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Porque a memória piora com o stress e como resolver

Jovem a estudar numa mesa com caderno, portátil, ramo de lavanda, copo de água e limões cortados ao meio.

Mais depois, esqueces-te do nome de um colega numa reunião.

Entras na cozinha e ficas parado(a).
Ao que vinhas? Chaves, telemóvel, carregador? O teu cérebro vai passando separadores como um portátil prestes a bloquear. O coração ainda acelera por causa de um e-mail de há pouco, uma mensagem do teu chefe, uma notificação do banco. Ficas a olhar para o frigorífico, a fingir que estás a pensar, mas na verdade a mente está em branco.

À noite, estás a repetir conversas na cabeça, mas não te lembras do que comeste ao almoço. Os teus dias estão cheios, mas a tua memória parece vazia. Todos já passámos por aquele momento em que nos perguntamos se estamos apenas “distraídos” ou se estamos mesmo a perder o juízo.

Aqui está a reviravolta que quase ninguém te diz: muitas vezes a tua memória não está avariada.
Está é sob stress.

Porque é que o stress sequestra a tua memória em silêncio

Pensa no teu cérebro como um escritório que acabou de ser apanhado por uma inspeção surpresa.
Quando o stress aparece, tudo o resto cai para lidar com a “emergência”. Telefones tocam, dossiers são empurrados para o lado, e-mails acumulam-se por abrir. No meio desse caos, o trabalho calmo e paciente de organizar e arquivar memórias é o primeiro a desaparecer. O teu cérebro não está a ser preguiçoso. Está a fazer triagem.

O stress empurra o teu corpo para modo de sobrevivência. A frequência cardíaca sobe, a respiração fica superficial, os ombros aproximam-se das orelhas. Essa mesma resposta acontece no cérebro. A energia desvia-se para reações imediatas, não para reflexão ponderada. Lembrar-te de onde puseste o passaporte? De repente isso parece não essencial comparado com “resolve isto agora”.

Com o tempo, este modo de sobrevivência deixa de ser um visitante raro e passa a residente permanente. É aí que a memória começa mesmo a falhar.

Vê o que aconteceu durante a pandemia. Muitas pessoas relataram “nevoeiro mental” e esquecimento constante. Um inquérito no Reino Unido concluiu que mais de metade dos adultos sentiu que a sua memória piorou desde que a Covid começou. O vírus teve impacto em alguns casos, sim, mas para muita gente foi o stress crónico: preocupações com o emprego, medo pela saúde, ensino em casa à mesa da cozinha.

Imagina um jovem progenitor num pequeno apartamento em Londres. Está a trabalhar remotamente, a responder a mensagens no Slack com uma mão e a limpar compota da cara de uma criança pequena com a outra. Às 15h, o cérebro já fez malabarismos com centenas de microdecisões. Quando mais tarde se esquece de uma palavra simples a meio de uma frase, entra em pânico. “Há algo de errado comigo?”, pensa. O que está a acontecer é sobrecarga cognitiva. A memória não está a falhar isoladamente; está a afogar-se em estímulos.

O stress nem sempre se parece com ataques de pânico e lágrimas.
Às vezes é um zumbido baixo e constante por baixo da superfície. Essa tensão mantém a hormona do stress, o cortisol, ligeiramente elevada. Um pouco de cortisol ajuda-te a focar em curtos períodos. Demasiado, durante demasiado tempo, começa a interferir com o hipocampo - a parte do cérebro profundamente envolvida na memória.

Quando estás sob stress, a tua atenção estreita-se. O cérebro dá prioridade a possíveis ameaças, não a detalhes aleatórios. Por isso, lembras-te do tom agressivo daquele e-mail, mas não da hora da consulta do dentista. Não é que “tenhas má memória”. Muitas memórias nem chegam a ser bem guardadas. Sem arquivo, não há recordação. É por isso que consegues recordar uma discussão dolorosa de 2013 ao pormenor e, ainda assim, perder os óculos três vezes por semana.

Como fazer a tua memória voltar a funcionar quando estás sob stress

Começa por algo tão pequeno que quase parece parvo: uma pausa deliberada por dia.
Escolhe um sinal que já existe - ferver a chaleira, esperar pelo comboio, sentar-te na casa de banho no trabalho. Durante esse curto intervalo, não faças nada além de reparar em cinco coisas que vês, quatro que sentes no corpo, três que ouves, duas que cheiras e uma que saboreias. Só isso.

Esta microprática de ancoragem dá ao teu sistema nervoso o sinal de que o tigre já foi embora. A frequência cardíaca abranda, a respiração aprofunda um pouco. Quando repetes isto vezes suficientes, estás a ensinar o cérebro, de forma suave: estamos em segurança, podes parar de varrer o horizonte. Nesse espaço interno mais seguro, as memórias têm mais hipótese de aterrar e ficar.

Não te transforma num disco rígido ambulante.
Mas cria fendas na armadura do stress por onde a clareza pode voltar a entrar.

