Um estudo da Universidade de Waterloo concluiu que apenas 4 horas sentada com as costas arredondadas aumentaram a rigidez na coluna e nos isquiotibiais.
Reparas nisso quando te inclinas à noite para desapertar os atacadores.
Aquela tração apertada na parte de trás das pernas. A forma como a zona lombar resmunga quando te inclinas sobre o lavatório. Doze horas antes, fazias os mesmos movimentos sem pensar. Às 21h, o teu corpo parece ter envelhecido cinco anos num só dia.
Não há nenhum treino intenso a que possas apontar o dedo, nenhuma corrida longa, nem sequer uma ida ao ginásio. Apenas um dia normal: secretária, carro, sofá, repetir.
E, no entanto, o pescoço está rígido, as ancas resistem, os ombros parecem ter sido embrulhados em fita-cola.
Parece injusto.
Quase como se o teu corpo te estivesse a castigar por simplesmente existires durante um dia de trabalho.
Há algo que acontece, discretamente, entre a manhã e a noite, que muda a forma como os teus músculos, articulações e nervos se comportam.
O que acontece realmente ao teu corpo entre a manhã e a noite
Pensa no teu corpo às 8h: sais da cama, espreguiças-te por instinto, as articulações estalam, tudo parece… possível.
No fim do dia, virar a cabeça para fazer marcha-atrás no carro parece uma pequena postura de ioga.
Os teus músculos não desapareceram.
Os teus ossos são os mesmos.
O que mudou é a forma como os teus tecidos respondem após horas de stress pequeno e repetido. Sentar-te curvada sobre um portátil. Segurar o telemóvel sempre no mesmo ângulo. Apertar a mandíbula no trânsito. O teu corpo não grita por isso. Apenas se vai fechando, em silêncio.
Passa um dia a observar pessoas a sair de um edifício de escritórios.
Vês logo: ombros projetados para a frente, cabeça a sair como a de uma tartaruga, passos um pouco mais curtos. As mesmas pessoas que, de manhã, entraram a balançar os braços e a mexer o pescoço com liberdade.
E isso nem é um dia inteiro. Multiplica por oito, nove ou dez horas que muitos de nós passamos sentados, e o teu “corpo da noite” começa a fazer sentido.
Uma designer gráfica disse-me que consegue tocar nos dedos dos pés facilmente às 7h.
Às 22h, mal chega a meio da canela.
A rotina de treino não mudou.
O que mudou foi quanto tempo passou na mesma cadeira, na mesma curvatura, sob o mesmo stress silencioso.
O teu corpo tem uma regra simples: proteger e depois adaptar.
Quando sente uso excessivo numa posição, o sistema nervoso aumenta a tensão muscular como uma espécie de cinto de segurança interno. As articulações ficam comprimidas por posturas estáticas. Os líquidos nos discos da coluna perdem um pouco de altura ao longo do dia, sobretudo na zona lombar, por isso inclinar-te para a frente à noite parece mais apertado do que de manhã.
Além disso, o “radar de ameaça” do teu cérebro aumenta quando estás cansada.
Ao fim do dia, hormonas do stress, fadiga mental e açúcar no sangue mais baixo tornam o sistema mais sensível ao alongamento e ao esforço. Os teus isquiotibiais não ficaram magicamente mais curtos. O teu cérebro está apenas menos disposto a deixá-los alongar livremente.
É por isso que um alongamento simples pode parecer fácil às 8h e estranhamente agressivo às 20h.
Mesmo movimento, sistema nervoso diferente.
O teu corpo não te traiu. Está apenas a jogar pelo seguro depois de um dia longo de micro-stresses que mal notaste.
O que podes fazer de diferente durante o dia (sem te transformares numa pessoa do ginásio)
A flexibilidade à noite é, em grande parte, decidida pelo que fazes entre o café da manhã e os e-mails tardios.
A boa notícia: não precisas de um tapete de ioga no escritório nem de um plano de alongamentos de 60 minutos.
Pensa em reinícios pequenos e frequentes.
A cada 45–60 minutos, levanta-te e muda de forma. Estica os braços por cima da cabeça. Roda suavemente o tronco para a esquerda e para a direita. Vai à casa de banho mais longe em vez da mais perto. Estes micro-movimentos funcionam como carregar em “atualizar” nas articulações e na fáscia, travando essa deriva lenta para a rigidez.
Se trabalhas sentada, experimenta isto uma vez por hora: senta-te direita na beira da cadeira, assenta os pés no chão e inclina lentamente a bacia para a frente e para trás, como se estivesses a verter água pela frente de uma taça e depois pela parte de trás. Vinte segundos bastam para lembrar à tua coluna que ela pode mexer-se.
Há uma razão para tanta gente só pensar em alongar quando já está rígida.
A maioria de nós vê a flexibilidade como uma solução de emergência, não como higiene diária. Lavamos os dentes sem pensar, mas passamos semanas sem mexer as ancas em toda a sua amplitude uma única vez.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.
Esquecemo-nos. Ficamos presos em reuniões, em doomscrolling, ou em e-mails que nunca acabam. Quando a rigidez aparece, sentimos que o dia já “ganhou”.
