Saltar para o conteúdo

Psicólogos sugerem que pessoas muito sensíveis desenvolveram perceção apurada como forma de proteção emocional.

Jovem a ler caderno numa mesa com chávena, auriculares e arranjo de lavanda. Luz suave entra pela janela.

A mulher à minha frente no café continuava a olhar de relance para a porta sempre que ela se abria. A colher mal tocava no café. Ela estava a ouvir a amiga, mas via-se: um pequeno sobressalto a cada gargalhada mais alta, a cada chávena que caía, a cada ping de notificação vindo da mesa ao lado. Quando o barista deixou cair um jarro metálico de leite, o corpo dela inteiro ficou tenso, como se um alarme de incêndio tivesse disparado dentro do peito.

A amiga? Completamente indiferente.

Todos já passámos por isso - aquele momento em que pensamos: “Porque é que isto me atinge com tanta força quando toda a gente parece estar bem?”

Os psicólogos começam a dizer que isto pode não ser um defeito.

Pode ser a tua linha de defesa mais antiga.

Porque é que algumas pessoas sentem “demais” - e o que realmente se passa por baixo

Senta-te em qualquer sala tempo suficiente e acabas por os identificar. Aqueles que apanham a tensão antes da discussão, que pressentem quando alguém está a fingir que está “bem”, que notam a mínima mudança na tua voz e hesitam antes mesmo de encontrares as palavras.

São pessoas a quem disseram que são “sensíveis demais”, “dramáticas”, “a ver coisas onde elas não existem”. São as que saem de uma reunião normal de trabalho completamente drenadas, ou que revivem um comentário casual durante dias.

Os psicólogos estão a ver um padrão: muitos destes “sensitivos” cresceram a aprender a varrer a sala como quem prevê o tempo. Não por passatempo. Por sobrevivência.

Vejamos o caso do Mark, 34 anos, que brinca dizendo que conseguia prever o humor do pai pelo som da chave na fechadura. Se fosse rápido e seco, sabia que tinha de desaparecer para o quarto. Se fosse lento e pesado, havia hipótese de uma noite tranquila. Em criança, aprendeu a ler microexpressões, sobrancelhas levantadas, a forma como um prato era pousado em cima da mesa.

Agora é o colega que percebe que algo não está bem na equipa antes de qualquer métrica mudar. Consegue “sentir” quando a chefe está stressada mesmo quando ela sorri. No papel, isso parece inteligência emocional. Por dentro, pode parecer um alarme que nunca se desliga por completo.

Ele diz ao terapeuta: “Eu sinto demais. Gostava de me importar menos.” O terapeuta responde: “Isto não é tu estares avariado. Isto é tu teres sido treinado.”

Do ponto de vista psicológico, esta perceção intensificada começa muitas vezes como uma forma de proteção emocional. Em ambientes imprevisíveis ou emocionalmente intensos, o cérebro de uma criança aprende depressa: quanto melhor eu conseguir perceber o que vem aí, mais seguro posso estar.

Então afia as ferramentas. Repara no tom, na linguagem corporal, em pequenas mudanças na energia das pessoas, em alterações na rotina. O sistema nervoso aprende a ficar ligeiramente em alerta, a sobreinterpretar sinais - só por precaução.

Anos mais tarde, essa mesma sensibilidade aparece nas relações, no trabalho, em espaços cheios. O ambiente mudou, mas o velho sistema de proteção continua a funcionar. O que antes te mantinha emocionalmente seguro, agora por vezes faz-te sentir que a vida é demasiado alta, demasiado brilhante, demasiado.

Transformar a hiperperceção emocional de peso em poder silencioso

Um hábito simples e concreto que muitos psicólogos recomendam parece quase básico demais: dá nome ao que percebes e depois dá nome ao que sentes. Em voz alta, se conseguires, ou num caderno, se preferires.

Por exemplo: “Reparo que a voz do meu parceiro ficou um pouco mais fria.” Pausa. “Sinto-me ansioso e um pouco assustado.” Ao separares o sinal externo da onda interna, vais reeducando lentamente o teu cérebro. Lembras o teu sistema: “Isto é informação, não é uma emergência.”

Algumas pessoas usam uma regra de três passos: reparar, rotular, perguntar. Repara na mudança. Rotula a emoção. Faz uma pergunta gentil, se for preciso: “Olha, pareces cansado, está tudo bem?” É um gesto pequeno, mas com o tempo dá um volante à tua sensibilidade.

Uma armadilha comum para quem sente “demais” é tentar corrigir tudo aquilo que capta. Sentes tensão e imediatamente tentas alisar. Sentes a tristeza de alguém e ofereces logo soluções. Apanhas um tom ligeiramente crítico e passas a noite a justificar-te em excesso.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem acabar em esgotamento.

Os psicólogos sugerem aprender a diferença entre reparar e absorver. Podes reparar que um amigo está em baixo sem fazer disso o teu trabalho regular as emoções dele. Podes reparar que o teu chefe está stressado sem concluir que estás a falhar. Esse intervalo - aquele em que te dás permissão para não carregares tudo - é onde o teu sistema nervoso volta a respirar.

Alguns terapeutas descrevem assim: “A tua sensibilidade é um radar. Diz-te o que está à tua volta, mas tu continuas a escolher para onde voas.”

Para viver com esse radar sem seres esmagado, muitas pessoas sensíveis criam pequenas âncoras inegociáveis no dia. Não são grandes projetos de bem-estar. São hábitos simples que dizem ao teu corpo: “Agora podes abrandar.”

Alguns exemplos que costumam ajudar:

  • Sair lá fora sozinho durante três minutos depois de uma conversa pesada
  • Ter uma pessoa a quem mandas mensagem só para dizer “isto foi demais”, sem precisares de conselhos
  • Ter auscultadores à mão para espaços barulhentos que parecem excessivos
  • Marcar “tempo em branco” depois de eventos sociais em vez de preencher todas as horas
  • Permitir-te chorar sem precisares de uma razão lógica todas as vezes

Estes pequenos rituais, quase invisíveis, podem transformar a perceção intensificada de uma vigilância constante numa forma mais silenciosa e assente de atravessar o mundo.

Quando sentir “demais” se torna uma forma diferente de saber

Algumas pessoas descobrem, devagar, que aquilo que viam como “reagir em excesso” é, na verdade, um estilo diferente de inteligência. São as que pressentem uma separação muito antes da conversa oficial. As que sentem que um projeto está a descarrilar antes de os dados o confirmarem. As que sabem que um amigo está a mentir a si próprio, mas esperam pelo momento certo para dizer, com cuidado: “Tens a certeza?”

Isto não significa que toda a intuição esteja certa. Significa que o teu sistema está afinado para pistas subtis que a maioria das pessoas nem nota. Os psicólogos chamam-lhe interocepção aumentada e sensibilidade social. Tu podes chamar-lhe “é assim que eu sou”.

O que muda tudo é quando as pessoas deixam de perguntar: “Porque é que eu sou assim?” e começam a perguntar: “Como é que posso viver com isto de um modo que não doa?”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A sensibilidade emocional começou muitas vezes como proteção A infância ou ambientes passados treinaram-te a varrer sinais de perigo e mudanças de humor Reformula o “demais” como uma competência de sobrevivência aprendida, não como falha pessoal
O teu radar é informação, não uma ordem Reparar na tensão não significa que tens de a resolver ou carregar Reduz esgotamento e necessidade de agradar, protege energia emocional
Pequenas âncoras diárias acalmam o sistema nervoso Micro-rituais como parar, nomear emoções ou afastar-te por instantes Torna a sensibilidade mais gerível e transforma-a numa força utilizável

FAQ:

  • Sentir “demais” é o mesmo que ser altamente sensível? Nem sempre, mas há sobreposição. Algumas pessoas cumprem critérios de alta sensibilidade ou sensibilidade de processamento sensorial; outras simplesmente desenvolveram um radar emocional forte através das experiências de vida. Um terapeuta pode ajudar a perceber o que melhor se aplica a ti.
  • Isto significa que a minha família ou o meu passado “causaram” a minha sensibilidade? Não exatamente. Normalmente há uma mistura de temperamento e ambiente. Podes ter sido naturalmente mais percetivo, e certas situações afiaram essa característica até virar uma ferramenta de proteção. É menos sobre culpa e mais sobre compreender a história de origem.
  • Alguma vez vou conseguir parar de pensar demais sobre tudo o que sinto? Não dá para desligar a sensibilidade como se fosse um interruptor, mas podes suavizar o excesso de análise que fica por cima dela. Práticas como rotular emoções, exercícios de grounding e terapia podem ensinar o teu cérebro que nem todos os sinais precisam de uma investigação completa.
  • Como explico isto a pessoas que acham que eu sou “demais”? Podes dizer algo simples: “Tenho tendência para captar as coisas rapidamente e senti-las com intensidade. Estou a aprender a viver com isso sem ficar sobrecarregado, mas significa que às vezes posso reagir de forma mais forte.” Não deves a ninguém um ensaio científico sobre o teu sistema nervoso.
  • Quando devo considerar procurar ajuda profissional? Se as tuas emoções interferem regularmente com o sono, o trabalho, as relações ou a tua sensação de segurança, vale a pena falar com um psicólogo ou terapeuta. A sensibilidade em si não é uma perturbação, mas pode coexistir com ansiedade, trauma ou depressão - e isso merece apoio real, não autoculpa.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário