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Psiquiatria: “Não percebia porque ninguém me internava.”

Dois homens conversam na sala, um com bata médica, oferecendo um copo de água ao outro. Mesa com tablet e caixas.

Algumas pessoas esperam até a mente estar a arder antes de alguém reparar.

Um novo tipo de psiquiatria tenta tocar a campainha mais cedo.

Em toda a Europa e nos EUA, os serviços de saúde mental estão a passar das enfermarias hospitalares para as casas das pessoas. A mudança soa técnica, quase burocrática. Para os doentes, pode ser a linha ténue entre perder tudo e reconstruir a vida em silêncio.

Quando a crise parece uma cena de crime

A frase “Não conseguia perceber porque é que ninguém me internava” vem de um doente que passou semanas a viver com pensamentos aterradores antes de alguém intervir. Ele esperava grades, portas trancadas, castigo. Em vez disso, um psiquiatra sentou-se na cozinha dele, fez chá e perguntou quando tinha dormido pela última vez.

Este tipo de encontro costumava ser raro. Tradicionalmente, em países como a Alemanha, o Reino Unido ou os EUA, psiquiatria significava enfermarias, corredores brancos e horários de visita rígidos. As pessoas só lá chegavam quando um familiar chamava os serviços de emergência ou quando a polícia levava alguém da rua.

No bairro berlinense de Neukölln, uma zona densa e muitas vezes pobre, conhecida por tensão social e situações habitacionais frágeis, uma equipa hospitalar decidiu inverter o guião. Em vez de esperar que os doentes aparecessem na clínica, começaram a visitá-los em casa. Foram dos primeiros na Alemanha a organizar um “tratamento ao domicílio” sistemático para pessoas com doença mental grave.

Em vez de trancar as pessoas quando tudo colapsa, as equipas tentam agora entrar nas suas vidas antes de o colapso se tornar inevitável.

Porque é que a clínica muitas vezes chega demasiado tarde

Muitas pessoas que precisam de apoio psiquiátrico nunca põem os pés num hospital. Vergonha, medo do estigma e a crença de que “ainda não estou doente o suficiente” afastam-nas. Algumas receiam perder o emprego, a casa arrendada ou a guarda dos filhos se alguém as vir rotuladas como doentes psiquiátricas.

Outras simplesmente não conseguem organizar a deslocação: a ansiedade paralisa-as; a psicose convence-as de que o hospital é perigoso; a depressão apaga-lhes a energia para se vestirem, quanto mais para atravessarem a cidade.

Assim, esperam. Os amigos começam a manter distância. Os pagamentos da renda atrasam-se. A realidade torna-se difusa. Quando a ajuda finalmente chega, muitas vezes vem sob a forma de uma ambulância ou de um carro da polícia. Nessa altura, a doença não só tomou conta dos pensamentos; começou também a desmontar a estrutura da vida.

Quando muitas pessoas chegam a uma enfermaria psiquiátrica, já perderam um emprego, uma relação ou uma casa. O tratamento começa então num cenário de ruínas.

A ideia por trás da psiquiatria ao domicílio

As equipas de tratamento ao domicílio procuram interromper este ciclo mais cedo. Em vez de esperar que os doentes entrem num sistema hospitalar rígido, é o sistema que se dobra para fora.

Uma equipa típica de tratamento ao domicílio pode incluir:

  • um psiquiatra responsável pelo diagnóstico e pela medicação
  • enfermeiros de saúde mental que visitam várias vezes por semana
  • psicólogos para terapia e conversas em crise
  • assistentes sociais que tratam de apoios, habitação e burocracia
  • técnicos “pares” (peer workers) que passaram eles próprios por doença mental

Visitam as pessoas onde a vida acontece de facto: em pequenos apartamentos, quartos partilhados, abrigos ou em casa de familiares. Veem a loiça por lavar, o correio por abrir, o vizinho que se queixa do barulho. Esses detalhes moldam o tratamento tanto quanto os resultados laboratoriais.

