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Para travar o avanço do deserto, a China aposta numa “Grande Muralha Verde” com milhares de milhões de árvores.

Homem com chapéu de palha planta muda no deserto, rodeado de árvores alinhadas e regador ao lado.

Através do Gobi, ouve-se primeiro um bramido baixo; depois, um borrão em movimento, como uma cortina cinzenta e suja a arrastar-se pelo horizonte. À beira do deserto, no norte da China, os agricultores param e viram as costas, com os olhos semicerrados, enquanto a areia lhes pica a pele e se enfia em todas as dobras da roupa. A poucos quilómetros, uma linha de choupos jovens estremece, troncos finos vergados mas firmes. Alguém plantou aqui um muro. Não de betão ou aço, mas de ramos e folhas.

Um homem de meia-idade, de boné desbotado, calca com a bota a terra gretada em volta de uma muda. O pai dele atravessou estas terras descalço; o filho talvez cresça com relva debaixo dos pés se estas árvores sobreviverem. Ele aponta para a névoa ao longe e encolhe os ombros. “Esse é o nosso inimigo”, diz. Quer dizer o deserto. E quer dizer também o tempo.

A China decidiu combater os dois.

O dia em que o deserto bateu à porta

Nas imagens de satélite, o norte da China parece estar a ser apagado lentamente. Amarelos e beges mancham o mapa, avançando sobre manchas verdes que antes significavam pastagens, pomares, aldeias. Cá em baixo, é menos abstrato. É o dia em que acordas e percebes que as dunas estão mais perto do que no ano passado. O dia em que a areia se deposita na mesa da cozinha mesmo com as janelas fechadas.

Pequim conhece bem essa sensação. As tempestades de areia da primavera, que pintam o céu da capital de laranja, tornaram-se imagens virais, mas para quem vive perto do Gobi são rotina. Foi esta ameaça rastejante que levou a China, no final da década de 1970, a imaginar algo quase absurdo na escala: uma “Grande Muralha Verde” a estender-se por milhares de quilómetros, com dezenas de milhares de milhões de árvores lado a lado, como soldados silenciosos.

Uma das frentes mais emblemáticas fica na Mongólia Interior, numa área antes estéril perto do Deserto de Kubuqi. Há vinte anos, dizem os locais, não havia nada além de vento, areia e a sensação de terem sido esquecidos. Hoje, pode-se conduzir por uma estrada onde as dunas antes mudavam de lugar de um dia para o outro e ver faixas de verde a cortar a paisagem.

Um pastor chamado Liu gosta de mostrar aos visitantes duas fotografias que guarda no telemóvel. Na primeira, tirada em 2002, a casa dele aparece sozinha, uma caixa minúscula num mar amarelo. Na segunda, com quase o mesmo enquadramento em 2022, o horizonte é quebrado por filas de cortinas de abrigo: choupos, salgueiros, arbustos. A areia continua a soprar, mas bate primeiro nas árvores. As ovelhas já não ficam enterradas vivas em tempestades repentinas. A filha dele, diz, “sabe o que é sombra”. A mudança não é magia. São milhões de buracos abertos, dia após dia.

Os cientistas estimam que a China tenha plantado mais de 70 mil milhões de árvores sob este grande programa de combate à desertificação desde o final dos anos 70, transformando o projeto numa das maiores experiências ecológicas feitas pelo ser humano na Terra. O objetivo, no papel, é simples: travar a marcha do deserto, prender a areia, fixar o solo.

A realidade é mais confusa. As árvores podem falhar quando são plantadas no lugar errado. Florestas em monocultura podem beber mais água do que a terra consegue oferecer. As comunidades locais podem sentir-se apertadas entre metas nacionais e a sobrevivência diária. Ainda assim, os dados de satélite mostram algum progresso: partes do norte estão a ficar mais verdes, e a cobertura vegetal aumentou em muitas zonas-alvo. O deserto não parou, mas o ritmo mudou.

Como se planta um muro contra o vento

Plantar árvores num deserto não é apenas abrir um buraco e esperar pela chuva. As equipas que trabalham na Grande Muralha Verde da China seguem uma coreografia aperfeiçoada ao longo de décadas. Primeiro vem o mapeamento: onde o vento bate com mais força, onde as dunas se movem mais depressa, onde uma linha de árvores pode de facto funcionar como barreira.

