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Porque sente sempre que lhe falta tempo (e como conseguir mais)

Pessoa escreve num caderno ao lado de um portátil, chá e lista "DONE" numa mesa de madeira.

Sabes aquela coisa estranha em que acordas já a sentir que estás atrasado? O alarme toca e, antes mesmo de pores os pés no chão, o teu cérebro já está a correr pelos emails, pelas contas, pelas mensagens a que ainda não respondeste, por aquele amigo a quem prometeste ligar há duas semanas. O dia ainda nem começou e, de alguma forma, já estás para trás. Fazes scroll enquanto lavas os dentes, meio a ler as notícias, meio a odiar-te por não estares a fazer algo mais… produtivo. O café sabe a pressa. Os ombros sobem em direcção às orelhas. Dizes a ti próprio que amanhã vais ser mais organizado, mais calmo, mais presente. Amanhã vais sentir que tens tudo sob controlo.

Amanhã nunca aparece realmente, pois não?

O pânico silencioso que nunca vai embora

Há um tipo particular de stress que, por fora, não parece dramático. Estás a funcionar, a responder a mensagens, a fazer o jantar, a aparecer nas reuniões mais ou menos a horas. No papel, está tudo bem. Por dentro, no entanto, há este zumbido constante em segundo plano: devias estar a fazer mais. Reparas nisso quando abres o Instagram e vês mais um noivado, mais uma promoção, mais um post “fiz uma coisa” com legendas polidas e luz perfeita.

Todos já tivemos aquele momento em que fechas a aplicação, olhas para a tua sala e pensas: “Como é que toda a gente anda tão depressa enquanto eu estou preso no mesmo dia, dia após dia?” Isso não é apenas inveja ou comparação. É a sensação de que a vida está a sprintar enquanto tu estás a correr num areal molhado. Sentes-te atrasado para um prazo invisível, mas ninguém te diz qual é, nem exactamente quando termina.

Esse sentimento tem agora um nome: ansiedade do tempo. Os psicólogos falam disso com suavidade, em linguagem clínica, mas o que se sente, na verdade, é um pânico de baixa intensidade de que a tua única vida curta te está a escapar por entre os dedos enquanto respondes a mais um email de “uma pergunta rápida” às 21h47. Podes estar sentado no sofá, com a Netflix aberta, e ainda assim sentir que estás a falhar um teste a que nunca concordaste em fazer. Ninguém vê o placar, mas tu jurarias que ele está a brilhar a vermelho por trás dos teus olhos.

Porque é que a vida moderna te faz sentir permanentemente atrasado

Parte do problema é a forma como aprendemos a medir o tempo. Não em horas ou dias, mas em tarefas. O teu valor passa a ser uma lista de coisas a fazer com pernas. Terminaste três coisas? Podias ter feito cinco. Fizeste uma pausa? Bem, isso é tecnicamente “tempo perdido”. O relógio na parede não acelerou, mas o teu relógio interno ficou afinado para a produtividade, não para a presença. É como usar auscultadores com cancelamento de ruído sintonizados numa única mensagem: “Trabalha mais depressa.”

Depois há a visibilidade constante das linhas do tempo dos outros. Antes dos smartphones, sabias o que os teus amigos andavam a fazer se falasses com eles ou, talvez, se recebesses um postal de Natal. Agora podes ver um amigo da escola a fazer um crédito à habitação, a ter o segundo bebé e a mudar de emprego num scroll interminável, enquanto esperas que a torrada salte. Os marcos da vida deles aparecem como notificações. O teu cérebro arquiva cada um como prova de que estás atrasado num qualquer calendário cósmico.

Há também a forma como o trabalho se foi infiltrando, discretamente, em cada corredor do dia. Slack no telemóvel. Emails à mesa do jantar. Uma mensagem do teu chefe que aparece mesmo quando estás prestes a carregar no play de um filme. Podes não responder, mas o teu corpo reage: pequeno pico de adrenalina, batimento mais acelerado, ombros tensos. O tempo deixa de parecer teu. Passa a ser algo que alugas a quem conseguir chegar até ti primeiro.

O mito que te mantém a perseguir mais

Por baixo de tudo isto está uma história que engolimos por inteiro: a de que o tempo é algo que podemos vencer se nos esforçarmos o suficiente. Acordar mais cedo, optimizar a rotina da manhã, ler mais depressa, dormir menos, fazer mais multitarefa. Provavelmente já viste aqueles posts: “Todos temos as mesmas 24 horas que a Beyoncé.” Como se cuidados com filhos, saúde, dinheiro, localização e pura sorte não existissem. Como se o tempo fosse uma competição que já estás a perder.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ninguém se levanta às 5 da manhã, medita, escreve num diário, corre 5 km, faz um batido de proteína, responde a todos os emails e depois entra calmamente num estado profundo e concentrado de flow até ao almoço. As pessoas tentam durante uma semana, rebentam, e depois voltam discretamente a beber café frio em frente ao portátil. O mito, ainda assim, sobrevive porque soa esperançoso. Sussurra que, se apenas “gerires” melhor o tempo, finalmente vais sentir-te calmo.

A reviravolta cruel é que esta mentalidade te faz sentir que nunca tens o suficiente de algo que, em primeiro lugar, nunca foi feito para ser controlado. O tempo não é uma folha de cálculo. É mais como o tempo meteorológico. Podes ver a previsão, levar um casaco, planear um piquenique, mas não podes parar a chuva. Quando tratas o tempo como algo a dominar, cada minuto que não corre como planeado parece um fracasso, e não simplesmente a vida a ser vida.

Como o teu cérebro distorce o tempo em silêncio

O efeito de aceleração

Há um truque estranho que o teu cérebro faz quando a vida está cheia até transbordar: quanto mais ocupado estás, mais rápido o tempo parece passar. Enches o dia de tarefas, dizes que sim a tudo, convencido de que fazer mais te vai ajudar a “apanhar o atraso”. À hora de deitar, não te sentes satisfeito. Sentes que o dia evaporou. As memórias ficam turvas porque nunca aterravas em momento nenhum tempo suficiente para o sentir.

Em dias calmos, porém, o tempo estica. Pensa num domingo lento sem planos, talvez o sussurro suave da chaleira ao fundo, o som da chuva na janela. Reparas em detalhes pequenos: a forma como a luz se move pela parede, o cheiro da torrada, o clique da porta do vizinho a fechar. Esses detalhes são o que o teu cérebro guarda como experiência. Mais atenção equivale a mais memória, e mais memória faz o tempo parecer mais rico e mais lento.

A armadilha do “o futuro vai resolver”

Há também o hábito mental de viver cinco passos à frente. Mal entras na segunda-feira e já estás a pensar no fim de semana. Vais no autocarro a planear as férias do próximo ano. Estás numa reunião a ensaiar, em silêncio, o que vais dizer na seguinte. É como tentar ler três páginas à frente num livro quando ainda estás na segunda frase. Não admira que o teu presente pareça fino. Raramente estás lá quando ele acontece.

O teu cérebro diz-te que isto é responsabilidade, que pensar à frente vai tornar tudo mais suave. E sim, planear ajuda. Mas quando a tua mente está permanentemente inclinada para a frente, o momento em que estás passa a ser algo por que tens de “passar” em vez de algo para habitar. Depois, semanas mais tarde, olhas para trás e sentes que o mês desapareceu. Não desapareceu. Tu é que não estiveste presente na maior parte dele.

O que “ter mais tempo” significa realmente

Aqui vai a verdade desconfortável: não consegues, de facto, obter mais horas. Só consegues viver as horas que tens de forma mais plena, ou menos. É isso. Essas são as regras. As pessoas que parecem “ter mais tempo” não estão a viver dias mais longos. Estão a fazer escolhas diferentes sobre atenção, limites e expectativas. Não são melhores seres humanos. Estão apenas a jogar um jogo diferente.

Se o jogo que tens jogado é “fazer tudo, por toda a gente, o mais depressa possível”, então claro que te sentes constantemente atrasado. A única forma de ganhar esse jogo é não o jogar. O verdadeiro “tempo extra” não vem de uma aplicação milagrosa nem de uma nova técnica de produtividade. Vem de decidires, de forma bastante deliberada, em que é que já não estás disposto a gastar as tuas horas. E sim, ao início isso parece egoísmo. Também parece voltar a respirar.

