O ciclo de lavagem termina, o tambor abranda e ouve-se aquele clique familiar do trinco da porta.
Abre-a, pronto para aquela sensação de roupa acabada de lavar… e, em vez disso, sai um cheiro ténue a cão molhado e meias velhas. Lava outra vez, mais quente desta vez. Detergente extra. Talvez um reforçador de fragrância, para garantir. O mesmo cheiro. Talvez pior.
Então começa a perguntar-se se a máquina está avariada, ou se a roupa de toda a gente cheira discretamente mal e ninguém fala disso. Uns amigos juram que o vinagre é que resulta, o TikTok jura por pastilhas da máquina da loiça, as marcas juram que as cápsulas são a solução. O mistério cresce sempre que abre a porta e leva com aquele bafo rançoso. Há claramente alguma coisa a viver ali dentro. Algo que gosta de calor, água e escuridão.
E não vai embora só porque carregou no botão dos “90°C”.
Porque é que a sua máquina de lavar ainda cheira mal, mesmo após um ciclo quente
Aproxime-se de uma máquina “limpa” e cheire mesmo o tambor. Não o amaciador fresco na roupa de hoje, mas o metal, a borracha, o ar lá dentro. Aquela nota azeda, a pântano? Isso é biofilme - uma palavra simpática para camadas de resíduos de detergente, células da pele, óleos corporais e micróbios a prosperar, colados a todos os cantos escondidos.
Os ciclos quentes modernos raramente ficam quentes o suficiente, durante tempo suficiente, para remover essa sujidade. Especialmente nos programas eco. Por isso, a máquina parece impecável, mas lá no fundo das dobras da borracha da porta, no canal da gaveta, à volta do filtro, as coisas estão a apodrecer em silêncio. A água quente só as aquece. E depois, quando fecha a porta e vai à sua vida, aquela caixa morna e húmida transforma-se num pequeno spa para bactérias e bolor.
Num inquérito no Reino Unido, mais de metade das famílias disse que a máquina de lavar tinha um cheiro desagradável pelo menos uma vez por mês. Muitos acharam que a resposta era “mais uma lavagem quente com detergente extra”. A lógica parece justa: mais calor, mais sabão, mais limpeza. Uma mãe com quem falei em Manchester contou que fez três lavagens a ferver num só fim de semana, a tentar eliminar um cheiro que “se sentia desde o corredor”.
O que ela não via era a gosma acinzentada a forrar a gaveta do detergente e a espécie de panqueca grossa de cotão no filtro, atrás de um pequeno painel em baixo. O tambor parecia brilhante, por isso assumiu que a máquina estava limpa. Quando um canalizador finalmente tirou o filtro, o fedor “devia ter limpado a rua”. E sim, ela lavava lá roupa de bebé todos os dias.
Pense na sua máquina de lavar menos como uma chaleira e mais como um cano de lava-loiça. Água quente a correr não resolve magicamente anos de acumulação nas paredes. Os fabricantes de detergentes incentivaram ciclos mais frios e mais curtos, e os nossos hábitos seguiram o mesmo caminho. Isso significa mais resíduos a ficarem para trás em zonas de pouco fluxo. Pó que nunca chega a dissolver por completo. Detergente líquido que se agarra ao plástico. Amaciador que fica pegajoso e alimenta o bolor.
Um ciclo quente é ótimo para a roupa, mas quase não toca nas entranhas escondidas da máquina. Essas dobras da borracha, curvas dos tubos e filtros nunca levam uma esfregadela - a menos que lha dê. Assim, a cada lavagem, um pouco desse cocktail velho e azedo volta a misturar-se na água, perfuma as toalhas e fixa-se no nariz como “cheiro a máquina de lavar”.
Como eliminar mesmo o cheiro (e mantê-lo longe)
Comece com um dia de “limpeza profunda”, em que trata a máquina como um eletrodoméstico, não como uma caixa mágica. Puxe a gaveta do detergente para fora, toda para fora, e veja por baixo e por trás. Se vir manchas pretas ou limo, aí está o cheiro. Ponha a gaveta de molho em água quente com detergente, esfregue com uma escova de dentes velha e depois enxague e seque.
Depois, abra a porta e, na borracha, puxe suavemente a aba de borracha. Seque qualquer água acumulada e limpe a sujidade escondida nas dobras. Se conseguir aceder ao painel do filtro na parte inferior frontal da máquina, ponha uma bandeja ou toalha por baixo, desenrosque e deixe a água presa escorrer. Limpe bem o próprio filtro. De seguida, faça uma lavagem de manutenção sem roupa na temperatura mais alta, com um limpa-máquinas específico ou uma chávena de vinagre branco no tambor e uma pitada de bicarbonato de sódio na gaveta.
A maioria das pessoas falha nas pequenas rotinas aborrecidas que evitam que o cheiro volte. Deixar a porta fechada entre lavagens prende a humidade e dá ao bolor um parque de diversões. Usar detergente a mais deixa uma película pegajosa. Usar amaciador em todas as lavagens entope o sistema ainda mais depressa. Sejamos honestos: ninguém faz isto direitinho todos os dias.