Essa culpa não ajuda.
Uma abordagem mais simpática é apontar para dois ou três pequenos “snacks de movimento” e tratar qualquer extra como bónus. Um enquanto o café está a tirar. Um ao almoço. Um antes de começares o ritual de Netflix à noite. É isso. Não perfeito, mas muito melhor do que nada.
“O corpo não está a envelhecer durante o dia”, disse-me um fisioterapeuta com quem falei. “Está apenas a repetir as mesmas formas durante tanto tempo que todas as outras formas começam a parecer inseguras.”
Para evitar que o teu corpo à noite se sinta como se estivesse embrulhado em película aderente, aqui ficam algumas alavancas simples que podes usar:
- Muda de forma muitas vezes
Fica de pé para atender chamadas, apoia-te num balcão, senta-te no chão para responder a e-mails de vez em quando. - Pensa em “alongamento fácil”, não “alongamento máximo”
Para antes do desconforto. O teu sistema nervoso responde melhor a convites suaves do que à força. - Usa gatilhos
Sempre que abres o frigorífico, olhas para o telemóvel ou carregas em “enviar” num e-mail, escolhe um movimento de 20 segundos. - Ancora um ritual à noite
Por exemplo, três movimentos lentos do pescoço e três círculos de anca antes de lavares os dentes. - Respeita o teu cérebro cansado
A noite não é o momento para tentar fazer espargata; escolhe movimentos suaves e lentos.
Repensar a flexibilidade como um estado diário, não como uma característica fixa
O teu corpo às 7h e o teu corpo às 21h não estão no mesmo estado.
Um está descansado, hidratado, menos comprimido.
O outro carregou o teu dia: o stress, os prazos, os ecrãs, a deslocação.
É por isso que a tua flexibilidade parece passar de “claro, sem problema” para “nem pensar” em poucas horas.
Não é prova de que estás fora de forma ou de que estás a “envelhecer”.
É prova de que os teus tecidos e o teu sistema nervoso estão constantemente a negociar com aquilo que lhes pedes.
Quando reparas nessa rigidez ao fim do dia, podes tratá-la como uma queixa ou como uma mensagem. Uma queixa faz-te sentir estragada: as minhas costas são más, os meus isquiotibiais são lixo. Uma mensagem é mais gentil: hoje teve um custo, e o teu corpo está a enviar a fatura em forma de tensão e resistência.
Há espaço para experimentar.
O que acontece se beberes mais água antes do almoço?
Se caminhares cinco minutos ao ar livre entre reuniões?
Se trocares uma sessão de scroll à noite por te deitares no chão e balançares suavemente os joelhos de um lado para o outro?
O teu “corpo da noite” não tem de ser uma versão frustrada e rígida de ti.
Com pequenos empurrões repetidos ao longo do dia, pode tornar-se um lugar mais macio e indulgente para viver, mesmo depois de longas horas de uma vida perfeitamente normal.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para a leitora/o leitor |
|---|---|---|
| A rigidez diária acumula-se em silêncio | Longos períodos na mesma posição, stress e fadiga mudam a forma como músculos e nervos respondem ao fim do dia | Ajuda-te a parar de culpar a idade ou a forma física e a focar-te no que podes influenciar |
| Micro-movimentos vencem sessões “heroicas” | Pequenos “snacks de movimento” ao longo do dia reduzem mais a tensão ao fim do dia do que alongamentos longos e raros | Mostra uma forma realista de te sentires mais solta sem mudares a agenda toda |
| A flexibilidade à noite é um tema do sistema nervoso | Cérebro cansado sente mais “ameaça” no alongamento, por isso rituais suaves funcionam melhor do que forçar | Incentiva hábitos mais gentis e seguros que melhoram o conforto em vez de criar dor |
FAQ:
- Porque é que me sinto mais flexível de manhã do que à noite? A coluna e as articulações estão menos comprimidas depois de estar deitada, os tecidos estão mais hidratados e o sistema nervoso está mais fresco, por isso o corpo permite mais movimento com menos resistência.
- Ficar sentada o dia todo pode mesmo afetar assim tanto a minha flexibilidade? Sim. Horas na mesma forma sinalizam ao corpo para “fixar” essa postura, por isso movimentos opostos como arquear para trás ou tocar nos dedos dos pés parecem mais apertados mais tarde.
- Alongar à noite é mau se eu me sinto rígida? Não, mas opta por alongamentos suaves e lentos, dentro de uma amplitude confortável. Alongamentos agressivos ou aos solavancos num corpo cansado podem irritar músculos e articulações.
- Com que frequência devo fazer esses “snacks de movimento”? A cada 45–60 minutos é o ideal, mesmo que seja só por 20–30 segundos. Levantar-te, rodar a coluna ou caminhar até outra divisão já ajuda.
- Preciso de um treino completo para me sentir mais solta ao fim do dia? Não necessariamente. Caminhadas regulares, exercícios leves de mobilidade e pequenas mudanças de postura durante o trabalho costumam ser suficientes para reduzir essa rigidez pesada do fim do dia.
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