Estás a lavar os dentes, a fazer scroll no telemóvel, a ouvir um podcast… e, de repente, lá está a cara deles: o/a ex, a amiga que deixaste de responder, o chefe que te encolhia na cadeira.
Mudas de divisão, de música, de humor. Mas a imagem volta. Não é necessariamente amor nem obsessão. Muitas vezes é só a tua mente a insistir num “assunto” que ficou por fechar.
Porque é que a tua mente continua a repetir alguém que já ficou para trás
A mente raramente repete sem motivo. Quando uma pessoa regressa em loop, muitas vezes não é sobre “a pessoa” - é sobre o que ficou pendente contigo naquele capítulo.
O que costuma estar por trás:
- Falta de encerramento: uma conversa que não aconteceu, um pedido de desculpa que ficou preso, uma verdade que não disseste.
- Emoções engolidas: raiva, vergonha, culpa, saudade. O corpo “guarda” o que não foi processado.
- Associação a gatilhos: um sítio, um cheiro, uma música, stress ou rejeição atual podem reativar memórias antigas (e a emoção vem atrás).
Exemplo comum em terapia: alguém pensa numa amizade antiga (sem romance), anos depois, e percebe que o que dói não é a pessoa - é o arrependimento de nunca ter assumido ciúmes, medo ou mágoa.
Também vale uma nota importante: se os pensamentos são intrusivos, muito angustiantes, ou vêm com sintomas de ansiedade/trauma (sobressaltos, evitamento, ataques de pânico), pode não ser “só nostalgia”. Nesses casos, ajuda profissional pode acelerar muito o processo.
A ideia central é simples: o cérebro usa rostos familiares como marcadores de capítulos por fechar. A mente gosta de sentido e de conclusão - e incomoda-se com “páginas em branco”.
Como ler a “mensagem” que os teus pensamentos estão a tentar enviar
Em vez de empurrares o pensamento para longe, experimenta aproximar-te dele com método. Uma ferramenta conhecida em terapia é a técnica da cadeira vazia (ou “conversa da cadeira mental”).
Como fazer (10 minutos, sem dramatizar):
- Senta-te e imagina a pessoa numa cadeira à tua frente.
- Diz (idealmente em voz alta) a versão crua: o que te faltou dizer, o que doeu, o que querias.
- Troca de “cadeira” e responde como essa pessoa provavelmente responderia (não como tu gostavas).
- Fecha com uma frase tua, no presente: “O que eu precisava era…”, “O que eu escolho agora é…”.
Duas regras úteis:
- Foca no que sentiste e precisaste, não em “provar” quem tinha razão.
- Se a emoção subir demasiado (choro forte, aperto no peito), pausa: respira devagar, pousa os pés no chão, volta ao exercício quando estiveres mais estável.
O que esta repetição costuma estar a tentar dizer (exemplos realistas):
- “Eu não me senti visto/a.”
- “Traí-me para agradar.”
- “Tenho saudades de quem eu era naquela fase - mais do que da pessoa.”
Armadilha comum: achar que pensar muito em alguém significa que tens de contactar. Muitos terapeutas sugerem primeiro perguntares:
Isto é sobre reconectar com a pessoa - ou sobre reconectar com uma parte de mim que ficou calada?
Perguntas simples para decifrar a mensagem:
- Que cena específica volta mais?
- O que eu queria ter dito/feito naquele momento?
- A primeira emoção é raiva, vergonha, nostalgia, alívio…?
- O que na minha vida atual está a tocar na mesma ferida (stress, rejeição, solidão, mudança)?
- Se eu nunca mais pudesse falar com esta pessoa, o que eu teria de aceitar para seguir?
O que fazer com a história por resolver que o teu cérebro está a repetir
Depois de identificares a “mensagem”, o passo seguinte deve ser pequeno e concreto - não uma grande reviravolta.
Uma prática com boa relação esforço/benefício: escrever uma carta que não vais enviar (idealmente à mão). O destinatário aparente é a pessoa; o destinatário real és tu.