Se puder, habitue-se a deixar a porta e a gaveta ligeiramente abertas após cada lavagem, nem que seja só uma frincha. Passe a usar a dose medida de detergente - a linha na tampa, não “mais um bocadinho, para o caso”. Uma vez por mês, faça um ciclo de manutenção quente sem roupa nenhuma. Parece desperdício, mas sai mais barato do que uma máquina nova ou a visita de um técnico.
“As pessoas acham que uma máquina de lavar com mau cheiro está avariada”, diz um técnico de reparações de Birmingham. “Nove vezes em dez, é só porque nunca foi bem limpa por dentro. Limpam as superfícies da cozinha, mas esquecem a máquina que toca em todas as meias, lençóis e bodies de bebé da casa.”
- Limpe a borracha da porta e o vidro uma vez por semana com um pano de microfibra.
- Limpe a gaveta do detergente e o compartimento uma vez por mês.
- Faça um ciclo de manutenção quente, vazio, mensalmente ou a cada 30 lavagens.
- Use ciclos de centrifugação muito alta com moderação para reduzir a humidade retida.
- Considere trocar amaciadores líquidos muito “pesados” por alternativas mais leves ou bolas de secagem.
Viver com uma máquina que realmente cheira a limpa
Há uma pequena, mas muito real, mudança de humor quando a sua roupa deixa de cheirar “um bocado estranho” e passa a cheirar a… quase nada. Só limpo. Abre o tambor e sente ar neutro, não aquele toque a balneário escondido atrás do jasmim. As toalhas secam sem aquele fundo húmido. A lavandaria deixa de ser o sítio por onde passa a correr.
Também é estranhamente satisfatório perceber o que acontece por baixo da superfície. Depois de ver a lama que se pode acumular no filtro, começa a tratar a máquina com o mesmo respeito silencioso que dá à caldeira ou ao carro. Dá por si a limpar a borracha sem pensar, ou a alinhar o ciclo quente mensal com o dia das toalhas. Pequenos rituais que parecem picuinhas quando os lê, mas que entram na vida real com quase nenhum esforço, quando já estão instalados.
E a conversa muda também. Aquele vizinho que perguntou, envergonhado, se a sua máquina alguma vez cheira mal? De repente tem respostas a sério, não truques ao acaso. O adolescente cujo equipamento desportivo tinha um cheiro permanente? As leggings finalmente saem genuinamente frescas. O colega de casa convencido de que o senhorio tem de trocar a máquina? Assiste, com um ligeiro horror, a um filtro cheio de cotão cinzento e moedas a explicar todo o mistério.
Talvez esta seja a verdade silenciosa por trás deste problema tão doméstico: esperamos que os nossos eletrodomésticos cuidem de nós, mas eles também precisam discretamente de nós. Um pouco de atenção, um pouco de limpeza e a vontade de abrir a porta e cheirar o que realmente se passa. Depois de o fazer, a sua rotina de lavagem parece igual por fora - cápsula lá para dentro, seletor no programa, botão de início. Mas o ar que sai quando o ciclo acaba conta uma história diferente.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| O ciclo quente não chega | Os ciclos modernos são mais curtos, menos quentes e não atingem as zonas escondidas com resíduos acumulados. | Perceber porque é que o problema persiste apesar das lavagens a alta temperatura. |
| A limpeza manual é indispensável | Gaveta, borracha, filtro e tambor devem ser limpos regularmente com gestos simples. | Ter um plano concreto para eliminar de vez os maus cheiros. |
| Pequenos hábitos mudam tudo | Portas entreabertas, dose correta, ciclo de manutenção mensal, menos amaciador. | Evitar que os odores voltem sem perder horas nem gastar uma fortuna. |
FAQ:
- Porque é que a minha máquina de lavar cheira mal mesmo depois de uma lavagem a 90°C?
Porque a água quente circula sobretudo pelo tambor, não pelos cantos escondidos onde o biofilme, os resíduos de detergente e o bolor ficam colados. Essas zonas precisam de limpeza manual e de ciclos de manutenção regulares.- É seguro usar vinagre e bicarbonato de sódio na máquina?
Em quantidades moderadas, sim, para a maioria das máquinas. Uma chávena de vinagre branco no tambor e duas colheres de sopa de bicarbonato na gaveta podem ajudar, mas evite fazer isto todas as semanas e confirme sempre as recomendações do fabricante.- Com que frequência devo limpar o filtro?
Numa máquina de uma família típica, a cada um a três meses é um bom ritmo. Se tiver animais, muitas peças felpudas ou água muito dura, mensalmente é mais sensato.- Máquinas de lavar com mau cheiro podem deixar a roupa a cheirar mal mesmo quando está “limpa”?
Sim. Bactérias que causam odores e esporos de bolor podem permanecer na máquina e transferir cheiros subtis e bafientos para a roupa, sobretudo toalhas, roupa de ginásio e sintéticos.- Vale a pena comprar produtos específicos para limpar máquinas de lavar?
Podem ajudar, especialmente numa primeira limpeza profunda, mas não fazem milagres sozinhos. A diferença real vem de os combinar com limpeza física da gaveta, da borracha e do filtro, além de melhores hábitos no dia a dia.
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