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Psicólogos explicam porque algumas pessoas falam sozinhas nos corredores do supermercado e como isso ajuda a serem mais precisas.

Mulher no supermercado com carrinho, lista e telemóvel, usando auriculares, rodeada por prateleiras de produtos alimentares.

Estás a meio do corredor da massa, a olhar para três frascos quase idênticos de molho de tomate, quando ouves. Uma voz baixa ao teu lado: “Não, não esse, esse deixou o Jamie inchado… ok, tomate picado, depois manjericão… o que mais é que eu precisava?” Olhas para cima, à espera de um auricular Bluetooth. Nada. Só uma mulher com ar cansado, a falar consigo própria e com o seu carrinho. A poucos metros, um homem resmunga: “Leite, ovos, espinafres… concentra-te, Dave.” É como se o supermercado tivesse virado uma estação de rádio de baixo orçamento, feita de monólogos sussurrados.

Talvez já tenhas revirado os olhos a pessoas assim. Talvez sejas uma dessas pessoas. De uma forma ou de outra, os psicólogos dizem que estes pequenos solilóquios de compras fazem mais do que preencher o silêncio entre os iogurtes e os produtos de limpeza. Estão, discretamente, a afiar o nosso cérebro - e a tornar as nossas compras surpreendentemente mais certeiras do que pensamos.

A vida secreta dos monólogos no supermercado

Passeia por qualquer grande supermercado num domingo e vais ver: casais a discutir marcas, miúdos a implorar por cereais e compradores solitários a mexer os lábios enquanto empurram o carrinho. Parecem estar a narrar um podcast muito aborrecido. “Pão, atum, arroz… não te esqueças do descafeinado da mãe.” Pode parecer ligeiramente estranho, quase como uma falha na matriz social. Não era suposto mantermos isso tudo dentro da cabeça?

Os psicólogos têm um termo para isto: fala auto-dirigida. É a forma como falamos connosco em voz alta para orientar o que estamos a fazer. Longe de ser sinal de que alguém está a perder o tino, costuma ser sinal de que o cérebro está a trabalhar arduamente para manter tudo nos carris. Não estás apenas a vaguear pelos corredores; estás a treinar-te a ti próprio através de uma pequena pista de obstáculos doméstica.

Nem sempre reparamos até alguém o fazer um pouco mais alto do que gostaríamos. E então começamos a pensar: devo preocupar-me? Mas a ciência por detrás deste hábito é surpreendentemente benevolente. Essas listas de compras murmuradas são, ao mesmo tempo, um sistema de organização, uma forma de gerir o stress e uma arma secreta para acertar na marca certa de arroz à primeira.

Porque dizer em voz alta torna o teu cérebro mais apurado

Há algo quase mágico em ouvir a tua própria voz a dar nome ao que procuras. O psicólogo Gary Lupyan, que estudou exatamente este fenómeno, descobriu que as pessoas que diziam o nome do objeto que estavam à procura - “banana”, “garrafa vermelha”, “champô” - encontravam-no mais depressa. Chama-se “andaime auditivo”: a tua voz torna-se uma espécie de corrimão mental. Dizes, ouves, e de repente o radar do teu cérebro fixa o alvo.

Dentro da tua cabeça, os pensamentos podem ser escorregadios e vagos. Pensar “ai, não me posso esquecer das bolachas” é como escrever no ar com uma faísca: brilha um segundo e desaparece logo a seguir. Quando dizes “Bolachas, não te esqueças das bolachas”, o teu cérebro recebe a mensagem duas vezes - uma como pensamento, outra como som. Esse duplo input torna mais fácil manter o rumo do que estás realmente a tentar fazer, em vez de te distraíres e saíres da loja com três coisas de que não precisavas e nenhuma das que precisavas.

Há também um efeito subtil de foco. Falar em voz alta estreita a tua atenção. Uma loja está cheia de ruído: música, bips das caixas, carrinhos de outras pessoas, o farfalhar de embalagens de plástico. A tua própria voz corta essa névoa como um marcador fluorescente. Diz ao teu cérebro: isto, agora, é o que interessa. É por isso que falar contigo próprio não só te pode “assentar”, como muitas vezes significa que sais de lá com menos erros.

A ciência da “precisão nas compras”

“Precisão nas compras” soa um bocadinho ridículo, como algo de um concurso televisivo. No entanto, se já chegaste a casa, arrumaste os sacos e percebeste que te faltou aquele ingrediente essencial, sabes exatamente do que se trata. Precisão é simplesmente: compraste mesmo o que precisavas, na forma certa, sem mais sete extras aleatórios a entrarem sorrateiramente? Parece simples. Raramente é.

Os psicólogos que estudam a tomada de decisão do dia a dia dizem que os supermercados são uma tempestade perfeita de sobrecarga cognitiva. Cores vivas, dezenas de produtos quase iguais, promoções a gritar contigo em vermelho e amarelo. O teu cérebro faz malabarismo com preço, marca, preocupações de saúde, preferências da família e tudo o resto que se passa na tua vida. A capacidade mental não é infinita. Alguma coisa cai.

