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Plano de parque eólico divide moradores rurais à medida que as torres se erguem sobre os campos.

Homem idoso com chapéu conversa com outro homem que segura um tablet, junto a uma placa de "propriedade privada".

A primeira coisa que se nota é o ruído - ou a falta dele. Numa manhã calma de finais de outono, Halesford costumava acordar com corvos e o zumbido baixo dos tractores. Agora, na orla de um campo de cevada, torres brancas entraram no horizonte, com as pás a girarem devagar. Alguns residentes dizem que mal as ouvem. Outros garantem que o som entra em casa e chega ao quarto.

Na mercearia, a conversa alterna entre contas de electricidade, aves, trânsito de obras e preços das casas. Há uma petição plastificada ao lado da caixa, encostada a uma tômbola para a escola. Agricultores mais velhos cruzam os braços. Famílias mais novas abrem mapas no telemóvel com os aglomerados de turbinas planeados.

Toda a gente olha para os mesmos campos - mas imagina futuros diferentes.

Quando o horizonte muda, a aldeia muda também

Na crista acima de Halesford já se erguem cinco turbinas, cada uma mais alta do que a torre da igreja que antes dominava a vista. Ao longe parecem elegantes; de perto, a escala pesa. A base é maior do que parece nas maquetes e as pás ocupam um volume que não cabe numa fotografia.

As reacções também mudam com a distância. Crianças de bicicleta param para ver. Quem passeia o cão tira o telemóvel: uns por orgulho, outros para registar “a intrusão”. As turbinas não ficam só no campo - passam a estar nas conversas, e isso é o que mais divide.

O caso dos Martins mostra a fricção típica: a exploração deles fica dentro da área do projecto. O promotor ofereceu um contrato de arrendamento - rendimento estável num sector imprevisível - e eles aceitaram, com alívio e culpa ao mesmo tempo. Já a vizinha Sarah, com vista directa, não assinou nada: não recebe renda, recebe a nova paisagem e o receio de que a casa perca interesse no mercado.

É aqui que aparece a linguagem dura de “vencedores e vencidos”, num sítio onde, até ontem, os filhos apanhavam todos o mesmo autocarro.

O conflito raramente é só “ruído vs. clima”. Muitas vezes é “quem decide” e “quem paga o preço”. E os detalhes práticos contam: tráfego pesado em caminhos rurais, lama, horários de obra, e o efeito de sombra intermitente (shadow flicker) ao fim da tarde - algo que, em muitos projectos, se mitiga com programação de paragens em momentos específicos, se estiver bem medido e acordado.

Se recuarmos a partir de Halesford, o padrão repete-se. Promotores procuram cristas ventosas e terrenos disponíveis; câmaras municipais pesam metas energéticas e contestação local. Os avisos aparecem em placards - e, em Portugal, muitas decisões passam também por consulta pública e por documentação técnica que poucos conseguem “traduzir” para a vida real.

Economistas falam de megawatts e carbono evitado. Os locais falam do que conseguem medir com o corpo: sono, vista, trânsito, vibração, luzes nocturnas. Ambos usam números (decibéis a certas distâncias, espécies afectadas), mas por baixo está uma pergunta menos quantificável:

Quem decide para que serve uma paisagem - e qual ideia de “progresso” ganha.

Como as comunidades navegam, na prática, uma batalha por um parque eólico

O primeiro ponto de viragem em Halesford não foi numa reunião formal. Foi no salão da aldeia, numa terça-feira, com café fraco, quando um grupo pediu duas coisas simples: um mapa grande, impresso, e perguntas e respostas em linguagem normal.

O mapa ficou sobre mesas. As pessoas circularam, apontaram para a sua casa, para a estrada da escola, para a linha de água. Um engenheiro reformado ajudou a “trazer a escala” para o chão. Um casal perguntou por benefícios concretos (por exemplo, apoio a eficiência energética local, não só promessas vagas). A conversa continuou tensa, mas deixou de parecer que tudo se decidia num escritório distante.

Deu menos sensação de luta e mais de negociação.

O que mais aumenta o stress, segundo quem já passou por isto noutras aldeias, é a sensação de exclusão: reuniões em cima da hora, documentos incompreensíveis, grupos nas redes sociais onde a nuance desaparece. Há medidas simples que tendem a baixar a temperatura:

  • Dar tempo real para ler e visitar o local (incluindo ver e ouvir em dias diferentes; o vento e a humidade mudam a percepção do som).
  • Trocar siglas por frases directas: “vai mudar esta vista”, “vai haver camiões aqui”, “esta turbina fica a X metros”.
  • Pedir uma linha de base antes da obra: medições de ruído no local, para depois comparar com o “depois” e evitar discussões sem prova.

