Healing the “inner child” não é um meme fofinho nem um mantra em foco suave. É um trabalho difícil e específico, que implica nomear aquilo que nunca aconteceu e fazer o luto por isso. Psicólogos dizem que chorar a infância que não tiveste - segurança, brincadeira, ternura, uma testemunha - abre espaço para paz na vida adulta. Não é uma performance. É um acerto de contas.
Ela parecia ter dormido com a roupa, embora tudo estivesse limpo, cuidado. Quando o autocarro chegou a sibilar, ela estremeceu como se o ar tivesse gritado. Vi-a subir e sorrir ao motorista com a educação ensaiada de alguém que aprendeu a sobreviver agradando. Mais tarde, uma terapeuta disse-me que é aqui que a cura muitas vezes começa: não numa epifania luminosa, mas num pequeno estremecimento privado que diz: “Não me seguraram o suficiente.” A primeira verdade pode parecer uma traição.
O que os psicólogos querem dizer com “fazer o luto pela infância que nunca tiveste”
Fazer o luto por uma infância em falta é reconhecer que certas necessidades ficaram por satisfazer - e que essa ausência teve peso. Não é culpa nem dramatização. É tristeza pelas canções de embalar que não foram cantadas, pelas velas de aniversário que ninguém acendeu, pelo adulto que nunca disse: “Eu vejo-te.” O luto não é o inimigo aqui. Terapeutas enquadram-no como a criação de um espaço seguro e honesto para absorver esses factos sem correr a “arranjá-los”. Porque o corpo guarda a conta mesmo quando a mente nega, o luto torna-se uma ponte entre memória e regulação, passado e presente.
Pensa no Chris, 38 anos, o “comediante” do escritório que nunca perde a calma. Ri-se de prazos apertados e cancela planos pessoais quando outros pedem. Em terapia, escreveu uma lista chamada “Primeiras vezes que nunca tive”: a primeira vez que alguém me pediu desculpa, a primeira vez que um adulto me perguntou a opinião, a primeira vez que chorei sem medo. A meio da página, parou de brincar. Grandes inquéritos nos EUA sugerem que a maioria dos adultos relata pelo menos uma experiência adversa na infância, e muitos dizem que ainda sentem o seu eco no dia a dia. As estatísticas não suavizam a dor. Normalizam o facto de não estares a inventar.
Os clínicos descrevem muitas vezes este luto como uma espiral, e não como uma escada. Volta em reuniões de família, na parentalidade, durante uma doença, no sucesso que parece estranhamente vazio. O objetivo não é “ultrapassar”, mas metabolizar. Quando fazes luto, o teu sistema nervoso aprende que finalmente há espaço para a dor. Isto muda o comportamento de formas silenciosas: refeições feitas sentada/o, e-mails enviados sem pedido de desculpa, um “não” dito sem tremer. A lógica é simples: a integração reduz a reatividade. Com o tempo, aquilo que te aconteceu deixa de escolher por ti.
Formas práticas de começar esse luto - sem te afogares nele
Começa com um ritual que ancore o corpo. Acende uma vela, define um temporizador de 15 minutos e escreve um “Inventário da Infância em Falta”. Uma linha por cada necessidade não satisfeita, sem explicações. Depois, coloca a palma da mão no peito e lê a lista em voz alta, devagar, como se estivesses a encontrar um “tu” mais novo/a à porta. Se vierem lágrimas, deixa-as. Se não vier nada, isso também conta. Fecha com uma carta ao teu eu mais novo em linguagem simples: “Eu não tive isto. Eu merecia. Eu estou aqui agora.” Inspira durante quatro, expira durante seis, até os ombros baixarem por si. Podes avançar à velocidade da tua respiração, não do teu calendário.
As armadilhas aparecem depressa. As pessoas comparam traumas como se fosse um concurso e desqualificam-se porque “os outros tiveram pior”. Devoram autoajuda e saltam o descanso. Confrontam a família antes de construírem recursos internos. Já todos tivemos aquele momento em que estamos a meio de uma mensagem cheia de lágrimas e percebemos que estamos a tentar ganhar um julgamento com o júri errado. Experimenta um ritmo diferente: um gesto de cuidado, uma frase de verdade, um pequeno limite. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Aponta para a maioria dos dias - ou só para hoje.
O luto precisa de testemunhas que consigam manter-se firmes. Uma terapeuta é o ideal, mas uma amiga bem assente também pode ajudar. Escolhe alguém que ouça mais do que “conserta”, alguém capaz de dizer “Eu acredito em ti” sem virar a câmara para si. Talvez crescer seja aprender a fazer luto sem perder o fio à tua vida.
“Fazer o luto pela infância que nunca tiveste não é ficar preso ao passado. É dar ao teu sistema nervoso provas, finalmente, de que estás suficientemente seguro/a para sentir.”
- Define uma hora de início e de fim para as práticas de luto.
- Usa ferramentas simples: respiração, calor, movimento suave.
- Escreve ao teu eu mais novo uma vez por semana.
- Faz uma pausa antes de confrontar a família; constrói apoio primeiro.
O que muda quando te permites fazer luto pela criança que foste
Algo subtil muda. A luta para estar “bem” afrouxa, e momentos comuns - servir café, trancar a porta, escolher os sapatos - começam a parecer escolhas. Ris-te e isso assenta no corpo. Reparas num padrão antigo e decides tentar um movimento novo: desligar o telemóvel ao jantar, escolher o bom lugar na reunião, dizer a uma amiga que ficaste magoado/a sem te preparares para o impacto. Não é uma montagem de filme. É a criação lenta de confiança contigo. Nalguns dias, vais recuar e vestir o velho disfarce. Noutros, vais sentir um aquecimento no peito, como uma luz de corredor que se acende. Não chegaste tarde à tua própria vida. Partilha a tua história quando estiveres pronto/a, não quando estiver “arrumada”.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o/a leitor/a |
|---|---|---|
| Nomear a perda | Criar um “Inventário da Infância em Falta” por escrito e lê-lo em voz alta com cuidado | Transforma uma dor vaga em luto claro e trabalhável |
| Ritualizar o luto | Sessões com tempo delimitado, com respiração, calor e uma rotina de fecho | Evita o avassalamento e constrói uma sensação de segurança |
| Construir uma testemunha | Terapeuta ou amiga “com os pés na terra” que valida sem tentar arranjar | Regula o sistema nervoso e reduz o isolamento |
FAQ:
- Como sei se estou a “fazer isto bem”? Não existe uma forma perfeita. Procura pequenos marcadores: respirar mais fácil, limites mais claros, menos “ressacas” emocionais.
- E se eu não me lembrar de muita coisa da minha infância? Trabalha com aquilo que sentes agora - tensão, entorpecimento, sobressaltos rápidos. Os sinais do corpo são dados válidos.
- Devo confrontar os meus pais? Às vezes sim, às vezes não. Primeiro constrói apoio e prepara as tuas necessidades. A tua cura não exige o acordo deles.
- Quanto tempo isto demora? O luto move-se por estações. Pensa em semanas e meses, com pausas, não num único fim de semana catártico.
- E se eu começar a chorar e não conseguir parar? Ancora-te no presente: sente os pés, nomeia cinco coisas que vês, alonga a expiração. Se as lágrimas continuarem, procura apoio profissional.
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