O salão já está em alvoroço quando a primeira cliente entra, cabelo torcido num coque alto cansado, telemóvel na mão, a cara a dizer tudo: “Faz alguma coisa. Qualquer coisa.”
No ecrã grande junto aos espelhos, os looks de passadeira vermelha de 2025 passam em loop, mas já ninguém pede aquilo. Apontam para screenshots do TikTok, fotos de street style desfocadas, aquela atriz vista ontem a sair de um café em Paris.
O cabeleireiro, mangas arregaçadas, parece mais um DJ do que um profissional de cabelo, a trocar de uma cabeça para outra, a ler rostos tanto quanto texturas.
“2026 vai ser louco”, murmura, pente no ar, como se apanhasse o futuro a meio do voo.
E o futuro, ao que parece, começa com quatro cortes muito precisos.
Quatro cortes que mudam tudo sem fazer barulho.
Quatro cortes que ele diz que devíamos adotar… já.
O power bob de 2026: preciso, reto e estranhamente suave
A primeira grande estrela de 2026 é curta, afiada e surpreendentemente gentil com o rosto.
Falamos do “power bob”: um bob direito, quase arquitetónico, que fica entre a linha do maxilar e as clavículas, com uma linha tão limpa que parece desenhada a régua.
No papel, soa severo. Na vida real, é o contrário.
As pontas são ligeiramente suavizadas, o volume assenta à altura das maçãs do rosto, e a nuca fica limpa o suficiente para dar aquele ar longo e elegante que as pessoas perseguem nos filtros do Instagram.
É o corte que te faz parecer arranjada mesmo com uma sweatshirt velha.
Na cadeira à minha frente, a Léa, 32, percorre fotos da Hailey Bieber e de uma atriz de K‑drama cujo nome ela não consegue pronunciar.
O cabelo dela chega a meio das costas, gasto por anos de balayage e mentiras de “corto da próxima”.
O cabeleireiro prende uma mecha entre os dedos e mostra-lhe onde vai cair a nova linha, mesmo na articulação do maxilar.
“Vais conseguir secar à bruta e sair porta fora”, promete.
Vinte minutos depois, ela olha para si ao espelho: pescoço à mostra, olhos maiores, maçãs do rosto de repente visíveis.
“Isto é absurdo”, ri-se. “Parece que dormi oito horas e pago os impostos a tempo.”
O salão inteiro acena. Já viram esta cena muitas vezes ultimamente.
O power bob funciona agora porque as pessoas estão cansadas.
Cansadas de camadas que só ficam bem com styling perfeito. Cansadas de cortes “sem esforço” que, na verdade, exigem três produtos e uma escova redonda.
Este bob é geometria a encontrar-se com a vida real.
O corte cria estrutura por ti: peso onde precisas, balanço nas pontas, uma linha limpa que molda o rosto sem teres de pensar.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Para cabelo ondulado ou encaracolado, o cabeleireiro adapta a linha, cortando ligeiramente mais comprido e a seco, para respeitar o ressalto.
Para cabelo liso, as pontas são microtexturizadas para não parecer um corte de uniforme escolar.
É a versão corte de cabelo de uma camisa branca perfeitamente ajustada - simples, óbvia e, de repente, já não precisas de tantas outras coisas.
A “air fringe” e as camadas líquidas: suavidade que se move contigo
A segunda estrela de 2026 não grita mudança; sussurra-a.
Aqui, a grande viragem acontece à frente: a ascensão da “air fringe”, uma franja leve e aérea, que se divide naturalmente e nunca fica como uma barra pesada sobre a testa.
O teu cabeleireiro corta-a com movimentos verticais pequeninos, criando pequenas aberturas que deixam a pele espreitar.
Depois vêm as “camadas líquidas”: camadas longas e invisíveis que se fundem umas nas outras e se movem como tecido quando andas.
Nada de degraus grossos, nada de revivalismo “Rachel” dos anos 2000.
O objetivo é um movimento que parece quase acidental.
Cabelo que fica melhor quando fizeste… quase nada.
A Sofia, 27, entra a agarrar uma foto de uma cantora de K‑pop e de uma pivô francesa.
Quer franja, mas os olhos denunciam o trauma de uma franja reta de adolescente que demorou seis meses a crescer.
O cabeleireiro estuda os remoinhos, a curva da linha do cabelo, a risca natural que não quer mudar.
“Air fringe”, decide. “Assim, se mudares de ideias, transforma-se em mechas a enquadrar o rosto.”
Corte após corte, minúsculo, a franja aparece - quase inexistente e já a mudar a expressão toda.
Quando ele seca, ela abre-se sozinha: uma mecha abraça a maçã do rosto, outra roça as sobrancelhas.
Algumas camadas invisíveis no comprimento e, de repente, o cabelo antes pesado ganha um movimento suave, ondulante.
Ela abana a cabeça. “É isto. É a rapariga que eu fixo no Pinterest.”