Em Portugal, vale a pena lembrar uma regra prática: o ruído é avaliado por critérios legais e técnicos (incluindo período nocturno) e não apenas por “parece-me alto”. Quando há dúvidas, a diferença entre conflito eterno e resolução rápida costuma ser ter medições independentes, por entidades competentes, com metodologia clara e resultados partilhados.

Antes da votação final em Halesford, a junta de freguesia pediu um mediador independente. Ele obrigou ambos os lados a dizerem não só o que queriam, mas o que temiam. Daí saiu uma lista curta - não perfeita, mas mais justa - com compromissos verificáveis (e não só “vamos ter isso em conta”):

  • Limitar tráfego de obras nos horários de entrada/saída da escola e definir rotas para camiões (com fiscalização local).
  • Criar um fundo comunitário com regras simples: quanto entra, para onde vai, quem decide, e prestação de contas pública.
  • Oferecer medições de ruído independentes e gratuitas para as casas mais próximas, com repetição após a entrada em funcionamento.
  • Publicar dados de monitorização (ruído, paragens, reclamações resolvidas) em linguagem clara.
  • Rever iluminação e sinalização ao fim de 2 anos com base em incidentes reais e possibilidade de ajustes.
  • Clarificar desde início o “fim de vida”: quem remove, quem repõe o terreno e que garantias existem para isso.

Não transformou opositores em fãs. Mas tirou parte da fúria e substituiu-a por uma aceitação cautelosa - e por pontos concretos a vigiar.

Viver com torres no horizonte

Meses depois de as pás começarem a girar, o drama baixa, mas os sentimentos ficam. As turbinas tornam-se parte do mapa mental, como linhas de alta tensão ou marcos antigos. Para alguns, o zumbido continua a ser uma irritação diária. Para outros, a presença torna-se quase invisível - excepto quando uma pá reluz ao pôr do sol e “puxa” o olhar.

As conversas mudam de “conseguimos travar isto?” para “o que fazemos com isto agora”. O fundo comunitário financia painéis solares no salão da aldeia. A escola primária usa o tema para projectos. Um alojamento local acrescenta “perto do parque eólico” e começa a receber trabalhadores e curiosos.

A divisão não desaparece. Aprende a viver ao lado das pás - e, quando há mecanismos de monitorização e resposta, tende a tornar-se menos corrosiva.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
As batalhas pela paisagem são, na verdade, sobre controlo O conflito costuma ser sobre quem decide e como se distribuem impactos (vista, ruído, trânsito) e benefícios (renda, fundos, apoios) Ajuda a discutir o tema sem reduzir tudo a “a favor/contra”
Diálogo cedo e honesto muda resultados Mapas à escala, linguagem simples, tempo para ler e visitar, e admitir perdas reais evitam polarização desnecessária Dá-lhe formas práticas de exigir transparência antes de “já ser tarde”
Benefícios e encargos podem ser partilhados de forma mais justa Fundos comunitários com regras claras, limites de tráfego e monitorização independente não resolvem tudo, mas reduzem injustiças Dá opções de negociação concretas (e auditáveis)

FAQ:

  • Os parques eólicos reduzem mesmo assim tantas emissões? Em muitos casos, sim: depois de “pagar” o carbono da construção, uma turbina produz electricidade de baixo carbono durante anos. O ganho real depende do mix eléctrico que está a substituir (se ainda houver produção fóssil significativa, o benefício tende a ser maior).
  • Um parque eólico próximo baixa o preço da minha casa? A evidência é mista. Quando há efeito, tende a concentrar-se em casas com vista directa e/ou queixas de ruído, e muitas vezes é mais visível no curto prazo. O contexto local (procura, acessos, paisagem) pesa muito.
  • Uma comunidade pode realmente dizer não a um projecto eólico? Depende do licenciamento e do enquadramento. Mesmo quando não há “poder de veto”, comentários bem fundamentados podem alterar localização de aerogeradores, acessos, horários de obra, medidas de mitigação e condições de monitorização.
  • O que conta como um benefício comunitário justo? Não é só “um cheque”. Funciona melhor quando é transparente (valores, critérios, auditoria), decidido localmente e convertido em melhorias úteis (eficiência energética, equipamentos comunitários, apoio social, mobilidade).
  • É tarde demais para me envolver quando as torres já estão de pé? Não. Depois de operar, há espaço para vitórias práticas: medições e correcções de ruído, ajustes de iluminação, gestão de shadow flicker, melhoria de caminhos e regras claras para o uso dos fundos comunitários.

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