micro-mudanças e “janelas de caos” Oferece uma forma realista de te sentires mais livre sem desestabilizar a vida
Alinha a vida com a tua programação Vê a tua necessidade de mudança como temperamento, não como defeito Ajuda a desenhar dias que encaixam no teu sistema nervoso e nos teus valores

FAQ:

  • Porque é que me sinto ansioso quando todos os dias parecem iguais?
    Podes ter uma necessidade maior de novidade e estimulação do que as pessoas à tua volta. Quando a vida é demasiado previsível, o teu cérebro lê isso como falta de sentido ou de possibilidade, o que pode surgir como ansiedade ou inquietação.

  • Odeiar rotina significa que sou irresponsável?
    Não. Normalmente significa que ainda não encontraste um estilo de estrutura que encaixe no teu temperamento. Podes ser fiável e, ainda assim, precisar de variedade na forma e no local onde fazes as coisas.

  • Como posso trazer novidade para um horário exigente das 9 às 5?
    Usa pequenas alavancas: muda percursos, locais, sítios para almoçar, música e micro-rituais. Protege pelo menos uma pequena janela por dia em que nada está planeado e segues a tua curiosidade.

  • E se o meu parceiro adora rotina e eu não?
    Fala de “necessidades de energia” em vez de certo e errado. Acordem âncoras partilhadas (horas das refeições, orçamento, planos essenciais) e dêem a cada pessoa liberdade a sós nos espaços à volta dessas âncoras.

  • Quando devo procurar um profissional por causa desta sensação?
    Se o sentimento de confinamento se transformar em medo constante, dormência, ou auto-sabotagem que prejudica o teu trabalho ou as tuas relações, um terapeuta pode ajudar-te a destrinçar temperamento, stress e quaisquer questões mais profundas por trás da tua reacção à rotina.

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