A combinação “air fringe + camadas líquidas” está a explodir porque resolve duas contradições muito humanas.
Queremos uma mudança visível, mas temos pavor de nos arrependermos.
Queremos volume e movimento, mas não queremos passar 25 minutos ao espelho antes do trabalho.
A air fringe cresce com elegância, tornando-se em “curtain pieces” se deixares de a aparar.
As camadas líquidas aliviam o comprimento sem roubarem espessura nas pontas, o que mantém aquele aspeto cheio tão desejado no TikTok.
Para cabelo fino, o cabeleireiro mantém as camadas mais altas e suaves, para não perderes densidade na base.
Para cabelo espesso ou ondulado, retiram peso por dentro, não nas extremidades, para o cabelo continuar rico visualmente mas mais leve ao toque.
É um corte discretamente inteligente, a esconder muita técnica por trás de um resultado muito natural.
O neo-shag e o “soft wolf cut”: selvagem, mas adulto
Agora chegamos ao corte que deixa toda a gente nervosa e secretamente entusiasmada.
O neo-shag e o seu primo, o “soft wolf cut”, são as estrelas rebeldes de 2026.
Esquece o wolf ultra-camado do TikTok, com um ar exagerado de mullet.
Esta nova versão mantém a energia rock, mas baixa o volume o suficiente para ires para o escritório sem assustar os RH.
O gesto-chave: o cabeleireiro trabalha com secções verticais, esculpindo camadas que começam à volta dos olhos e depois suavizam ao longo das maçãs do rosto e da parte de trás da cabeça.
A nuca fica visível, o topo ganha um pouco de altura, e as pontas viram ou ondulam naturalmente.
Em caracóis, é uma revelação. Em cabelo liso, dá aquela forma cool, ligeiramente “vivida”, que vês em músicos indie e modelos fora de serviço.
A Camille, 35, chega com uma foto de uma modelo japonesa e de uma cantora indie americana.
O cabelo dela é espesso, vai a meio das costas, e ela está aborrecida só de falar sobre ele.
Quando o cabeleireiro sugere um “soft wolf”, ela faz uma careta. “Não quero um mullet.”
Ele ri-se. “Não vais ter um.”
Começa a cortar à frente, criando camadas suaves que revelam os olhos, a linha do maxilar, o pescoço.
À medida que a forma aparece, a postura dela muda por completo.
O topo ganha altura, o cabelo cai em peças tipo cortina à volta do rosto, atrás mantém algum comprimento mas parece intencional em vez de “não corto há três anos”.
Quando ele amassa um pouco de creme, as leves dobras do cabelo passam, de repente, a parecer ondas.
Ela parece ela própria - mas editada.
Esta família de cortes está em alta porque fala a uma geração que já não quer “perfeito”.
Aceitamos um pouco de caos, desde que pareça nosso, não um disfarce.
O neo-shag e o soft wolf brilham em cabelo com textura, desde ondas subtis a caracóis apertados.
Libertam a raiz, removem peso onde o cabelo costuma formar uma “pirâmide” e dão ao rosto aquele efeito enquadrado, cinematográfico.
A armadilha é exagerar depressa demais.
Uma camada extra na altura errada e passas diretamente para a paródia.
Por isso, estes cortes vivem ou morrem na consulta: quanta volumetria queres mesmo? Como arranjas o cabelo numa segunda-feira real, e não num dia de sessão fotográfica?
São estas perguntas que mantêm o corte na zona “rock adulto”, e não em “fiz uma banda aos 14 e nunca parei”.
Os comprimentos longos de 2026: “glass hair” com um movimento “S” subtil
O quarto corte estrela de 2026 é, tecnicamente, quase nem um “corte”.
É a vingança do cabelo comprido - mas mais afiada, estruturada e brilhante como água.
Pensa em comprimentos longos, quase a tocar na cintura, mas com pontas ultralimpas e um movimento “S” muito subtil a atravessar os meios comprimentos.
Não são ondas de praia, nem caracóis, nem liso a ferro. É algo no meio - como seda apanhada por uma brisa.
O método: uma base reta com camadas internas quase invisíveis, só o suficiente para deixar o cabelo mexer e não cair como uma cortina.
O cabeleireiro “polimenta” as pontas com uma técnica de point cutting para parecerem vítreas, não mortas.
Em cabelo escuro, o efeito é hipnótico. Em cabelo claro, capta a luz como um filtro suave.
A Ana, 24, recusa cortar o cabelo mais curto.
Deixou-o crescer durante anos, a tratá-lo com máscaras e óleos, mas está a começar a parecer pesado, quase triste, apesar de todo o esforço.
O cabeleireiro propõe o corte longo de 2026: mesmo comprimento, novas linhas.
Corta apenas dois ou três centímetros e depois trabalha por dentro da massa, deslizando a tesoura para retirar peso sem criar degraus visíveis.
Depois da secagem, o cabelo continua a chegar quase ao mesmo sítio nas costas.
Mesmo assim, balança quando ela vira a cabeça, e as dobras “S” subtis apanham a luz.
