Saltar para o conteúdo

Porque algumas pessoas se sentem mais calmas à noite do que de manhã

Pessoa a escrever num caderno sob luz de candeeiro, com plantas e relógio na mesa.

A notificações do Slack deixaram de gritar, o trânsito lá fora dissolveu-se num zumbido suave e distante, e alguém está a empilhar a caneca de café no lava-loiça como se fosse um ponto final no fim do dia. Olhas para o relógio: 20:47. Os teus ombros, tensos e em nó desde as 7:00, descem de repente uns milímetros. A tua respiração aprofunda-se um pouco. Não estás de férias, não aconteceu nada de espetacular e, ainda assim, o teu corpo comporta-se como se alguém tivesse baixado o volume da vida.

Reparas cada vez mais nisso: as manhãs parecem um sprint para o qual nunca te inscreveste, enquanto as noites chegam como um amigo que aparece sem avisar e que, de alguma forma, sabe exatamente quando deve chegar. Há quem fale de “alegria matinal” e de “rotinas das 5 da manhã”. Tu falas, sobretudo, de sobreviver até ao pôr do sol. Há um alívio estranho na escuridão, e não consegues bem explicar porquê.

Essa mudança silenciosa entre as 18:00 e as 22:00 esconde uma história que a tua biologia tenta contar-te há anos.

Porque é que as noites parecem mais suaves para algumas pessoas

Observa uma cidade às 7:00 e observa a mesma cidade às 21:00. É como se fossem dois planetas diferentes. De manhã, os alarmes explodem, as máquinas de café resmungam e os cérebros são empurrados dos sonhos para os prazos sem qualquer negociação diplomática. À noite, as luzes baixam, as vozes suavizam, as expectativas afrouxam. Para muitas pessoas, essa mudança não tem apenas a ver com o ruído exterior. O sistema nervoso delas respira literalmente melhor assim que o sol se põe.

Os investigadores falam de “cronótipos”, mas a maioria de nós chama-lhe simplesmente ser “pessoa da manhã” ou “coruja noturna”. Se o teu ritmo natural inclina para a noite, o mundo inteiro pode parecer fora de compasso até ao fim da tarde. O dia exige velocidade enquanto o teu corpo ainda está a “carregar”. Quando chega a noite, a pressão alivia e o teu relógio interno finalmente apanha o ritmo do horário.

Num inquérito de 2023, com mais de 4.000 adultos, realizado por uma instituição britânica dedicada ao sono, quase um em cada três inquiridos disse sentir-se “significativamente mais calmo” depois das 19:00 do que em qualquer outra altura. Vejamos a Lena, 34 anos, gestora de projetos, dois filhos. As manhãs dela são caos: meias perdidas, emails por ler, cereais no chão. O smartwatch mostra frequentemente a frequência cardíaca elevada antes mesmo de ela sair de casa. Depois das 21:00, o mesmo relógio regista uma descida constante nos indicadores de stress.

Ela não medita. Não faz ioga à frente de uma vela. Ela simplesmente existe num mundo que deixou de a picar de três em três minutos. As crianças estão a dormir. Os emails podem esperar. O telemóvel está em silêncio. Ela senta-se no sofá, embrulhada numa hoodie velha, a fazer scroll sem nada em particular. “O meu cérebro só começa a ser meu depois das oito”, diz. Para ela, a calma não é um ritual. É a ausência de exigências.

Há um guião biológico claro a correr em segundo plano. À medida que a noite se aproxima, o teu corpo aumenta a melatonina, a hormona que te prepara para dormir, enquanto o cortisol - a hormona do stress - tende a descer. A iluminação fica mais suave, os ecrãs (idealmente) diminuem o brilho e o input sensorial reduz-se. Para alguns cérebros, essa mudança é como desligar um alarme que esteve a tocar o dia inteiro.

Os psicólogos também apontam para algo mais silencioso, mas poderoso: o fecho psicológico. Quando o “dia de trabalho” termina oficialmente, quer trabalhes num escritório ou em casa, dás a ti próprio, inconscientemente, permissão para deixares de “atuar”. O risco de seres julgado ou avaliado diminui. Só isso pode tirar um peso pesado e invisível. O mundo parece menos um teste e mais um corredor onde podes andar sem estares a ser observado.