O que incluir (curto e direto):
- O momento que ficou preso.
- O que sentiste e do que precisavas.
- O que lamentas e o que aprendeste.
- Uma linha de fecho: o que levas contigo e o que deixas no passado.
Erros frequentes (e como evitar):
- Agir fora antes de agir dentro: mandar mensagem “para fechar” pode reabrir dinâmicas e prolongar a ruminação. Primeiro clarifica o objetivo do contacto (desculpa? resposta? validação?).
- Usar redes sociais como anestesia: “só uma olhadela” muitas vezes aumenta o loop. Se estás vulnerável, limita o scroll nostálgico por um período.
- Autojulgamento (“sou patético/a”): a vergonha faz-te fugir da mensagem. Troca julgamento por curiosidade: “isto está a aparecer por uma razão”.
Pontos de ancoragem práticos (sem complicar):
- Repara quando aparece (à noite, depois de stress, depois de te sentires rejeitado/a) e dá nome ao gatilho.
- Conta a história uma vez a alguém seguro (ou escreve), em vez de a repetires em círculo.
- Traz para a tua rotina uma coisa boa dessa fase (um hobby, um tipo de música, uma caminhada) - sem idealizar a pessoa.
- Considera terapia se interfere com sono, trabalho, relações atuais, ou se a história envolve abuso/trauma. E se a relação foi insegura, prioriza segurança: nem todo o “encerramento” passa por contacto.
Viver com os fantasmas sem os deixar mandar no guião
O objetivo raramente é “nunca mais pensar”. É mudar a qualidade do pensamento: de picada para lembrança; de urgência para compreensão.
Caras antigas vão aparecer num autocarro cheio, numa noite silenciosa, numa música que te devolve a outra idade. Isso não prova que estás preso/a ao passado. Muitas vezes é a vida a pedir-te para rever padrões: como te ligas, como te defendes, como te despedes, como pedes desculpa.
Não precisas de escolher uma versão única da memória (boa ou má). Algumas histórias são mistas - e aceitar isso costuma ser parte do fecho.
Se essa pessoa continua a voltar aos teus pensamentos, podes empurrar de novo. Ou podes parar uma vez, ouvir com calma e perguntar: “o que é que isto quer proteger, ensinar ou libertar em mim?” A cara é deles. A mensagem, muitas vezes, é tua.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| O pensamento recorrente não é aleatório | Costuma sinalizar um capítulo emocional aberto (falta de conversa, culpa, tristeza, necessidade não dita) | Normaliza o fenómeno e aponta para “o que falta” |
| A “conversa mental” ajuda a decifrar a mensagem | A técnica da cadeira vazia torna claro o que ficou preso e o que ainda precisas hoje | Ferramenta rápida, prática, para fazer em casa |
| Agir primeiro por dentro, não na vida real | Carta não enviada, limites nas redes, menos impulsividade no contacto | Evita recaídas e reduz ruminação |
FAQ:
Pensar muito em alguém significa que ainda estou apaixonado/a por essa pessoa?
Nem sempre. Pode ser amor, mas muitas vezes é falta de encerramento, culpa, vergonha, ou saudades de uma versão de ti nessa fase.Devo contactar a pessoa em quem não paro de pensar?
Só depois de perceberes o objetivo. Se procuras validação, resposta ou “alívio rápido”, o risco de reabrir a ferida é maior. Se houve abuso ou relação insegura, prioriza segurança e apoio profissional.Porque é que de repente penso em alguém de há anos, do nada?
Muitas vezes há um gatilho: cheiro, música, lugar, stress, solidão, ou uma situação atual parecida com a antiga.Durante quanto tempo é “normal” pensar num/a ex ou num/a amigo/a do passado?
Não há prazo. Torna-se problema quando interfere com a vida diária, sono, trabalho, relações atuais, ou quando a angústia se arrasta durante muito tempo.A terapia pode mesmo ajudar com alguém que não vejo há anos?
Sim. Não precisas da outra pessoa presente para fechar o teu lado da história - e isso costuma mudar o peso que a memória tem no teu presente.
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