O auto-diálogo funciona como um sistema básico de verificação de erros. Quando dizes “Manteiga sem sal, não a de bolos”, estás a antecipar o erro clássico de pegar na caixa errada à pressa. Quando resmungas “Já temos arroz, não caias na promoção”, estás a chamar à atenção a parte do teu cérebro que quer acumular sem razão. Em estudos, as pessoas que usavam auto-diálogo orientado tendiam a seguir mais o plano e a fazer menos escolhas impulsivas.

De vaguear para agir com objetivo

Há também uma mudança na forma como te moves. As pessoas que verbalizam os seus objetivos comportam-se mais como se estivessem numa mini-missão. Em vez de andarem ao acaso e reagirem ao que lhes chama a atenção, caminham mais diretamente, lêem rótulos com mais cuidado e voltam menos vezes atrás. É como se o cérebro recebesse a instrução falada como um contrato: disseste “aveia e iogurte”, portanto agora, inconscientemente, estás a ser “avaliado” pela entrega disso.

Isto não significa que toda a gente que fala consigo própria seja algum hacker de vida hiper-eficiente. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, em todos os corredores, para cada item. Pegamos no hábito quando nos sentimos cansados, stressados, com pressa ou responsáveis por alimentar outras pessoas. Muitas vezes aparece precisamente naqueles dias em que simplesmente não te podes dar ao luxo de falhar.

O lado emocional: quando o carrinho vira um confessionário

O auto-diálogo no supermercado nem sempre é sobre não te esqueceres das cebolas. Às vezes é sobre manteres a calma. Podes ouvir um pai ou mãe a sibilar baixinho para si: “Mantém a calma, não te passes, só pega nos cereais e vai embora”, enquanto uma criança pequena chora perto das bolachas. Ou alguém sozinho, parado junto ao vinho, a sussurrar: “Não precisas disto, já levas duas semanas sem beber, continua.” Isto não são listas de compras; são pequenas conversas motivacionais público-privadas.

Os psicólogos chamam a isto regulação emocional. Em vez de deixar os sentimentos acumularem silenciosamente até virarem uma onda, algumas pessoas usam a voz para nomear o que está a acontecer e orientar-se. Dizer “Estou stressado, concentra-te numa coisa de cada vez” soa incrivelmente básico. E, no entanto, essa frase simples pode baixar um nível ao teu sistema nervoso no meio de luzes fluorescentes e pop de fundo. Transforma-te de participante esmagado em observador ligeiramente mais distanciado.

Todos já tivemos aquele momento em que estás junto aos congelados, com um cesto na mão, a sentir-te estranhamente perto das lágrimas por razões que não têm nada a ver com ervilhas congeladas. Nessa altura, uma frase pequena - “Estás só cansado, compra algo simples para o jantar, está tudo bem” - pode parecer uma mão no teu próprio ombro. Não estás a perder a cabeça. Estás a apoiá-la, em voz alta, num ambiente que é estranhamente intenso para aquilo que é.

Solidão no corredor dos cereais

Há outra camada, mais silenciosa: a solidão. Para algumas pessoas, especialmente quem vive sozinho, o supermercado pode ser um dos poucos espaços sociais por onde passam nesse dia. Estão rodeadas de gente, mas ninguém está realmente a falar com elas. Um pouco de auto-diálogo em voz alta - “Então, o que é que me apetecia para o jantar?” - pode sentir-se como uma pequena recuperação de companhia.

A investigação sobre auto-diálogo mostra que ele tende a aumentar quando as pessoas se sentem isoladas ou pouco apoiadas. O cérebro mantém a conversa a andar mesmo quando outros humanos não o fazem. Não é, claro, um substituto perfeito para uma ligação real. Ainda assim, naquele espaço polido e com ar condicionado, onde tudo é desenhado para te levar a consumir, falar contigo próprio pode ser um lembrete discreto de que continuas a ser uma pessoa com pensamentos e escolhas, não apenas um cliente com um cartão.

Não é loucura, é método: o que os psicólogos realmente dizem

Se perguntares diretamente a psicólogos se falar contigo próprio nos corredores é sinal de algo preocupante, quase sempre dirão que não - a menos que venha acompanhado de alucinações angustiantes ou de uma rutura total com a realidade. Para a grande maioria das pessoas, não é loucura; é método. É a mente a usar todas as ferramentas que tem para lidar com um ambiente movimentado e uma lista crescente de tarefas.