Ele alisa apenas as raízes, de leve, e depois cria aquela onda suave a meio com uma prancha larga: uma volta e depois puxa a direito.
A Ana solta-o com os dedos. “É o meu cabelo, mas melhorado.”
É exatamente essa a ideia.
Este corte surfa a onda do “clean girl” e do “quiet luxury” sem cair na rigidez ou no tédio.
Respeita a obsessão por cabelo saudável e brilhante, mas admite que uma folha completamente plana pode “apagar” o rosto.
As formas “S” subtis acrescentam vida à volta do rosto e dos ombros.
As pontas quase cirúrgicas sinalizam cuidado, não desleixo - e isso as pessoas leem logo como “ela tem a vida um pouco mais organizada do que eu”.
O único requisito real é manutenção: aparar a cada 8–10 semanas, uma escova que não rasgue a cutícula, e um pouco de protetor térmico quando fazes styling.
Um detalhe simples e verdadeiro: se as pontas partirem mais depressa do que cortas, o look desaparece.
“Cabelo comprido não é sobre comprimento”, insiste o nosso cabeleireiro. “É sobre a linha e o brilho. Prefiro ficar com menos 2 cm e ter um cabelo que vira cabeças, do que me agarrar a cada milímetro e vê-lo a desfiar.”
- A quem assenta bem
Cabelo liso a ondulado que aguenta uma dobra suave, com densidade suficiente para parecer cheio nas pontas. - Styling na vida real
Secar de forma rápida com a cabeça para baixo, alisar as raízes com uma escova raquete e depois criar duas ou três dobras “S” grandes, deixando-as cair naturalmente. - O que evitar
Demasiadas camadas curtas no topo, que matam o efeito vidro e criam um aspeto irregular e datado em vez daquele comprimento fluido de 2026.
Quatro cortes, uma pergunta real: com quem queres parecer quando apanhas o teu reflexo?
Estes quatro cortes estrela de 2026 dizem algo maior do que “isto está na moda agora”.
Falam de controlo e suavidade, de querer uma mudança real sem nos perdermos no processo.
O power bob é para a parte de ti que quer clareza, linhas, sensação de ordem.
A air fringe e as camadas líquidas falam do teu desejo de movimento e leveza, sem drama.
O neo-shag e o soft wolf cut dão um espaço seguro ao teu rebelde interior.
Os comprimentos longos, vítreos, com movimento “S” deixam-te manteres-te agarrada ao teu cabelo, mantendo-o atual.
Já todos passámos por isso: o momento em que a capa do salão se coloca e tu te perguntas se estás prestes a conhecer uma nova versão de ti ou apenas arrependimento em três dias.
Talvez essa seja a verdadeira mudança de 2026: escolher cortes que respeitam a forma como vives de facto, e não como sonhas viver num domingo ideal.
Olha para o teu reflexo amanhã de manhã.
Se o teu cabelo conta uma história antiga, talvez esteja na hora de pegares numa destas quatro e escreveres o próximo capítulo.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Power bob 2026 | Linha limpa e reta, suavizada nas pontas, entre o maxilar e a clavícula | Define de imediato os traços do rosto e parece arranjado com esforço diário mínimo |
| Air fringe + camadas líquidas | Franja leve e aberta e camadas invisíveis que criam movimento natural | Mudança visível que cresce bem e funciona com hábitos de styling discretos |
| Neo-shag / soft wolf & comprimentos longos “S” | Camadas rock suaves para textura, ou comprimentos longos polidos com dobras subtis | Duas opções modernas para expressar personalidade, mantendo-se usável e atual |
FAQ:
- Que corte de 2026 favorece mais um rosto redondo?
O power bob que fica ligeiramente abaixo do maxilar e a air fringe com camadas líquidas são ideais. Alongam visualmente o rosto e destacam as maçãs do rosto sem acrescentar largura nas laterais.- Posso experimentar a air fringe se tiver um remoinho?
Sim, desde que seja cortada em pequenas secções verticais e adaptada à tua risca natural. O teu cabeleireiro pode deixá-la um toque mais comprida para cair mais como mechas que enquadram o rosto do que como uma franja rígida.- O neo-shag e o soft wolf cut resultam em cabelo fino?
Podem resultar, mas as camadas têm de ser mais leves e em menor número. Pede modelação interna em vez de camadas curtas e visíveis no topo para evitar um efeito espigado e sem densidade.- Com que frequência devo aparar os comprimentos longos “S” de 2026?
A cada 8 a 10 semanas é o ideal para manter as pontas limpas e o efeito vidro visível, sobretudo se usas calor ou coloração.- Consigo fazer estes cortes sem secar com secador todos os dias?
Sim, desde que digas ao teu cabeleireiro, com honestidade, como tratas o cabelo em casa. Pede-lhe que corte com o cabelo parcialmente seco e que te mostre uma rotina simples “só com as mãos” que possas repetir em cinco minutos.
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