Saltar para o conteúdo

Pare de dar conselhos deste tipo, que silenciosamente destroem a autoestima.

Mulher sentada num sofá segurando uma caneca, com um livro aberto no colo e uma bandeja ao lado.

A rapariga na esplanada do café não estava a chorar, mas via‑se que estava perto disso. A amiga inclinou-se sobre a mesa, inspirou fundo e disse aquele tipo de frase que soa gentil, parece gentil, e ainda assim corta como vidro: “Não sejas tão dura contigo. Sê só mais confiante.”

A rapariga acenou, sorriu de forma fraca e ficou a olhar para o café.

Sentia‑se o fosso entre as palavras e a realidade dela. Aquele pequeno ardor invisível quando alguém te dá um conselho que soa motivador, mas na verdade diz: “Tu, como és, não chegas.”

Ouvimos este tipo de conselho no trabalho, no TikTok, em jantares de família. Está em canecas, em carrosséis, bordado em stories pastel no Instagram.

Alguns destes conselhos destroem, em silêncio, a autoestima.

“Sê só confiante” e outras frases falsamente úteis

Vê qualquer grupo de amigos a falar sobre um término, uma má nota, ou uma entrevista de emprego que correu mal, e vais ouvir a mesma playlist: “Não penses tanto nisso.” “Deixa de ser tão sensível.” “Só tens de te amar mais.”

À superfície, soa a apoio. Soa a crescimento, empoderamento, responsabilidade pessoal.

Mas ouve por baixo das palavras. O que a pessoa realmente ouve é: “Os teus sentimentos, agora, estão errados. A tua forma de reagir é um problema. Corrige-te, e depressa.”

Imagina isto. Arrastas-te para o escritório depois de uma apresentação brutal que descarrilou. O teu gestor senta-te e diz, a sorrir: “Tu és ótima, só precisas de transmitir mais confiança da próxima vez. Acredita em ti!”

Voltas para a secretária com este feedback quente e brilhante… e sentes-te estranhamente pior.

Em vez de “Posso melhorar os slides, treinar as respostas, pedir coaching”, o teu cérebro ouve: “O problema é a minha personalidade. A minha falta de confiança é a verdadeira falha. Os outros lidam com isto melhor.”

Esse é o veneno escondido neste tipo de conselho: aponta à identidade, não ao comportamento.

Não diz: “Aqui vai um passo pequeno e exequível.” Diz: “Torna-te uma pessoa diferente.”

Quando o conselho ataca a forma como te sentes, em vez do que podes efetivamente fazer, cria uma guerra subtil dentro de ti. Começas a duvidar das tuas reações, das tuas necessidades, do teu ritmo. Aos poucos, passas de “cometi um erro” para “eu sou um erro”.

É nessa mudança que a autoestima começa a estalar.

Como parar de dar conselhos que magoam mais do que ajudam

Se apanhares a tua boca a preparar-se para dizer “Sê só mais confiante”, pára. Troca conselhos sobre identidade por apoio concreto.

Pergunta: “Queres ideias, ou queres só que eu te ouça?” Depois segue a resposta como se fosse um mapa.

Em vez de empurrares alguém para sentir de forma diferente, foca-te no que essa pessoa pode fazer a seguir: uma chamada que pode fazer, um guião que pode experimentar, um limite que pode estabelecer. Passos pequenos, aborrecidos, práticos - muitas vezes aí está a verdadeira magia.

Há uma razão para tantos conselhos “feel-good” soarem iguais: “Pensa positivo.” “Não desistas.” “Tu consegues.” Repetimo-los porque nos sentimos desconfortáveis com a dor dos outros. Queremos arrumá-la depressa.

O problema é que estas frases muitas vezes chegam como julgamento disfarçado de gentileza. “Não sejas tão negativo” pode traduzir-se em “O teu medo é irritante.” “És mais forte do que isto” pode soar a “Não tens direito a fraquejar.”