Os psicólogos do desenvolvimento já viram este padrão antes, nas crianças. As crianças pequenas falam constantemente consigo próprias para se guiarem nas tarefas: “Agora o bloco azul vai aqui, depois faço isto, depois arrumo.” À medida que crescem, essa fala vai passando gradualmente para dentro da cabeça. Mas fragmentos ficam na idade adulta, sobretudo quando uma tarefa é desconhecida, exigente ou ligeiramente stressante. Uma compra semanal caótica marca as três caixas.

Por isso, quando um adulto fica em frente a vinte variações de massa e diz “Ok, pensa, o que é que toda a gente vai realmente comer?”, está a recorrer ao mesmo sistema de treino interno que um dia usou para apertar os atacadores. Não é uma regressão; é um atalho inteligente. O cérebro está simplesmente a agarrar-se a uma estratégia familiar que funciona desde a infância: falar sobre isso e depois fazer.

Como o auto-diálogo melhora discretamente a qualidade das decisões

A precisão no supermercado não é só pegar na marca certa; é também fazer melhores escolhas sob pressão. Quando dizes “Não, da última vez comprámos a mais barata e ninguém gostou”, estás a obrigar-te a recordar resultados anteriores. É quase como um debriefing a meio do corredor. Não estás apenas a comparar preços; estás a ponderar experiência, sabor e desperdício.

Estudos sobre autorregulação mostram que falar sobre as decisões ajuda as pessoas a manterem-se mais fiéis aos seus valores. Em termos de compras, isso pode significar cumprir a intenção de comprar menos embalagens de plástico, saltar snacks ultraprocessados ou manter-te dentro de um orçamento apertado. Dizer “Fica só pela lista” em voz alta pode parecer trivial, até um pouco triste, e no entanto funciona como uma vedação psicológica surpreendentemente sólida.

Há também um truque de distanciamento a acontecer. Quando dizes “Tu não precisas de três tipos de queijo, estás só cansado”, e usas “tu” em vez de “eu”, a investigação sugere que crias algum espaço em relação ao desejo. Soa mais a estar a aconselhar um amigo do que a lutar contigo próprio. Essa pequena torção linguística torna mais fácil escolher a opção que se alinha com os teus objetivos de longo prazo, e não com o teu humor de curto prazo.

A etiqueta silenciosa de falar consigo próprio

Claro que há sempre o lado social. Os supermercados ficam naquela zona estranha entre o público e o privado. Estás no teu mundinho… até deixares de estar. As pessoas que falam consigo próprias muitas vezes aprendem a manter a voz baixa, ficar perto do carrinho e manter o comentário sobre a tarefa - não uma corrente de consciência sem filtro sobre a vida amorosa na secção dos iogurtes.

A maioria de nós finge não reparar, porque no fundo sabemos que fazemos algo parecido, nem que seja mexer os lábios sem som ou sussurrar para dentro do cachecol. Há um acordo tácito: eu não julgo o teu resmungo se tu não julgares o meu. Reconhecemos que estamos todos só a tentar atravessar este ritual semanal ligeiramente surreal sem nos esquecermos do pão.

Se apanhares o olhar de alguém a meio de uma frase, costuma haver um sorriso envergonhado, talvez um encolher de ombros: “Desculpe, estou a falar sozinho.” E depois seguem os dois em frente, estranhamente reconfortados. Porque, quando conheces a psicologia, percebes que isto não é sinal de colapso social; é sinal de que as pessoas estão a tentar. Estão a tentar cuidar das suas famílias, cumprir orçamentos, gerir a mente. Em voz alta, por um momento, entre os cereais e as sopas enlatadas.

Da próxima vez que ouvires isso nos corredores

Da próxima vez que estiveres na secção dos lacticínios e ouvires alguém murmurar “Gordo para ele, magro para mim, sem lactose para ela; certo, não estragues isto”, vais saber que há mais a acontecer do que nervos. O cérebro dessa pessoa está a pôr carris, a apanhar erros antes de acontecerem, a empurrar decisões para o que realmente lhe importa. Pode sentir-se um pouco autoconsciente. E também está, sem se aperceber, a usar uma das ferramentas cognitivas mais antigas que temos.

Talvez até notes a tua própria voz a aparecer mais, agora que pensas nisso. Um “Não, já temos suficiente em casa” baixinho, ou “Vais ficar contente por teres comprado a coisa aborrecida mas saudável.” Não vai ser perfeito. Vais continuar a esquecer coisas. Vais continuar a comprar por impulso, de vez em quando, um chocolate em promoção. Mas, escondida dentro dessas pequenas frases ditas em voz alta, está uma verdade muito humana: a nossa mente é confusa, o mundo é barulhento e, às vezes, a coisa mais gentil que podemos fazer por nós próprios é simplesmente dizer em voz alta o que estamos a tentar fazer.

Por isso, se algum dia te apanhares a meio do corredor das compras, a resmungar para as latas de feijão, lembra-te disto: não és estranho, és estratégico. E a tua lista de compras sussurrada e ligeiramente awkward pode ser precisamente o que te está a tornar mais certeiro do que pensas.

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