Muitas vezes damos por isso ao abrir a fatura da eletricidade, ainda meio atordoados com o valor que aparece.
O aquecimento, sim. A água quente, está bem. Mas aquela pequena “torradeira gelada” que deixamos a funcionar 24 horas por dia num canto da cozinha, quase nunca nos passa pela cabeça. O congelador ronrona, discreto, fiel, sempre pronto a safar um jantar improvisado ou um balde de gelado comido em frente a uma série. E, no entanto, é um dos aparelhos que consome de forma contínua, sem pausas, sem fins de semana.
Um técnico de frio disse-me um dia, a sorrir, que ganhava a vida graças a congeladores “maltratados sem que se dê por isso”. A frase ficou-me. Desde então, olho para aquele grande cubo branco de outra forma. Porque há um ajuste minúsculo, quase ridículo, que muda mesmo o jogo na fatura. Um micro-hábito que a maioria dos proprietários ignora por completo.
E nem sequer exige renunciar à pizza congelada.
O congelador, este guloso silencioso
Na maioria das cozinhas, o congelador faz parte do cenário, como uma cadeira ou um armário. Pedimos-lhe que mantenha os alimentos congelados, e pronto. Ninguém se pergunta quanto custa no dia a dia. Liga-se uma vez, ajusta-se vagamente um botão ao acaso, e não se volta a mexer nele durante dez anos.
Os números, porém, são teimosos: num lar médio, o frigorífico e o congelador representam muitas vezes entre 10 e 15% da fatura de eletricidade. É muito para um aparelho ao qual não se presta atenção. Fazemos de tudo para apagar luzes, caçamos a standby da televisão, mas aquele bloco gelado no fundo da cozinha continua a trabalhar sem a menor otimização.
Todos já vivemos aquele momento em que empurramos a porta do congelador com as duas mãos porque está sobrecarregado de sacos e caixas. Resmungamos porque cola, porque ganha gelo, porque faz barulho… depois fechamos, e esquecemos. A maioria dos proprietários nunca verificou o ajuste exato da temperatura. Acham que “muito frio” é necessariamente melhor. Na realidade, esse reflexo custa-lhes dezenas, às vezes centenas de euros por ano.
Um engenheiro de eficiência energética contou-me uma cena banal durante uma auditoria numa casa nos arredores. O casal queixava-se de uma fatura demasiado alta. Isolamento razoável, aparelhos relativamente recentes. Ele aproxima-se do congelador: um modelo combinado, limpo, nada de anormal à primeira vista. Depois olha para o pequeno seletor no interior. O ajuste estava no máximo, equivalente a -25 °C ou menos. “Porquê tão baixo?”, pergunta. Resposta: “Pensávamos que quanto mais frio, melhor para conservar os alimentos.”
Ele tirou um termómetro, esperou alguns minutos e confirmou: a temperatura real era ainda mais baixa do que o previsto. O compressor trabalhava quase sem parar. O casal nunca tinha mexido no botão desde a instalação, cinco anos antes. Depois de um simples ajuste para -18 °C, o consumo medido do congelador desceu de forma muito nítida nas semanas seguintes. Sem mudar a forma como usavam o aparelho. Sem abdicar dos congelados. Apenas ao rodar um pequeno botão.
O que está por trás desta cena é muito simples: abaixo de -18 °C, a maioria dos alimentos não ganha nada em termos de segurança ou conservação. É a temperatura de referência recomendada por organismos de saúde e pelos fabricantes de eletrodomésticos. Descer para -22 °C, -24 °C ou menos é como aquecer a casa a 26 °C no inverno: não muda a vida, mas faz disparar o consumo.
A lógica é implacável. Quanto maior for a diferença entre a temperatura no interior do congelador e a da divisão, mais o aparelho tem de trabalhar para manter o frio. Cada grau a menos é mais um “degrau” para o compressor subir. Em muitos casos, aumentar a temperatura definida em 3 a 5 °C (por exemplo, de -23 °C para -18 °C) pode reduzir o consumo elétrico do congelador em 10 a 30%, dependendo do modelo e do isolamento da cozinha. Sem esforço diário. Sem mudar a rotina.
O pequeno ajuste que muda tudo
A famosa “pequena dica” de que poucos proprietários ouviram falar resume-se a uma frase: regular o congelador para mesmo -18 °C, nem mais nem menos, e verificar. Não “muito frio”. Não “nível 4 em 5”. Um valor real medido, perto de -18 °C. É o ponto de equilíbrio entre segurança alimentar, conforto de utilização e uma fatura suportável.
Na prática, faz-se com dois gestos. Primeiro, arranjar (ou pedir emprestado) um termómetro de cozinha que aguente o frio. Colocá-lo numa prateleira central do congelador, sem encostar às paredes. Depois, esperar pelo menos 12 horas com a porta fechada e o congelador com carga normal. A temperatura indicada diz a verdade, não o pequeno pictograma de floco que pisca à frente. Se ler -22 °C, -24 °C ou ainda menos, muitas vezes basta rodar ligeiramente o seletor para um ajuste menos frio e voltar a verificar no dia seguinte.
O surpreendente é o quanto este ajuste muda tudo… sem mudar nada no seu quotidiano. Continua a guardar os mesmos alimentos. Os gelados continuam duros, os sacos de legumes continuam perfeitamente congelados. A única coisa que baixa é o tempo de funcionamento do compressor. Alguns proprietários até aproveitam para reparar numa vedação da porta já cansada ou numa grelha traseira suja, mas o essencial é este ajuste preciso em torno de -18 °C. É discreto. É quase simples demais. E, no entanto, funciona.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ninguém acorda de manhã a pensar: “Ora, vou recalibrar o congelador.” Vivemos com definições por defeito, um pouco como com as notificações do telemóvel. Aceitamos as coisas como estão, até ao dia em que a fatura ou uma avaria nos obriga a olhar com mais atenção.
Os erros mais comuns giram em torno de ideias feitas. Achar que um congelador tem de ser tão gelado que cola os dedos para ser eficaz. Acreditar que um aparelho antigo tem de estar “no máximo” para continuar a render. Ou pensar que um pouco de gelo não faz mal, quando uma camada de alguns milímetros pode acrescentar uma sobrecarga significativa.
Também se veem muitas vezes congeladores encostados entre um radiador e um forno, ou colados a uma parede sem ventilação. O aparelho luta contra o calor ambiente, enquanto o proprietário se pergunta porque faz tanto barulho. Aqui, mais uma vez, um pequeno afastamento ou algum espaço para “respirar” por vezes chega. Mas acertar a definição para -18 °C continua a ser a base invisível - a que faz diferença ao longo dos meses.
“Quando se regula um congelador corretamente, não parece que se esteja a poupar. Nada muda a olho nu. E, no entanto, é muitas vezes um dos gestos mais rentáveis numa casa”, disse-me um conselheiro de energia local.
Concretamente, algumas pequenas rotinas reforçam o impacto deste ajuste sem se tornarem uma carga mental:
- Anotar algures a data da última verificação da temperatura, para se lembrar de a fazer uma ou duas vezes por ano.
- Deixar algum espaço à volta do aparelho para o ar circular por trás.
- Encher o congelador sem o esmagar, com um mínimo de organização para não deixar a porta aberta demasiado tempo.
- Verificar uma vez por ano o estado da borracha da porta, colocando uma folha de papel entre a porta e o aro: se deslizar sem resistência, o frio está a escapar.
- Vigiar o gelo e descongelar antes de a camada se tornar realmente espessa nas paredes.
Nada disto obriga a viver como num manual de eletrodomésticos. São apenas pequenos “empurrões” para um aparelho que, esse sim, trabalha em silêncio 365 dias por ano.
Quando um seletor se torna uma alavanca
O que intriga nesta história dos -18 °C é a desproporção entre o gesto e o efeito. Estamos a falar de um botão rodado um “clique”, às vezes dois. De um termómetro pousado durante uma noite. E, de repente, reduz o consumo de um aparelho que nunca pára. Num contexto em que cada kWh conta, em que os preços da energia continuam instáveis, este tipo de alavanca discreta ganha outra dimensão.
Percebemos também que a nossa relação com os aparelhos domésticos ficou muito… automática. Um congelador é “liga/desliga”, ponto final. Quando, na realidade, estas máquinas foram concebidas para funcionar numa faixa ótima bem precisa. Usá-las fora dessa faixa é como conduzir um carro sempre em primeira: anda, mas a que custo. Meter a “mudança certa”, aqui, é regular a temperatura para esses -18 °C - nem heroico, nem negligente.
Podemos ver nisto uma pequena metáfora da casa moderna. A maioria das poupanças de energia não vem de grandes renúncias espetaculares, mas de uma série de microajustes inteligentes, pensados uma vez e depois esquecidos. Um termóstato programado, uma extensão desligada à noite, um congelador bem regulado. Individualmente, parece insignificante. Coletivamente, em milhões de lares, é enorme. E na sua cozinha, é simplesmente aquele momento em que roda um seletor, fecha a porta e deixa o tempo - e a próxima fatura - fazer o resto.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Regular para -18 °C | Usar um termómetro para visar uma temperatura real de cerca de -18 °C | Reduzir o consumo sem mudar hábitos alimentares |
| Limitar a diferença de temperatura | Evitar ajustes “no máximo” que aumentam a diferença em relação à divisão | Diminuir o tempo de funcionamento do compressor e o ruído |
| Fazer a manutenção mínima | Borracha da porta, gelo, ventilação atrás | Manter o desempenho sem investir num aparelho novo |
FAQ:
Porque é que -18 °C e não mais frio?
-18 °C é a temperatura recomendada para conservar os alimentos em segurança, limitando a sobrecarga de consumo. Mais frio não os torna mais “saudáveis”; faz sobretudo o compressor trabalhar mais tempo.Como verificar a temperatura real do meu congelador?
Coloque um termómetro adequado ao frio no meio do congelador, deixe-o pelo menos 12 horas sem abrir muito a porta, depois leia o valor e ajuste o seletor se necessário.Corro o risco de estragar os alimentos ao aumentar a temperatura?
Se ficar por volta de -18 °C e a cadeia de frio não for interrompida, os congelados mantêm-se bem conservados. O problema vem sobretudo de variações frequentes ou de temperaturas demasiado altas, acima de -15 °C.O meu congelador tem muito gelo; isso influencia mesmo a fatura?
Sim. Uma camada de gelo funciona como uma “manta” que impede o frio de circular, obrigando o aparelho a trabalhar mais. Descongelar regularmente ajuda a manter um consumo razoável.Um congelador antigo consome sempre mais do que um novo?
Os modelos recentes são muitas vezes mais eficientes, mas um aparelho antigo bem regulado para -18 °C, devidamente descongelado e bem ventilado, pode continuar aceitável. Uma medição rápida do consumo com um medidor de energia (wattímetro) pode ajudar a decidir se vale a pena substituí-lo.
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