O que podes realmente fazer com esta calma da noite

Se és daquelas pessoas que se sentem mais calmas à noite, o primeiro passo prático é tratares essa calma como um recurso, não como um acaso. Em vez de deixares a noite desaparecer em scroll automático, escolhe um gesto pequeno e repetível que o prenda. Pode ser uma caminhada de dez minutos depois do jantar, um duche sem o telemóvel por perto, ou escrever três linhas desalinhadas num caderno.

O truque é usar a descida natural da tensão para criar uma espécie de “pista de aterragem” para o teu sistema nervoso. Sem objetivos gigantes. Sem “rotina perfeita”. Só uma ação que diga ao teu cérebro, todas as noites: “Estamos fora de serviço agora.” Com o tempo, o teu corpo aprende este sinal. A calma deixa de parecer um acidente às 22:30; começa a chegar mais cedo, como um comboio que lentamente começa a respeitar o horário.

Uma armadilha comum é tentar enfiar toda a tua wishlist de autocuidado dentro da noite. Acabas o trabalho, cozinhas, limpas, lidas com crianças ou mensagens e depois decides que esta é também a altura para ler 30 páginas, escrever no diário, alongar e ver um documentário sobre trabalho profundo. No papel soa ótimo. Na vida real, transformas a tua hora calma noutra janela de produtividade, só que com iluminação mais simpática.

Outro erro é sentires culpa por estares mais vivo à noite do que de manhã. A sociedade ainda tende a elogiar quem acorda cedo como se fosse moralmente superior. Se o teu cérebro aquece às 17:00 em vez das 7:00, isso não te torna preguiçoso. Só significa que a tua “cablagem” é diferente. Sê gentil contigo nessas manhãs enevoadas e deixa de medir o teu valor pelo que consegues antes do pequeno-almoço.

Um psicólogo com quem falei foi direto:

“A calma da noite não é um luxo. Para algumas pessoas, é a única altura do dia em que o sistema nervoso não está em alerta máximo. Transformar isso num crime de ‘não ser pessoa da manhã’ é um tipo muito moderno de disparate.”

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. O ritual noturno impecável, a hora de deitar sempre respeitada, o telemóvel noutra divisão. A vida fica barulhenta e caótica, e as rotinas desmoronam-se. Isso não significa que a noite te tenha falhado. Significa que és humano.

Para manter os pés assentes na terra, podes usar um guia simples:

  • Protege um pequeno bolso de silêncio: dez minutos sem ecrãs já é uma vitória.
  • Escolhe uma ação calmante, não cinco: repete-a mais do que a otimizas.
  • Repara nos sinais do teu corpo: maxilar a relaxar, ombros a descer, pensamentos mais lentos.
  • Partilha a carga em casa se puderes, para que a calma não seja só para quem tem menos tarefas.
  • Evita a performance: a tua noite não precisa de parecer “estética” para funcionar.

O que isto diz sobre a tua vida, não apenas sobre o teu horário

Quando te sentes mais calmo à noite do que de manhã, não é apenas uma peculiaridade. É feedback. O teu corpo está a votar silenciosamente na forma como os teus dias estão estruturados. Se as primeiras seis horas depois de acordares parecem uma agressão emocional e as últimas três parecem oxigénio, há algo nessa equação que merece mais curiosidade do que julgamento.

Talvez repares que pensas com mais clareza às 21:00 do que às 9:00. Talvez conversas profundas pareçam mais fáceis no escuro. Talvez a criatividade apareça precisamente quando o mundo está a fechar o portátil. Isso é informação útil. Sugere que a tua melhor energia mental vive noutro intervalo horário que não aquele que a sociedade te vende como o “certo”. Não tens de virar a tua vida do avesso para respeitar isso. Pequenos ajustes ajudam: agendar tarefas exigentes mais tarde, proteger manhãs mais lentas quando puderes, negociar horários que se encaixem no teu ritmo em vez de estares sempre a lutar contra ele.