Depois vem o desenho. Em vez de uma floresta espessa única, engenheiros e agricultores criam muitas vezes faixas alternadas de árvores e arbustos, deixando espaço entre as filas para que o vento abrande em vez de embater e tombar por cima. A escolha de espécies também conta. Arbustos de raízes profundas e tolerantes ao sal podem resultar melhor do que choupos altos e sedentos. Em algumas zonas-piloto, chegam mesmo a plantar grelhas de relva ou a colocar tabuleiros xadrez de palha para estabilizar a areia antes de entrarem as primeiras mudas. É menos romântico do que a imagem de uma floresta contínua, mas muito mais provável que dure.

Se caminhar com uma equipa de plantação de uma aldeia na primavera, nota o ritmo. Duas pessoas com pás, uma com um balde de água, se a houver, outra a transportar as mudas frágeis. Cada buraco tem aproximadamente a mesma profundidade, uma repetição aprendida pelo tato. As crianças seguem atrás, largando sementes ou calcando a terra como se estivessem a deitar os bebés-árvore na cama.

No papel, o governo define metas ambiciosas: quantos hectares recuperados, quantas mudas colocadas no chão este ano. No terreno, os agricultores falam antes das taxas de sobrevivência após três verões. Um plantador veterano pode dizer-lhe, com uma mistura de orgulho e cansaço, que no início “morria metade, às vezes mais”, mas agora, com melhores espécies e espaçamento, “talvez sete em cada dez vivam”. As estatísticas que mais importam são as que lhe dão sombra ao meio-dia.

Por trás das imagens de vastas linhas verdes a avançar pelo deserto está uma realidade dura de compromissos. As árvores precisam de água, e muitas regiões do norte já têm sede. Quando se plantaram choupos de crescimento rápido em filas densas, eles consumiram muitas vezes água subterrânea, pressionando aquíferos e competindo com culturas agrícolas.

É por isso que as fases mais recentes do projeto mudaram para misturas de plantas mais diversas e para o que os investigadores chamam “adequação ecológica” - pôr a planta certa no sítio certo, em vez de forçar a mesma espécie em todo o lado. Alguns troços são agora dominados por mato e gramíneas nativas, que podem não parecer heroicas na televisão, mas que unem o solo de forma mais suave. A Muralha está a tornar-se menos uma barreira rígida e mais uma colcha de retalhos verde e flexível. De forma curiosa, o grande projeto nacional está a aprender a ser humilde.

Lições de uma experiência do tamanho de um continente

Para outros países que observam a Grande Muralha Verde da China, a primeira lição prática é brutalmente simples: a escala impressiona, mas o detalhe local vence. Pode-se copiar a ambição, não o modelo. No norte da China, os projetos que envelheceram melhor começaram, quase sempre, por escutar com atenção - hidrólogos, botânicos, residentes que se lembram de onde a água corria.

O método que hoje reúne mais respeito é uma abordagem em camadas. Começar por estabilizar a areia com barreiras de palha ou arbustos baixos. Depois introduzir árvores nativas resistentes em pequenos grupos, em vez de linhas longas e uniformes. Deixar espaço para culturas e pastoreio para que os meios de subsistência façam parte do plano, e não sejam danos colaterais. Pensar em décadas, não em ciclos de financiamento. E continuar a monitorizar, mesmo quando as manchetes passam a outra coisa.

As pessoas que vivem perto de novas zonas de plantação preocupam-se muitas vezes com o que podem perder: campos, acesso a pastagens, tempo. Esses medos são racionais. No passado, campanhas ecológicas em grande escala por vezes afastaram os locais, ou pagaram-lhes apenas temporariamente para plantar árvores que mais tarde morreram.

Programas mais recentes tentam inverter essa lógica, pagando às aldeias a longo prazo para cuidar das árvores, ou misturando culturas de rendimento como bagas de goji e árvores de jujuba, que conseguem sobreviver em climas secos. Mesmo assim, há uma frustração discreta que se ouve se ficar tempo suficiente. “Eles falam de créditos de carbono”, diz um agricultor, “mas eu falo do meu poço.” Sejamos honestos: ninguém segue todos os protocolos ecológicos à risca quando a colheita está em jogo. É aqui que políticas sensíveis e a realidade do dia a dia colidem.

“Não se pode simplesmente plantar uma árvore e ir embora”, diz um jovem técnico florestal em Ningxia. “O verdadeiro trabalho começa no terceiro ano, quando as fotografias já foram esquecidas e as cabras têm fome.”

Para quem tenta perceber este esforço gigantesco, alguns pontos-chave destacam-se como sinais numa estrada poeirenta:

  • A plantação massiva de árvores funciona melhor quando respeita os limites de água locais e as espécies nativas.
  • As comunidades mantêm-se envolvidas quando também veem rendimento direto ou proteção para as suas casas.
  • O número de árvores plantadas importa menos do que quantas sobrevivem após vários verões severos.
  • Misturar árvores, arbustos e gramíneas supera muitas vezes um “muro” compacto de uma única espécie.
  • Monitorização honesta - incluindo falhas - é a única forma de um projeto desta dimensão aprender.

O que esta Muralha Verde diz realmente sobre nós

De pé sob uma cortina de abrigo de vinte anos na Mongólia Interior, a primeira coisa que se nota é o som. Lá fora, o vento é um rugido áspero. Cá dentro, desce para um sussurro, depois para um silêncio, e finalmente para um suave crepitar de folhas. Um pequeno pássaro salta entre ramos. Alguém riscou um nome na casca. O deserto continua ali, a algumas centenas de metros, mas por um instante parece outro país.

Este é o estranho poder da Grande Muralha Verde. É um projeto de engenharia, uma experiência ecológica, um símbolo político e também um gesto profundamente humano: milhões de pessoas, pagas ou não, curvadas ao sol para empurrar paus frágeis para dentro de solo seco. Num mau dia, pode parecer uma fantasia heroica, uma tentativa de “plantar” para vencer as alterações climáticas e a degradação do solo. Num bom dia, é uma forma de dizer: não vamos abdicar deste chão sem lutar.

Todos já vivemos aquele momento em que um problema parece grande demais para as nossas mãos. O avanço do deserto é assim, só que visível do espaço. A resposta da China, com todos os seus defeitos e pontos cegos, é estranhamente concreta. Não é uma aplicação nem um slogan, mas bolhas, camiões-cisterna, discussões sobre listas de espécies, sombra lenta. Talvez por isso a história desta Muralha Verde continue a voltar aos nossos feeds. Ela levanta uma pergunta desconfortável: se eles podem tentar travar um deserto com raízes e folhas, que desculpa temos nós para não fazer nada onde vivemos?

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Escala do projeto Mais de 70 mil milhões de árvores plantadas desde o final da década de 1970 no norte da China Dá uma noção de quão arrojados e arriscados podem ser grandes projetos climáticos
Sucesso misto Algumas áreas estão mais verdes, outras sofrem de stress hídrico e plantações falhadas Ajuda a ver para além das manchetes e a identificar as verdadeiras lições
Envolvimento local Agricultores pagos para plantar e manter árvores, com culturas de rendimento em algumas zonas Mostra por que razão as comunidades precisam de benefícios, não apenas slogans, para se manterem envolvidas

FAQ:

  • A Grande Muralha Verde da China está realmente a travar o deserto? Não por completo. Abrandou a desertificação e reduziu tempestades de areia em algumas regiões, mas o deserto continua a avançar noutras, sobretudo onde a água é escassa ou as árvores foram mal escolhidas.
  • Qual é o comprimento previsto da Grande Muralha Verde? A rede planeada de cortinas de abrigo e terras recuperadas estende-se por milhares de quilómetros, de Xinjiang, no oeste, até Heilongjiang, no nordeste, acompanhando aproximadamente o arco da antiga civilização do Rio Amarelo.
  • Todas as árvores que a China planta sobrevivem? Não. As fases iniciais tiveram taxas de mortalidade muito elevadas, por vezes superiores a metade. A sobrevivência melhorou com melhor seleção de espécies e espaçamento, mas as perdas continuam a ser um desafio constante em zonas duras e secas.
  • Este projeto ajuda realmente no combate às alterações climáticas? Armazena carbono e pode arrefecer climas locais, mas não é uma solução milagrosa. Se as árvores consumirem demasiada água subterrânea ou morrerem jovens, os benefícios climáticos diminuem. É uma peça útil de um puzzle muito maior.
  • Outros países podem copiar esta ideia de Muralha Verde? Podem copiar a ambição, não o modelo exato. Regiões como o Sahel, em África, já estão a construir a sua própria “Grande Muralha Verde”, e a principal lição é trabalhar com espécies nativas, limites de água e comunidades locais, em vez de perseguir vitórias rápidas e fotogénicas.

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