Um grande erro que muita gente comete é tentar “consertar” a memória com mais esforço. Compram agendas super detalhadas, descarregam três apps de produtividade, começam a codificar a semana por cores. Durante dois dias, parece incrível. Depois o sistema colapsa com o próprio peso e sentem-se pior. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Se já estás stressado(a), acrescentar rotinas rígidas pode parecer mais um exame em que estás a chumbar. Uma abordagem mais gentil é desenhar a tua vida de forma a que o teu cérebro tenha de se lembrar de menos coisas. Põe as chaves sempre na mesma taça feia ao pé da porta, mesmo que estrague a estética. Usa lembretes para tudo, não como sinal de fraqueza, mas como um ato de respeito por uma mente sobrecarregada. Memória externa não é batota; é estratégia.

Quanto mais delegas as tarefas aborrecidas, mais espaço libertas para pensar e lembrar o que realmente importa.

Um neurocientista que entrevistei há alguns anos disse algo que me ficou:

“A tua memória não vive num vácuo. Sobe e desce consoante o quão seguro o teu cérebro se sente.”

Este é o núcleo emocional de toda esta história. Quando és duro(a) contigo - “sou inútil, não me lembro de nada, o que se passa comigo?” - adicionas outra camada de stress ao problema que já tens. Uma voz interna mais suave não é apenas conversa de autoajuda; muda mesmo o teu sistema nervoso.

Aqui ficam algumas alavancas simples que podes usar quando o stress está a devorar a tua memória:

  • Reduz a tua lista de tarefas a três prioridades reais por dia.
  • Agrupa “tarefas pequeninas” numa janela de 20 minutos de foco.
  • Fica com um único sistema de registo: um caderno ou uma app, não cinco.
  • Dorme como se a tua memória dependesse disso - porque depende mesmo.
  • Mexe o corpo diariamente, nem que seja uma caminhada rápida de 10 minutos.

São pequenas, quase embaraçosamente básicas.
Mas somadas, mudam silenciosamente a forma como o teu cérebro guarda a tua vida.

Viver com um cérebro humano num mundo de alto stress

O stress não vai desaparecer. O mundo não te vai oferecer um calendário calmo e vazio e um cérebro que nunca se esquece de aniversários. O teu telemóvel vai continuar a apitar. O teu chefe vai continuar a enviar e-mails a horas estranhas. A tua família vai continuar a perguntar-te onde estão as coisas, como se tu gerisses pessoalmente as coordenadas de cada objeto da casa.

O que pode mudar é a forma como interpretas o teu esquecimento. Em vez de tratares cada falha como prova de que estás a falhar, podes começar a lê-la como dados. Como um sinal. Quando dás por ti a perder palavras, a deixar coisas em sítios diferentes, a reler a mesma frase três vezes, talvez seja o teu sistema nervoso a dizer: “Estou no limite.” Não preguiçoso. Não avariado. Apenas sobrecarregado.

Podes escolher responder com uma pequena mudança: dizer não a mais um compromisso, deitar-te 30 minutos mais cedo, fazer aquela pausa de ancoragem na casa de banho do trabalho sem culpa. Com o tempo, esses pequenos atos de autorrespeito criam um clima interno muito diferente. Um cérebro que se sente mais seguro lembra-se de mais coisas. E uma vida em que te esqueces de alguns compromissos de vez em quando pode continuar a ser uma vida em que te lembras do que conta: o rosto de alguém que amas, a piada que te fez engasgar com o chá, o momento em que percebeste que a tua memória não era o inimigo, afinal.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Stress e memória estão ligados O stress crónico perturba o hipocampo e a capacidade de codificar memórias Compreender que a memória não está “estragada”, mas sobrecarregada
Criar pausas de segurança Pequenas práticas de recentragem para acalmar o sistema nervoso Ferramentas concretas para reduzir falhas de memória relacionadas com o stress
Externalizar a memória Rituais simples, lembretes, objetos sempre no mesmo sítio Menos carga mental, mais clareza e confiança no dia a dia

FAQ:

  • Porque é que me esqueço de coisas simples quando estou sob stress, mas lembro-me de grandes discussões de há anos?
    O stress estreita o foco para tudo o que pareça uma ameaça; por isso, momentos carregados de emoção ficam gravados, enquanto detalhes do dia a dia muitas vezes nem chegam a ser bem armazenados.
  • Esta “perda de memória por stress” é permanente?
    Para a maioria das pessoas, não. Quando o stress diminui, o sono melhora e crias rotinas mais calmas, a memória costuma melhorar de forma visível ao longo de semanas e meses.
  • Posso treinar a memória enquanto ainda estou sob stress?
    Podes, mas começar por reduzir o stress e simplificar a organização costuma dar melhores resultados do que saltar diretamente para jogos de memória ou apps.
  • Devo preocupar-me com algo mais sério, como demência?
    Se o esquecimento estiver a piorar, a afetar o trabalho ou as relações, ou vier acompanhado de problemas de linguagem ou orientação, fala com o teu médico de família para excluir causas médicas e obter orientação adequada.
  • Qual é uma pequena coisa que posso experimentar hoje?
    Escolhe um momento “âncora” - fazer chá, lavar os dentes, esperar pelo autocarro - e usa-o como uma pausa de 60 segundos para respirar devagar e reparar no que te rodeia; depois coloca um objeto do dia a dia (chaves, carteira, óculos) sempre no mesmo sítio, todas as vezes, a partir de agora.

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