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Os canteiros elevados secam mais depressa. Para resolver, use cobertura morta e regue regularmente para manter a humidade a longo prazo.

Pessoa a cuidar de uma horta elevada com várias plantas, colocando palitos de madeira no solo.

A alegria de montar um canteiro elevado costuma durar até ao primeiro período de calor. De repente, a terra parece “sumir” com a água: rega-se hoje, amanhã já está seco a alguns centímetros de profundidade.

Isto é comum em Portugal, sobretudo no verão (sol forte, vento e semanas sem chuva). A boa notícia: quase sempre resolve-se com pequenas mudanças no canteiro e na forma de regar - sem entrar em guerra diária com a mangueira.

Porque é que os canteiros elevados secam tão depressa (e porque não é culpa sua)

Um canteiro elevado perde água mais depressa por três razões principais:

  • Mais exposição: o solo apanha sol e vento por cima e também aquece pelas laterais (e às vezes por baixo). O vento “puxa” humidade mesmo em dias que parecem frescos.
  • Misturas demasiado leves: muitos enchimentos de saco (muito composto, pouca fração mineral) drenam bem, mas retêm pouco. A água atravessa o perfil antes de ficar na zona radicular.
  • Encolhimento e fendas: com o calor, misturas ricas em composto secam e contraem. Abrem-se fendas junto às paredes, que funcionam como “chaminés” de ar e aceleram a secagem.

Há ainda um efeito prático: canteiros elevados comportam-se como recipientes grandes. O solo no chão beneficia de uma massa térmica e de humidade mais estável; num canteiro, as variações são mais rápidas.

Erros comuns que agravam o problema:

  • Base com brita/pedras “para drenagem”: na maioria das hortas, só ajuda a água a sair mais depressa da zona das raízes.
  • Rega curta e frequente: molha a superfície, mas não carrega o perfil. Quando o sol bate, evapora em horas.

Mudar o canteiro, não apenas o regador

Pense no canteiro como um “perfil de solo” e não como uma caixa de substrato.

1) Enchimento em camadas (mais retenção, menos stress)
Em vez de ser tudo igual do topo ao fundo, use camadas com funções diferentes:

  • Fundo (material grosso e rico em carbono): ramos finos, gravetos, madeira meio decomposta, cartão castanho rasgado (sem tintas brilhantes). Esta camada ajuda a reter e a libertar água lentamente.
    Nota prática: com o tempo, esta base baixa; conte com reposições anuais de composto no topo.
  • Camada intermédia (estrutura): terra do local + composto, cerca de 50/50 (ajuste conforme a sua terra). A fração mineral dá peso e estabilidade; o composto dá vida e retenção.
  • Topo (plantação): mais solto e fértil, onde semeia e transplanta.

2) Cobertura morta (mulch): o “teto” do solo
Um canteiro elevado sem cobertura no pico do verão perde água como um tabuleiro ao sol. Aplique 5–8 cm de mulch quando o solo já aqueceu (fim da primavera/início do verão):

  • folhas trituradas, palha, estilha de madeira entre linhas, ou relva bem seca (em camadas finas).
  • mantenha 2–3 cm livres junto ao colo das plantas para reduzir apodrecimentos e pragas.

O mulch não é enfeite: reduz evaporação, mantém a temperatura mais estável e melhora o solo ao decompor. Em zonas húmidas/litorais pode aumentar lesmas; compensa com rega de manhã e menos “contacto direto” do mulch com caules.

3) Rega lenta e profunda (menos vezes, com mais efeito)
Canteiros elevados respondem melhor a regas que chegam à zona radicular:

  • Gota-a-gota ou mangueira exsudante por baixo do mulch costuma ser o ponto de viragem: menos evaporação e menos trabalho.
  • Se regar à mão, faça uma rega mais longa, em 2 passagens (rega → espera 10–15 min → rega), para evitar escorrência pelas laterais.
  • Regue, em geral, de manhã cedo: perde-se menos por evaporação e reduz-se risco de doenças foliares.

Como referência, em calor de verão muitas hortas acabam por precisar de algo na ordem de 20–30 L/m² por semana (mais em ondas de calor e vento; menos à sombra). Ajuste sempre ao seu solo e às suas culturas.

4) Proteção do sol e vento (quando faz diferença mesmo)
Em locais muito expostos, uma tela de sombreamento leve (muitas vezes 30–40% é suficiente) e/ou uma barreira ao vento pode reduzir bastante a perda de água - sobretudo para alfaces, ervilhas e aromáticas tenras em julho/agosto.

Resumo do que costuma funcionar melhor:

  • Enchimento em camadas (retenção + estrutura)
  • Mulch permanente (5–8 cm, renovado)
  • Rega lenta e direcionada (idealmente sob o mulch)
  • Reposição regular de matéria orgânica (composto/folhas/estrume bem curtido)
  • Alguma proteção a vento/sol quando o local é extremo

Um canteiro que aprende o seu clima com o tempo

O primeiro ano tende a ser o mais “sedento”, porque o enchimento ainda é recente, poroso e instável. À medida que adiciona matéria orgânica, mantém mulch e afina a rega, o canteiro muda: retém mais água sem ficar encharcado, cria melhor estrutura e as raízes exploram mais fundo.

Use as plantas como indicadores rápidos de humidade:

  • Alface, ervilhas e coentros mostram stress cedo (murcham/espigam).
  • Tomate, pimento e beringela aguentam mais, mas produção cai se o stress for contínuo.
  • Aromáticas perenes (alecrim, tomilho) preferem menos água - rega excessiva pode ser pior do que falta moderada.
Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Faça camadas no enchimento Fundo grosseiro + camada com terra/composto + topo de plantação Mais retenção e menos secagem súbita
Cubra a superfície Mulch 5–8 cm Menos evaporação, solo mais fresco
Regue de forma diferente Rega lenta e profunda, idealmente gota-a-gota sob mulch Menos trabalho e água onde interessa

FAQ:

  • Porque é que a terra do meu canteiro elevado se afasta das laterais?
    É encolhimento: misturas com muito composto secam, contraem e criam fendas que ventilam o canteiro. Solução prática: reidratar lentamente (sem “lavar” o solo), preencher fendas com composto e manter mulch para estabilizar.

  • Com que frequência devo regar canteiros elevados no verão?
    Não há calendário único. Regra simples: verifique a 5–7 cm de profundidade. Se estiver seco aí, é hora de regar. Em tempo quente, muitas pessoas acertam mais com 2–3 regas profundas/semana do que com regas leves diárias.

  • Canteiros elevados de metal são piores para secar?
    Muitas vezes sim, porque o metal aquece e transmite calor ao solo, sobretudo em faces viradas a sul. Ajuda: mulch consistente, plantar um pouco mais denso nas bordas e, se necessário, sombra parcial nas horas mais fortes.

  • Devo pôr pedras ou brita no fundo para drenagem?
    Na maioria dos casos, não. Tende a acelerar a saída de água da zona das raízes e não resolve “drenagem” como se imagina. É mais útil uma base orgânica grossa (ramos/paus) e um solo com boa estrutura.

  • Consigo corrigir um canteiro elevado demasiado seco sem o reconstruir?
    Sim. Faça uma rega lenta e completa, aplique mulch espesso, e ao longo da estação faça coberturas finas com composto. Se a água estiver a “fugir” pelos lados, abra alguns buracos estreitos e profundos e encha com composto húmido para criar caminhos de infiltração para o interior.

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