A notificação da mensagem era minúscula, mas o coração da Mia mesmo assim deu um salto. Uma SMS da colega de casa: “Olá, podemos falar sobre a loiça?” A Mia ficou a olhar para o ecrã, com o calor a subir-lhe ao rosto. Não a tinha lavado há dois dias. O primeiro instinto não foi responder. Foi largar o telemóvel, ir para a cozinha e começar a esfregar pratos como se nada tivesse acontecido. Se conseguisse resolver aquilo em silêncio, talvez a conversa desaparecesse por magia.
Escreveu “sim, claro” e apagou. Depois “na boa!” e apagou isso também.
Por fim, respondeu com um emoji de polegar para cima.
Sem palavras, sem conflito, sem confronto direto. Só segurança emocional. Por agora.
Porque é que evitar o confronto pode parecer sobrevivência, e não fraqueza
Algumas pessoas não são apenas “más a lidar com conflitos”. Todo o seu sistema nervoso lê o confronto como perigo. Uma voz mais alta, um suspiro de desapontamento, ou um simples “temos de falar” acende os mesmos alarmes internos que uma ameaça física. Então fazem o que os humanos fazem melhor quando não se sentem seguros: protegem-se.
Mudam de assunto, fazem uma piada, pedem desculpa antes de alguém ter dito alguma coisa. Por fora, parecem descontraídas, “na paz”. Por dentro, estão a analisar cada reação, cada microexpressão, a tentar não piorar as coisas. A segurança emocional vem primeiro. A resolução propriamente dita pode esperar.
Pensa no Sam, que teme reuniões de feedback no trabalho. Antes de cada uma, reescreve as notas três vezes, pratica soar “agradável” e ensaia frases como “na boa, está tudo bem” em frente ao espelho. Quando o chefe levanta um problema real, o Sam acena, sorri e diz que percebe perfeitamente.
Sai da sala depois de concordar com mudanças em que não acredita e prazos que não consegue cumprir. No papel, a reunião correu bem. Ninguém levantou a voz. Não houve tensão. E, no entanto, os problemas reais ficam por tocar, a apodrecer em silêncio debaixo da superfície. O preço dessa calma? As necessidades do Sam, engolidas outra vez.
Os psicólogos associam muitas vezes a evitação do confronto a experiências precoces em que expressar necessidades resultou em punição, ridicularização ou retirada de afeto. O cérebro aprende uma regra simples: conflito é igual a perda de amor, segurança ou pertença. Por isso, em adultos, estas pessoas não priorizam “resolver” o problema em primeiro lugar.
Priorizam manter-se emocionalmente intactas. Isso pode significar concordar quando discordam, ficar caladas quando estão magoadas, ou pedir desculpa em excesso só para acabar com o desconforto. O desfecho da discussão importa menos do que a sensação de não serem atacadas, abandonadas ou envergonhadas. A resolução é um luxo. A segurança parece inegociável.
Como passar da evitação pura para conversas mais seguras e honestas
Uma pequena mudança concreta é deixar de apontar para “ganhar” ou “manter a calma” no conflito e apontar para “manter-se presente”. Isso significa que não precisas de estar perfeitamente composto(a) nem perfeitamente articulado(a). Só precisas de ficar na sala, na conversa, tempo suficiente para dizer uma coisa honesta.
Escolhe uma frase simples que possas usar como ponte: “Sinto-me desconfortável, mas quero falar sobre isto.” Ou: “Preciso de um segundo para encontrar as palavras.” Estas frases protegem a segurança emocional sem fechar a porta. É como segurar no puxador em vez de a bater com força.
Uma armadilha comum é tentar preparar cada detalhe da conversa na cabeça até parecer “seguro o suficiente” começar. Quando encontras as palavras perfeitas, o momento já passou ou o ressentimento duplicou. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Não precisas de um guião perfeito. Precisas de um momento pequeno e real de coragem. Pode ser enviar uma mensagem a dizer: “Podemos falar sobre o que aconteceu há bocado?” ou dizer a um amigo: “Senti-me magoado(a) quando fizeram aquela piada.” É confuso, estranho e muito humano. Mas abre uma porta diferente do silêncio.
Alguns terapeutas chamam a isto “titrar o conflito”: não mergulhar logo na discussão mais profunda, mas ir esticando lentamente a tolerância emocional com trocas mais pequenas e honestas que consegues realmente aguentar.
- Começa por situações de baixo risco, como um café pedido errado ou um pequeno choque de horários.
- Usa uma palavra de sentimento e um facto: “Senti-me ignorado(a) quando a minha mensagem não teve resposta.”
- Faz uma pausa quando o corpo fica tenso e nomeia-o: “Estou a ficar ansioso(a) a falar sobre isto.”
- Lembra-te de que discordar não significa automaticamente rejeição.
- Depois da conversa, repara: sobreviveste? E o que ficou mais seguro do que esperavas?
Viver entre manter a paz e trair-se a si próprio(a)
Há um tipo estranho de orgulho em ser “o/a calmo/a” que nunca cria drama. És o/a amigo/a a quem toda a gente desabafa, o/a parceiro/a que “nunca se zanga”, o/a colega que absorve tarefas extra sem reclamar. Tornas-te o amortecedor emocional de todos os grupos.
Mas, a certa altura, esse amortecedor começa a rachar. As frustrações engolidas escapam de lado sob a forma de sarcasmo, afastamento repentino ou burnout. A segurança emocional sem verdade, lentamente, deixa de parecer segura.
Para quem evita o confronto, o verdadeiro trabalho não é transformar-se em alguém que adora conflito. A maioria não adora, e está tudo bem. O trabalho é aprender a tratar os próprios sentimentos como dignos de segurança também. Isso significa deixar algum desconforto existir na sala, confiar que as relações conseguem aguentar uma voz a tremer, uma lágrima ou um “eu discordo”.
Podes continuar a escolher a paz às vezes. Podes continuar a afastar-te de discussões que não levam a lado nenhum. Mas quando reparas que escolhes o silêncio todas as vezes, isso não é apenas manter a paz. É apagar-te. E tu mereces melhor do que desaparecer para manter toda a gente confortável.
Imagina se segurança emocional e resolução não fossem opostos. Imagina conversas em que ambas as pessoas se sentem protegidas o suficiente para serem honestas e honestas o suficiente para crescer. Isso não vem de nunca discutir. Vem de sobreviver a pequenos confrontos imperfeitos e perceber que eles não acabam com o amor, a amizade ou o respeito.
Pode ser que o teu coração ainda dispare da próxima vez que alguém disser: “Temos de falar.” Pode ser que ainda queiras mudar de assunto ou pedir desculpa depressa demais. Ainda assim, algures por baixo desse velho reflexo, uma nova crença pode criar raízes: “Eu consigo ficar. Eu consigo falar. Eu consigo estar seguro(a) e ser real ao mesmo tempo.”
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A segurança emocional em primeiro lugar | Muitas pessoas que evitam conflitos protegem-se de um perigo emocional percecionado antes de se preocuparem em resolver o assunto. | Ajuda os leitores a compreender que as suas reações vêm da autoproteção, não de fraqueza. |
| Pequenos passos para o desconforto | Usar frases-ponte simples e conversas de baixo risco aumenta a tolerância ao conflito honesto. | Dá um caminho prático de mudança que não parece avassalador. |
| Segurança e verdade em conjunto | A verdadeira segurança relacional vem de ser simultaneamente gentil e honesto, não de evitar qualquer confronto. | Incentiva os leitores a procurar relações onde não tenham de desaparecer para manter a paz. |
FAQ:
- Porque é que entro em pânico quando alguém diz “temos de falar”? O teu cérebro provavelmente associa essa frase a experiências passadas de crítica, rejeição ou más notícias repentinas. O corpo reage então como se estivesses em perigo, mesmo que a situação atual seja leve. Reparar nos sinais físicos (peito apertado, coração acelerado) pode ajudar-te a abrandar em vez de entrares automaticamente em bloqueio.
- Evitar o confronto é sempre uma coisa má? Não necessariamente. Às vezes evitar uma discussão é uma escolha sensata, sobretudo quando a outra pessoa é insegura ou não está a agir de boa-fé. Torna-se um problema quando te calas de forma consistente em relações saudáveis e ficas ressentido(a), invisível ou exausto(a) por isso.
- Como posso abordar um tema difícil sem começar uma discussão? Foca-te na tua experiência, não nos defeitos da outra pessoa. Usa frases como “Eu senti…” e “Eu preciso…” em vez de “Tu fazes sempre…” ou “Tu nunca…”. Escolhe um momento mais calmo, fala em frases mais curtas e faz pausas para respirar em vez de atravessares o desconforto a correr.
- E se a outra pessoa ficar zangada mesmo quando eu estou calmo(a)? A zanga dela não significa que tenhas feito algo errado. Podes dizer: “Vejo que estás chateado(a), e eu continuo a precisar de falar sobre isto.” Se a reação parecer agressiva ou insegura, a tua prioridade passa a ser proteger-te e possivelmente definir limites mais firmes, não forçar uma resolução no momento.
- A terapia pode mesmo ajudar com a ansiedade perante o confronto? Sim, muitos terapeutas trabalham especificamente com evitação de conflito, necessidade de agradar e medos de comunicação. Podem ajudar a perceber onde o medo começou e a praticar novas respostas num ambiente seguro, para que as conversas na vida real se pareçam menos com entrar numa tempestade e mais com um clima que consegues realmente gerir.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário