A campainha toca, as cadeiras rangem, e trinta adolescentes deixam-se cair em cadeiras de plástico, meio acordados e a fazer scroll. No quadro, onde “Shakespeare – Ato III” esteve ainda na semana passada, aparece um novo título em marcador vivo: “Identidades Inclusivas – Unidade 1”. A professora ergue um manual brilhante com rostos sorridentes e cuidadosamente diversos na capa. Alguns miúdos não reagem de todo. Uma rapariga cutuca a amiga e sussurra: “Então já não há Gatsby?” Lá atrás, um rapaz levanta uma sobrancelha, tira uma fotografia ao livro e envia-a para o grupo de família. Em menos de uma hora, a mãe publica-a no Facebook com uma pergunta crua em letras maiúsculas.
Ainda é educação, ou a sala de aula tornou-se silenciosamente um campo de batalha de crenças?
Dos clássicos empoeirados a capítulos neutros em termos de género
Durante décadas, os pais meio que esperavam que os filhos arrastassem a mesma lista de leituras que eles próprios odiaram e, secretamente, adoraram. “Ratos e Homens”. “Mataram a Cotovia”. Shakespeare, com toda a confusão e toda a magia. De repente, muito disso está a desaparecer dos programas, substituído por materiais brilhantes “actualizados”, cheios de pronomes neutros e “percursos de identidade”. Alguns alunos mal reparam na troca. Os pais, esses, reparam.
Em salas de estar e grupos de WhatsApp por todo o país, circulam capturas de ecrã de páginas de lições, com círculos vermelhos furiosos e pontos de interrogação. A mudança parece rápida. Rápida demais.
Entre numa escola suburbana nos EUA ou no Reino Unido agora mesmo e provavelmente notará o mesmo: os novos manuais estão carregados de histórias em que as personagens são simplesmente “elu(s)”, ou em que as estruturas familiares são cuidadosamente variadas em cada exercício. Um pai no Texas partilhou uma foto de um excerto de leitura em que nenhuma personagem tinha um nome com marca de género - só iniciais e “they/them”. Outra, numa pequena cidade de Inglaterra, descobriu que o filho nunca tinha ouvido falar de “Jane Eyre”, mas conseguia explicar fluentemente o que significa “não-binário” “porque falámos disso em Inglês”.
Os números confirmam a sensação de mudança. As editoras relatam um aumento da procura por conteúdos “inclusivos e neutros em termos de género” adaptados às orientações de adopção escolar. Alguns distritos anunciam com orgulho que 70% da sua lista de leitura passa agora por “textos contemporâneos e socialmente relevantes”. Os professores dizem que estão a tentar reflectir o mundo em que os alunos vivem, não o que os avós conheceram. Os pais ouvem outra coisa nesse argumento. Ouvem o ruído de uma engrenagem cultural a raspar.
Um pai frustrado com quem falei descreveu abrir o caderno de exercícios da filha e “já não reconhecer a escola”. Os exercícios não eram sobre gramática; eram sobre “rótulos e experiências”. Ele não se opunha a falar de respeito ou diversidade. Opunha-se à sensação de que histórias clássicas, com peso e complexidade, estavam a ser silenciosamente despromovidas para dar lugar a materiais que pareciam concebidos para transmitir primeiro uma mensagem - e só depois tudo o resto.
Esse é o receio por trás das manchetes: que a leitura deixe de ser uma viagem à natureza humana e passe a ser uma visita guiada, cuidadosamente curada, por identidades aprovadas.
Educação, ideologia e essa linha fina e difusa
Um exemplo concreto continua a aparecer em e-mails de pais e reuniões de escola. Um distrito retira “A Odisseia” do 9.º ano, invocando “relevância limitada” e “preocupações com representações de género”. No seu lugar, os alunos recebem uma unidade chamada “Jornadas do Eu”, construída em torno de textos curtos e modernos. Cada história é enquadrada por temas como “encontrar os teus pronomes”, “redefinir família” ou “resistir às expectativas de género”. A linguagem é acessível. Os visuais são apelativos. A mensagem é inequívoca.
Os alunos raramente se queixam. A leitura é mais curta e mais fácil. As redacções tornam-se reflexões: “Descreve um momento em que a tua identidade foi mal compreendida.” Alguns miúdos ligam-se genuinamente e sentem-se vistos. Outros reviram os olhos e escrevem o que acham que a professora quer ler. Os pais vêem os trabalhos a chegar a casa e sentem um sobressalto. A pergunta que lhes fica na cabeça não é “Isto é simpático?” É “Isto é equilibrado?”
Estes materiais não caem do céu. São moldados por comissões, consultores, pressão política e apresentações de marketing das editoras. Um director curricular tem de navegar orientações do estado, medo de processos e uma cultura em que um único e-mail de um encarregado de educação pode tornar-se viral. Quando o caminho mais seguro é escolher conteúdo “inclusivo” ao qual ninguém pode opor-se publicamente sem ser rotulado, esse caminho torna-se, de repente, muito atractivo. E assim, manuais neutros em termos de género entram onde antes estavam clássicos grandes, caóticos e moralmente complicados.
O resultado é que os alunos acabam muitas vezes por ler menos sobre pontos de vista em conflito e mais sobre um único universo moral, consistente e arrumadinho. É aqui que muitos pais deixam de ver isto como educação neutra e começam a chamar-lhe doutrinação.
O que podem os pais fazer de forma realista?
A reacção visceral é ir “tomar de assalto” a escola, mas isso normalmente sai pela culatra. Uma estratégia mais discreta e eficaz é começar por pedir, simplesmente, para ver tudo. As listas de leitura. As unidades exactas do manual. As fichas - não apenas os resumos vistosos. Sente-se com o seu filho e leiam um excerto juntos. Pergunte-lhe: “O que achas que este texto quer que sintas? O que achas que quer que acredites?” Não o está a interrogar. Está a ensiná-lo a reparar.
Depois, coloque o antigo e o novo lado a lado. Um capítulo de um romance clássico. Um do novo manual neutro em termos de género. Pergunte qual parece mais uma história e qual parece mais uma lição. Essa comparação fala mais alto do que qualquer discurso indignado numa reunião.
O erro em que muitos pais caem é passar do zero à indignação num único salto. Encontram uma definição a negrito de “expressão de género” num exercício de gramática e vão directamente às redes sociais com “Estão a fazer lavagem cerebral aos nossos filhos!” O filho, a ver isto acontecer, aprende duas coisas: a escola é uma zona de guerra e falar de identidade é perigoso. Isso fecha a conversa de que realmente precisa em casa.
Um caminho melhor é a curiosidade honesta. Pergunte aos professores: “Como é que equilibram os novos textos inclusivos com o cânone literário?” Pergunte ao seu filho: “Sentes que tens liberdade para discordar do que o manual diz?” Isto importa porque uma sala de aula que pune a discordância é uma sala de aula que deixou de educar. O seu papel não é combater cada menção a género. O seu papel é perceber quando o género se torna o ponto central de todas as lições.
Há uma verdade simples que raramente se diz em voz alta: sejamos honestos, a maioria dos pais não lê todas as páginas que o filho tem para estudar. Estão a equilibrar trabalho, roupa para lavar, e-mails tardios. Reagem à captura de ecrã que os choca. As escolas sabem isto. As editoras também. Enquadramentos subtis entram sorrateiramente entre os slogans grandes e óbvios.
É aí que começa a ensinar o seu filho a ler com filtro, não com venda. Ajude-o a perguntar: “O que é que falta nesta história?” Se todas as personagens são escritas para o guiar suavemente para uma única visão sobre género e identidade, quem é que não tem permissão para existir nesse mundo? Por vezes, o gesto mais forte de um pai não é proibir um livro, mas trazer outro para a mesa e dizer: “Eis como outra pessoa conta a história humana.”
“As escolhas curriculares nunca são neutras”, disse-me um professor de Inglês veterano. “Quando largamos textos difíceis e brilhantes em favor de capítulos seguros e simpáticos à ideologia, não estamos apenas a actualizar exemplos. Estamos a mudar aquilo de que achamos que as crianças são capazes.”
- Peça transparência
Solicite listas completas de leitura, não apenas resumos por temas, e mantenha-as num local visível em casa. - Emparelhe textos em casa
Por cada texto novo, carregado de valores, que o seu filho leia, ofereça-lhe um clássico que aborde o mesmo tema por outro ângulo. - Treine leitura crítica
Ensine o seu filho a detectar perguntas orientadas, exemplos unilaterais e vozes em falta, sem transformar cada sessão de trabalhos de casa numa discussão. - Controle as emoções na escola
Apresente preocupações específicas com páginas exactas, não acusações gerais, e procure conversa, não manchetes. - Proteja o prazer de ler
Não deixe que este debate transforme livros em armas. Deixe o seu filho continuar a encontrar maravilha nas histórias, antigas e novas.
Que tipo de mentes estamos realmente a moldar?
Volte àquela sala de aula com os novos manuais neutros em termos de género em todas as secretárias. Alguns alunos vão florescer com histórias que reflectem partes das suas vidas que eram invisíveis há dez anos. Outros vão sentir, em silêncio, que agora todas as lições têm a mesma moral, seja qual for o texto. O risco não é apenas perdermos os livros antigos. É perdermos a fricção. A ambiguidade. O desconforto quando um clássico nos obriga a lutar com algo com que não concordamos à partida.
Isto não é uma luta simples de bom contra mau. Alguns textos mais antigos são desajeitados, ofensivos ou já não pertencem ao seu tempo. Alguns materiais novos são ponderados, ricos e genuinamente reveladores. A linha de divisão não é entre antigo e novo, nem entre marcado por género e neutro. A linha está entre livros que abrem perguntas e livros que as encerram discretamente de antemão. É isso que tantos pais estão a sentir quando usam a palavra “doutrinação”, mesmo que a palavra em si seja pesada e polarizadora.
Todos já passámos por isso: o momento em que percebemos que o nosso filho está a ser moldado por vozes que não escolhemos. O verdadeiro teste não é se as escolas apagam todas as referências ao género ou se as espalham por todas as páginas. O teste é se o seu filho ou filha sai aos dezoito anos capaz de dizer: “Conheci muitas formas de ver o mundo. Consigo ouvir, argumentar e decidir por mim.” Se os manuais neutros em termos de género ajudarem a construir esse tipo de mente, a maioria dos pais acabará por os aceitar. Se substituírem discretamente a curiosidade pela conformidade, a indignação que hoje se ouve é apenas o começo.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Peça para ver os materiais reais | Solicite unidades completas, não apenas resumos, e leia um excerto com o seu filho. | Dá-lhe uma percepção concreta em vez de depender de rumores ou de uma única captura de ecrã. |
| Equilibre os textos escolares em casa | Emparelhe leituras novas, focadas na identidade, com clássicos que exploram temas semelhantes de forma diferente. | Ajuda o seu filho a ver múltiplas perspectivas em vez de uma única narrativa. |
| Ensine leitura crítica, não cínica | Incentive perguntas sobre enquadramento, vozes em falta e discordâncias permitidas. | Constrói independência intelectual a longo prazo, seja qual for o currículo. |
FAQ:
- Pergunta 1 Os manuais neutros em termos de género são automaticamente uma forma de doutrinação?
- Resposta 1 Não. Alguns são simples actualizações linguísticas ou tentativas genuínas de inclusão. A preocupação cresce quando todos os textos se inclinam para um conjunto de crenças e não deixam espaço para discordância ou perspectivas alternativas.
- Pergunta 2 Posso pedir à escola para manter literatura clássica no currículo?
- Resposta 2 Sim, e deve fazê-lo de forma específica. Proponha títulos concretos e razões - como desenvolvimento de vocabulário ou exposição a questões éticas complexas - em vez de apenas argumentar contra conteúdos mais recentes.
- Pergunta 3 E se o meu filho gostar dos novos manuais e achar os clássicos aborrecidos?
- Resposta 3 É normal. Comece com excertos acessíveis, adaptações cinematográficas ou audiolivros de clássicos. Relacione temas dos textos antigos com questões de que o seu filho já gosta, para que veja relevância e não apenas “trabalho de casa”.
- Pergunta 4 Como falo sobre isto sem fazer o meu filho sentir-se julgado?
- Resposta 4 Pergunte o que ele pensa antes de partilhar a sua opinião. Use perguntas abertas - “Sentiste que podias discordar daquele texto?” - e mantenha o foco nas ideias, não nos professores ou colegas.
- Pergunta 5 É possível ter educação inclusiva sem descambar para ideologia?
- Resposta 5 Sim. Um currículo equilibrado pode incluir textos diversos e conscientes do género a par de literatura clássica, apresentados como pontos de partida para debate e não como respostas finais. O objectivo é a curiosidade, não a conformidade.
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