Três mudanças que realmente alteram a forma como o tempo se sente

1. Passa de uma lista de tarefas para uma lista do “feito”

A maioria de nós termina o dia a olhar para tudo o que não acabou. O email ainda ali. A roupa ainda na máquina. O livro a ganhar pó na mesa de cabeceira. O teu cérebro pega nisso como prova: “Vês? Desperdiçaste hoje.” Essa história cola-se. Alimenta a sensação de que a tua vida é uma tarefa interminável e inacabada.

Experimenta inverter. Durante uma semana, mantém antes uma pequena lista do “feito”. Aponta o que realmente fizeste: fizeste aquela chamada, foste à loja a pé, perguntaste por um amigo, cozinhastes algo minimamente decente, enviaste dois currículos. Inclui as coisas humanas: ajudaste nos trabalhos de casa, tiveste uma conversa a sério, finalmente marcaste o dentista. A lista não te vai dar mais minutos por magia, mas vai mostrar-te que o teu tempo não é vazio, nem desperdiçado, nem sem propósito. Apenas nem sempre tem forma de Instagram.

2. Coloca paredes rígidas à volta do teu tempo

A maior parte do teu tempo escorre por pequenas fissuras, não por buracos gigantes. O “só vou espreitar” os emails antes de dormir. O “já agora respondo” enquanto passeias o cão. A reunião que aceitaste sem perguntares se era mesmo necessário estares lá. Estes pequenos sins são caros. Custam-te foco e, com ele, qualquer sensação de calma.

Colocar limites ao teu tempo não tem de ser dramático. Pode ser tão simples como decidir: sem apps de trabalho depois das 20h. Ou: não respondo a emails aos domingos. Ou: digo que não a qualquer reunião sem um propósito claro. A chave é que o limite é externo, não baseado na tua força de vontade no momento. Pensa nisto como pôr o teu tempo numa sala com uma porta e uma fechadura. Nem toda a gente recebe uma chave.

3. Devolve algum tempo aos teus sentidos

Quando cada minuto tem de se “justificar”, qualquer momento que não seja claramente produtivo parece um desperdício. É assim que acabas a fazer scroll no telemóvel enquanto também vês TV pela metade enquanto também te preocupas com o trabalho. Estás a fazer três coisas e a viver nenhuma. O tempo fica fino e cinzento. Estiveste lá, tecnicamente, mas não estiveste mesmo lá.

Escolhe uma pequena fatia do dia e devolve-a por completo aos teus sentidos. Beber o café da manhã sem ecrã. Caminhar até à paragem do autocarro reparando mesmo no ar, no som do trânsito, no ritmo dos teus próprios passos. Lavar a cara e sentir a água de verdade, em vez de correr para a próxima coisa. Parece pequeno, quase parvo. No entanto, essas âncoras minúsculas puxam-te para fora da pressa abstracta e de volta para algo sólido e real.

Largar o prazo imaginário

Há um luto silencioso por trás da ansiedade do tempo de que quase ninguém fala. É o medo de não te tornares quem achaste que podias ser. De estares a falhar uma saída secreta onde começa a versão “real” da tua vida. Quando te sentes cronicamente atrasado, há sempre esta ideia flutuante de um tu melhor, a viver uma linha do tempo melhor, algures à tua frente na estrada. Quase consegues vê-lo ao longe. Quase o consegues odiar.

E se ele não existir? E se não houver calendário, nem marca que devias já ter atingido, nem um painel invisível a penalizar-te por não teres feito as coisas mais depressa? Isso não significa desistir ou deixar de te importar. Significa que a tua vida deixa de ser uma corrida e passa a ser uma paisagem. Não ficas “para trás” numa paisagem. Apenas a atravessas, reparando um pouco mais ou um pouco menos, dependendo de quanto de ti levas para o dia.

Talvez “ter mais tempo” não seja sobre fazer hacks, mas sobre um tipo de coragem mais suave e mais estranha: a coragem de estar onde estás, na vida que realmente tens, em vez de estar sempre a sprintar em direcção àquela que tens na cabeça. Os emails, os recados, as ambições - tudo isso vai continuar lá. Vai sempre. A verdadeira pergunta é se tu vais estar lá também.

Porque a forma mais assustadora de ficar sem tempo não é os anos passarem depressa demais. É passarem sem que tu repares que estiveste vivo dentro deles.

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