Num plano mais profundo, a questão da calma noturna toca em algo mais íntimo: a distância entre quem és quando estás “ligado” e quem és quando o mundo deixa de olhar. À noite, sem o fato, o crachá, o papel de pai/mãe, a versão perfeita de ti que arrastas pelo dia, aparece outra versão. É mais suave. Tem tempo para pensar. Lembra-se de sonhos antigos que ficaram estacionados algures lá pelos vinte e poucos anos.

Este contraste pode ser desconfortável. Também pode ser uma bússola. Se só te reconheces depois das 20:00, talvez o objetivo não seja esmagar a tua natureza de coruja com um alarme às 5:00. Talvez o objetivo seja deixar que um pouco dessa honestidade noturna se infiltre no resto da tua vida. Falar um pouco mais devagar à tarde. Dizer que não umas horas mais cedo. Deixar o teu “eu do dia” pedir emprestada alguma coragem ao teu “eu da noite”.

Somos ensinados a perseguir blocos de produtividade, otimizar calendários e acordar “mais cedo do que a concorrência”. E, no entanto, a pergunta real por trás deste tema é mais silenciosa: a que horas é que finalmente te sentes tu? Para alguns, é logo após o nascer do sol, de bicicleta, quando as ruas estão vazias. Para outros, é sentado na beira da cama às 23:00, luzes apagadas, telemóvel virado para baixo, a respirar como se o dia finalmente tivesse afrouxado o aperto.

Essa resposta diz-te mais sobre as tuas necessidades do que qualquer livro de gestão de tempo. Não vai parecer perfeita. Nem precisa. Mas se o teu sistema nervoso continua a sussurrar “Sentimo-nos seguros quando o céu está escuro”, talvez o objetivo não seja silenciá-lo. Talvez seja ouvir, ajustar uma coisa pequena, depois outra, e lentamente transformar a tua vida num lugar onde a calma não fica limitada a umas poucas horas emprestadas depois do pôr do sol.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Cronótipos e biologia O teu relógio interno pode, naturalmente, inclinar para a calma da noite e para picos de energia mais tardios. Ajuda-te a deixares de te culpar por não seres “pessoa da manhã”.
A noite como libertação psicológica As expectativas baixam depois do horário de trabalho, reduzindo a pressão de desempenho e o stress. Explica porque é que de repente te sentes mais “tu” à noite.
Usar a calma como recurso Gestos noturnos simples e repetíveis podem treinar o teu cérebro a aceder à calma com mais frequência. Dá-te formas práticas de transformar um momento frágil num hábito sólido.

FAQ

  • Porque é que me sinto ansioso todas as manhãs mas bem à noite? O teu sistema de stress pode ser mais reativo às exigências da manhã, aos alarmes e às expectativas do trabalho. Quando essas pressões aliviam, o teu corpo sai do “modo de alerta”, fazendo com que as noites pareçam mais seguras e leves.
  • Sentir-me mais calmo à noite significa que sou uma coruja noturna? Nem sempre, mas é uma pista. Muitas corujas noturnas atingem o seu melhor rendimento mental mais tarde no dia e sentem-se desalinhadas com horários típicos das 9 às 17, o que pode tornar as manhãs mais difíceis.
  • Posso treinar-me para estar mais calmo de manhã? Sim, até certo ponto. Rotinas de acordar mais suaves, primeiras tarefas mais lentas e evitar pegar logo no telemóvel podem reduzir o choque. O teu cronótipo não muda de um dia para o outro, mas a tua experiência das manhãs pode mudar.
  • É pouco saudável sentir-me mais vivo à noite? Não é automaticamente pouco saudável. O risco surge se a energia noturna cortar regularmente no sono, deixando-te exausto. A chave é proteger descanso suficiente, não forçar-te a uma personalidade diferente.
  • E se o meu trabalho exigir começos cedo, mas eu estiver mais calmo à noite? Podes negociar pequenos ajustes: empurrar tarefas complexas para mais tarde, criar micro-momentos de silêncio de manhã e usar a calma da noite para recarregar a sério em vez de apenas “anestesiar”.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário