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Os hábitos de aquecimento estão a mudar: a antiga regra dos 19 °C está a ser abandonada e especialistas recomendam agora uma temperatura diferente para maior conforto e eficiência.

Mão ajusta termostato para 21°C; ao fundo, pessoa lê num sofá com um cão; chávena de chá fumegante na mesa.

Num terça-feira cinzenta, às 7 da manhã - daquelas em que o céu nunca chega bem a acordar -, a Lisa entra descalça na cozinha e franze o sobrolho para o termóstato. Durante anos, o pequeno ecrã esteve nos 19 °C, como uma regra não dita herdada dos pais, do fornecedor de energia e de metade do país. Hoje, ela sobe para 20,5 °C. Só um toque. Uma pequena rebelião contra os dedos gelados no portátil e aquele frio permanente que se agarra aos apartamentos antigos.
Fica ali, café na mão, à espera de se sentir culpada e… nada. Nem trovões, nem uma factura furiosa a materializar-se do nada. Só um ar ligeiramente mais macio, um pouco menos de “volta a vestir a camisola”.
Por toda a Europa, cenas como esta estão a acontecer em silêncio, clique a clique no termóstato.
Alguma coisa nos nossos hábitos de aquecimento está a mudar.

O fim da regra sagrada dos 19 °C

Durante décadas, os 19 °C foram tratados como um número mágico. A temperatura interior “certa”, a regulação do adulto responsável, aquela repetida em campanhas públicas e rabiscada em folhetos do governo. Se aquecesse mais, sentia-se um pouco mimado. Se aquecesse menos, era um herói da frugalidade.
Mas o mundo avançou. As casas estão melhor isoladas, as pessoas trabalham a partir do sofá e as crianças passam mais tempo dentro de casa do que nunca. Essa velha regra universal começa a ranger quando a sala de estar também é escritório, ginásio e sala de aula.
A pergunta já não é “19 ou 21?”, mas “O que é que, de facto, sabe bem e desperdiça menos?”.

Olhe para o que está a acontecer em casas reais. Num inquérito europeu recente sobre energia, muitos inquiridos admitiram que antes mentiam sobre a regulação do termóstato, declarando 19 °C enquanto, na prática, se mantinham mais perto dos 21 °C nas noites frias. Uma família em Lyon acompanhou os seus hábitos durante um mês com um termóstato inteligente: o seu “oficial” 19 °C deu uma média de 20,3 °C entre as 18h e a meia-noite.
Não estavam a enganar por maldade. Estavam apenas a viver. Crianças a fazer trabalhos de casa, pais colados a ecrãs, avós a visitar e a pedir “só mais um bocadinho de calor, por favor”. As regras de energia encontraram a vida real - e a vida real ganhou, discretamente.
Nos bastidores, os dados contam a mesma história: o ideal dos 19 °C estalou.

Há uma razão para os especialistas começarem a ajustar a mensagem. A regra antiga nasceu numa época de janelas com fugas, radiadores pesados e estadias curtas em casa. Hoje, a eficiência do aquecimento tem menos a ver com uma temperatura única e mais com zonamento inteligente, horários e ciência do conforto.
Os especialistas apontam agora para uma faixa ligeiramente mais alta nas áreas de estar - cerca de 20 a 21 °C durante o dia - como melhor equilíbrio entre saúde, conforto e estilos de vida modernos, com quartos mais frescos à noite. A poupança de energia não desaparece; torna-se mais matizada.
O mantra “passa frio para salvar o planeta” está a ser substituído por “aquece onde e quando faz sentido”.

A nova faixa conforto–eficiência: como acertar

Então, qual é o novo ponto ideal? A maioria dos especialistas em conforto térmico converge agora numa faixa simples: cerca de 20–21 °C nas zonas de estar quando está activo e em casa, e depois cerca de 17–18 °C à noite ou quando está fora. Não um número rígido colado à caldeira, mas uma pequena banda dentro da qual se ajusta.
Aqui vai um truque que muitos consultores de energia recomendam: escolha 20 °C como “campo base”. Viva com isso durante três dias. Se continuar com frio, aumente 0,5 °C - e não mais do que isso. Mudanças pequenas, depois espere.
O seu corpo e as suas paredes precisam de tempo para se adaptar. Saltar de 19 para 23 °C numa única manhã é garantia de choque na factura.

Todos já passámos por isso: volta do trabalho, a casa parece um frigorífico e você sobe o termóstato “só por um bocadinho”. Vinte minutos depois, está de T-shirt enquanto os radiadores rugem como um motor. E essa regulação? Muitas vezes esquece-se de a baixar.
A verdade simples: os graus caros costumam ser os impulsivos. Não os 20–21 °C mantidos de forma estável, mas os picos do tipo “vou dar-me ao luxo de 24 °C enquanto cozinho”.
Os especialistas dizem que cada grau extra acima da sua zona de conforto estável pode acrescentar cerca de 7% ao consumo de aquecimento. Um grau não parece muito. Ao longo de um inverno, é uma longa fila de zeros na factura.

Um físico da construção com quem falei explicou-o de forma simples:

“Esqueça a obsessão pelos 19 °C. Procure uma temperatura de conforto estável e realista entre 20 e 21 °C nas divisões principais e baixe o resto. Conforto primeiro, culpa fora.”

Depois vem a parte pragmática. Se quer que essa faixa funcione, não joga apenas com números - joga com espaços. Algumas regras repetem-se nos guias de especialistas:

  • Aqueça as divisões que realmente usa para cerca de 20–21 °C, não o quarto de hóspedes que abre duas vezes por ano.
  • Baixe os quartos para 17–18 °C à noite, para dormir melhor e pagar menos.
  • Programe uma descida suave quando não está em casa, em vez de um ciclo drástico de desligar/ligar.
  • Vista-se para a estação: lã fina, meias quentes e uma manta no sofá vencem ar a 23 °C.
  • Vede as correntes de ar à volta de janelas e portas antes de culpar o termóstato.

É aqui que vive a nova regra: não um grau sagrado, mas uma pequena zona flexível.

Viver de outra forma com o aquecimento em casa

Por trás desta mudança, algo mais profundo está a alterar-se na forma como habitamos as nossas casas. O aquecimento está a passar de um gesto de fundo, automático, para uma escolha consciente do dia-a-dia - como o que comemos ou como nos deslocamos. As pessoas comparam notas com colegas, consultam aplicações, falam do “meu ideal é 20,5 °C” como antes se discutiam dietas.
Alguns descobrem que são naturalmente mais calorosos ou mais friorentos do que o parceiro. Outros percebem que os radiadores antigos estão mal equilibrados, tornando uma divisão numa sauna e outra numa gruta.
As novas recomendações de temperatura apenas abrem a porta para uma pergunta melhor: “O que é que, de facto, me sabe bem, para mim, nesta divisão, a esta hora?”.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Faixa de conforto, não número mágico Apontar para cerca de 20–21 °C nas zonas de estar, ligeiramente mais fresco à noite ou quando não está em casa Reduz a culpa mantendo a consciência energética
Pequenos ajustes, grandes poupanças Alterar 0,5–1 °C de cada vez e evitar picos súbitos Baixa a factura sem sensação de privação
Aquecer onde a vida acontece Priorizar as divisões ocupadas, isolar e limitar correntes de ar antes de subir o termóstato Melhora conforto e eficiência com acções simples

FAQ:

  • Que temperatura recomendam agora os especialistas em vez dos 19 °C?
    A maioria sugere cerca de 20–21 °C para as áreas de estar quando está em casa e activo, com 17–18 °C para os quartos e durante a noite.
  • Os 19 °C são mesmo demasiado frios?
    Para muitas pessoas, sobretudo quem trabalha a partir de casa ou fica sentado por longos períodos, 19 °C sabe a frio. Pode funcionar com roupa quente e bom isolamento, mas já não é visto como a única escolha “certa”.
  • Subir o termóstato 1 °C vai fazer a factura explodir?
    Não há explosão, mas há efeito: especialistas estimam cerca de 7% mais consumo de aquecimento por cada grau extra, sobretudo se mantiver essa subida todo o inverno em vez de usar reforços breves.
  • É melhor manter o aquecimento sempre ligado num nível baixo?
    Em casas bem isoladas, uma temperatura estável e ligeiramente mais baixa, com subidas e descidas programadas, é muitas vezes mais eficiente do que desligar completamente e voltar a aquecer do zero sempre que regressa.
  • Como posso sentir-me mais quente sem passar dos 21 °C?
    Use roupa em camadas, meias quentes, uma manta no sofá, feche portas interiores, bloqueie correntes de ar e purgue os radiadores. Estes pequenos passos podem mudar bastante a forma como 20–21 °C se sentem no corpo.

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