A experiência de Neukölln e porque importa

Em Neukölln, os médicos repararam que muitos doentes “reincidentes” vinham das mesmas ruas e blocos de habitação. Alguns desapareciam depois da alta e voltavam meses mais tarde em pior estado. A enfermaria funcionava como uma porta giratória.

Assim, o hospital testou uma abordagem diferente: certos doentes com psicose grave, perturbação bipolar ou depressão profunda recebiam a proposta de cuidados intensivos ao domicílio em vez de internamento imediato. Um plano de crise era acordado à partida. Depois, a equipa visitava diariamente ou várias vezes por semana, ajustava a medicação no local e envolvia as famílias desde cedo.

Modelos semelhantes estão agora a ser pilotados ou ampliados em vários países. Os detalhes variam, mas a ideia central mantém-se: tratar o internamento hospitalar como uma ferramenta entre muitas, não como o primeiro passo automático.

Cuidados tradicionais com internamento Cuidados psiquiátricos ao domicílio
O doente desloca-se ao hospital, muitas vezes em crise aguda A equipa desloca-se ao doente e pode intervir mais cedo
Cuidados limitados ao ambiente da enfermaria Cuidados integrados no contexto da vida real
Estadia curta e intensiva, seguida de alta abrupta Visitas continuadas, redução gradual quando há estabilidade
Maior risco de rutura social (emprego, habitação) Foco em manter rotinas e papéis do dia a dia intactos

“Porque é que ninguém me interna?” – uma mudança de expectativas

Para alguns doentes, a ausência de uma porta trancada é estranha ao início. A imagem clássica da psiquiatria é institucional, quase carcerária. Quando alguém em psicose profunda se vê subitamente tratado na sua própria sala, pode desconfiar, até sentir desapontamento.

O homem que perguntou porque é que ninguém o internava descreveu uma mente cheia de imagens aceleradas e violentas. Esperava castigo. Essa expectativa diz muito sobre a forma como as sociedades enquadraram a doença mental durante décadas: como algo perigoso que tem de ser confinado. Quando os profissionais respondem com apoio e visitas estruturadas, isso desafia silenciosamente essa narrativa.

A pergunta “Porque é que não estou internado?” muitas vezes esconde outra: “Acreditam mesmo que ainda há um caminho de volta para mim?”

As equipas de tratamento ao domicílio tentam responder a essa segunda pergunta através de rotinas. Combinam horas exatas de visita. Negociam quem guarda a medicação em casa. Planeiam o que acontece se os pensamentos suicidas voltarem a subir durante a noite. A estrutura substitui as grades.

Benefícios e limites duros dos cuidados em casa

A investigação em psiquiatria comunitária ao longo das últimas décadas aponta para vários ganhos desta abordagem, sobretudo para pessoas com crises frequentes.

O que muitas vezes melhora com o tratamento ao domicílio

  • As crises podem ser identificadas mais cedo, reduzindo a necessidade de internamentos coercivos.
  • As taxas de recaída tendem a descer quando a medicação e as rotinas se ajustam melhor à vida diária.
  • Famílias e parceiros sentem-se menos sozinhos, porque os profissionais veem a pressão em casa.
  • As pessoas mantêm os seus papéis sociais durante mais tempo - como inquilinos, colegas, pais/mães ou estudantes.
  • As decisões terapêuticas têm em conta cultura, língua e dinâmicas do bairro.

Ao mesmo tempo, este modelo não é uma solução para tudo. Algumas situações continuam a exigir uma enfermaria protegida: quando alguém não consegue parar de agir com base em impulsos violentos, quando é necessária estabilização física rápida ou quando uma pessoa não consegue permanecer em segurança na habitação atual.

Os profissionais também enfrentam novos riscos. Entrar em casas alheias significa entrar em situações imprevisíveis, desde familiares agressivos a espaços exíguos onde a privacidade é quase impossível. As equipas precisam de protocolos de segurança robustos e boa formação em desescalada.

Dinheiro, pessoal e vontade política

Porque é que este tipo de cuidados ainda parece experimental, quando os especialistas o discutem há anos? Uma resposta é simples: dinheiro e recursos humanos. As equipas de tratamento ao domicílio consomem tempo. Um enfermeiro consegue ver muito mais doentes numa enfermaria do que na estrada, a atravessar uma cidade entre visitas.

Sistemas de saúde que recompensam volume de sessões “dentro de portas” em vez da estabilidade a longo prazo dos doentes têm dificuldade em adaptar-se. Mudar isso exige novos contratos, novos códigos de faturação e uma dose de coragem política. Algumas regiões já ajustaram, ligando o financiamento à redução de dias de internamento e a melhores resultados a longo prazo, em vez de o ligarem a camas ocupadas.

A escassez de profissionais na saúde mental acrescenta outra camada. Muitos serviços relatam falta de psiquiatras, enfermeiros de saúde mental e terapeutas. Enviá-los em pequenas equipas móveis soa ideal, mas exige planeamento cuidadoso e remuneração adequada.

O que isto significa para doentes e famílias, agora

Para quem tenta ajudar um amigo ou familiar em crise, a viragem para a psiquiatria ao domicílio pode abrir novas opções. Em muitas cidades, os serviços de crise já oferecem visitas móveis ou avaliações conjuntas em casa, por vezes fora do horário normal. Os médicos de família muitas vezes funcionam como porta de entrada para essas equipas.

Famílias que temem que chamar uma ambulância conduza diretamente a portas trancadas podem perguntar especificamente por programas comunitários ou de tratamento ao domicílio. Podem pedir um plano de crise que indique em que condições se devem tentar primeiro visitas em casa e quando o internamento se torna inevitável.

Planos de crise claros, por escrito, enquanto todos estão relativamente estáveis, reduzem o pânico quando os sintomas voltam a agravar-se.

Olhando em frente: da contenção à continuidade

O debate em torno da psiquiatria girou durante muito tempo em torno da contenção: quem é internado, por quanto tempo, sob que condições legais. As equipas ao domicílio deslocam o foco para a continuidade. Em vez de perguntarem apenas como gerir os dias mais perigosos, perguntam como manter uma pessoa enraizada na sua comunidade ao longo de meses e anos.

Isso exige mais do que medicação. Toca política de habitação, aconselhamento de dívidas, integração no trabalho e acesso linguístico, sobretudo em bairros diversos como Neukölln. Uma boa equipa de tratamento ao domicílio funciona muitas vezes como uma central sofisticada, ligando os doentes a serviços de apoios, senhorios, escolas e empregadores.

Para pessoas que já passaram várias vezes por enfermarias psiquiátricas, a parte mais útil deste novo modelo pode ser surpreendentemente mundana: alguém que bate à porta à hora combinada, que repara quando as cortinas ficam fechadas durante três dias, que ouve não apenas o que o doente diz, mas como soa o apartamento.

Qualquer pessoa a viver com uma doença mental grave pode fazer um exercício simples: imaginar uma futura crise e escrever que tipo de apoio seria suportável. Quem não deve estar presente? Quem deve falar primeiro? Que objetos, animais de estimação ou rotinas têm de se manter para que se sinta segurança suficiente para aceitar ajuda em casa? Partilhar este plano com um médico ou terapeuta torna-o mais do que um exercício mental; pode orientar os serviços quando cada minuto parece caótico.

O homem que antes perguntava porque é que ninguém o internava agora formula-o de outra forma. Segundo os seus clínicos, a pergunta transformou-se em algo muito mais prático: “Quando é que passam cá para a semana, e podemos falar sobre voltar ao trabalho?” Essa mudança de linguagem - do castigo para o planeamento - capta o que a psiquiatria ao domicílio está, silenciosamente, a tentar construir.

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