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ninguém “se ama” por comando nem “deixa de pensar demais” só porque alguém o disse numa reunião ou num podcast.

Às vezes, o conselho mais poderoso é simplesmente: “Não estás maluco por te sentires assim.”

  • Deixa de diagnosticar, começa a descrever
    Troca rótulos como “demasiado sensível” ou “demasiado carente” por descrições do que vês: “Pareces mesmo sobrecarregada; queres falar sobre o que te está a pesar?”

  • Troca slogans por concretos
    Em vez de “Sê mais confiante”, tenta: “Da próxima vez, queres treinar o teu pitch comigo para te sentires um pouco mais segura?”

  • Valida antes de sugerires
    Diz o que é verdade agora: “Isso parece mesmo difícil.” Deixa os sentimentos existirem e, depois, pergunta se quer ideias.

  • Respeita ritmos diferentes
    Nem toda a gente cura, decide ou se afirma ao mesmo ritmo. Conselho que ignora o ritmo do outro parece uma crítica silenciosa.

  • Pergunta, não assumes
    Um simples “O que é que te seria mais útil?” muitas vezes cura mais do que dez minutos de discursos motivacionais.

O tipo de apoio que realmente constrói autoestima

A autoestima real não cresce por alguém te dizer para “fazer upgrade ao teu mindset”. Ela cresce cada vez que te deixam ser plenamente humano à frente de alguém - e essa pessoa não recua.

Constrói-se quando um chefe diz: “Isto foi duro. Vamos desmontar o que aconteceu e trabalhar em duas coisas para a próxima vez”, em vez de: “Só precisas de ter mais pele dura.”

Cresce quando um amigo diz: “Claro que estás ansiosa. Qualquer pessoa estaria,” e fica contigo no silêncio, sem te apressar a ficares “melhor”.

Todos já vivemos esse momento em que a presença simples e assente de alguém curou mais do que cem frases de autoajuda.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Identificar conselhos “simpáticos” nocivos Frases focadas na identidade (“sê mais confiante”, “deixa de ser tão sensível”) Reconhecer o que mina, em silêncio, a autoestima
Mudar para apoio concreto Perguntar o que é necessário, oferecer ações pequenas e exequíveis Dar ajuda que realmente muda situações
Proteger relações Validar sentimentos antes de sugerir soluções Construir confiança em vez de ressentimento escondido

FAQ:

  • Pergunta 1
    Como é que respondo quando alguém me diz “Sê só mais confiante”?
    Podes responder algo como: “A confiança ajudava, sim. Que coisa específica achas que eu podia fazer de forma diferente da próxima vez?” Isto move, com delicadeza, a conversa de uma crítica vaga à personalidade para apoio prático.

  • Pergunta 2
    Todo o conselho é mau para a autoestima?
    Não. Conselhos que se focam em comportamentos, competências e opções tendem a ajudar. O que vai corroendo a autoestima é o conselho que ataca quem tu és ou como te sentes, sobretudo com frases do tipo “és demasiado…”.

  • Pergunta 3
    O que posso dizer em vez de “Deixa de ser tão sensível”?
    Experimenta: “Vejo que isto te afeta mesmo, e quero perceber porquê,” ou “A tua reação importa; podes dizer-me mais sobre o que está por trás disso?” Em vez de envergonhares a sensibilidade, estás a honrá-la.

  • Pergunta 4
    Como é que deixo de dar este tipo de conselho se é automático para mim?
    Começa por acrescentar uma micro‑pausa antes de falares. Pergunta-te: “Estou a julgar os sentimentos dela, ou a apoiar as escolhas dela?” Com o tempo, essa pausa vira hábito e a tua linguagem muda naturalmente.

  • Pergunta 5
    E se eu precisar mesmo de dar feedback duro?
    Podes ser honesto sem atacar a identidade. Descreve o comportamento específico, o impacto, e uma ou duas coisas que podem mudar. Mantém o foco na situação, não no valor da pessoa.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário