On a tous déjà vécu ce momento em que uma bandeira ondula ao vento, uma multidão canta a uma só voz e, durante alguns segundos, tudo parece simples.
Orgulho, arrepio, pertença. Depois a realidade volta, com as suas contas, as suas dívidas, as suas crises climáticas e os seus orçamentos públicos a rebentar pelas costuras. Entre a euforia nacional e as colunas de números, instala-se um mal-estar discreto. A que preço se constroem estas montras de grandeza nacional - estes megaprojetos, estes exércitos high-tech, estes Jogos “históricos”? E, acima de tudo: quem os vai pagar realmente?
Introdução. Uma noite amena numa capital. As luzes do estádio nacional acabado de inaugurar brilham a branco contra um céu roxo, e os foguetes sobem no ar como dívidas luminosas. Famílias tiram selfies. Crianças agitam bandeiras de plástico feitas algures muito longe. Um ministro corta a fita e chama-lhe “um presente para os nossos filhos”. Para lá da multidão a aclamar, na paragem de autocarro, uma enfermeira percorre as notícias no ecrã do seu telemóvel rachado. Inflação, novos empréstimos, cortes nos serviços locais. Olha de novo para o estádio iluminado e expira. O orgulho parece real. Os números também. Entre o hino e a folha de cálculo, há algo que não bate certo. A verdadeira pergunta é mais fria do que o ar da noite.
Quando a glória nacional vem a crédito
Passeie por qualquer cidade que acabou de acolher um grande evento ou de construir um enorme projeto de “legado” e sente-se a ressaca. Ruas forradas a faixas, mas lojas pequenas fechadas. Infraestruturas reluzentes, mas salários congelados ou a cair. Os políticos chamam-lhe construção da nação; as pessoas comuns chamam-lhe “mais uma conta que não escolhemos”. O patriotismo pode parecer uma celebração partilhada, mas muitas vezes esconde uma transferência silenciosa: alegria hoje, prestações amanhã. A história soa heroica na televisão. Parece diferente quando se fixa na app do banco num domingo à noite.
A Grécia conhece essa história demasiado bem. Antes dos Jogos Olímpicos de 2004, Atenas apressou-se a construir estádios, autoestradas, linhas de elétrico, um aeroporto novo. Durante algum tempo, resultou: o orgulho estava por todo o lado, o país em todos os ecrãs. Depois veio a crise da dívida. Muitos recintos enferrujaram, ervas a trepar por bancadas vazias, enquanto o desemprego jovem grego subia acima dos 50%. A dívida pública ultrapassou os 180% do PIB. A festa do sonho acabou, mas as prestações mensais ficaram. O mesmo padrão repete-se em países que correm atrás de alta velocidade ferroviária, programas gigantes de defesa, ou torres “as mais altas do mundo”: o prestígio nacional sobe, as folhas de cálculo ficam a vermelho.
Há uma lógica simples por baixo da emoção. Grandes projetos simbólicos raramente morrem no parlamento, porque nenhum líder quer ser “aquele que disse não à nação”. Assim, os custos são empurrados para o futuro através de obrigações de longo prazo, acordos público-privados opacos e previsões de crescimento cor-de-rosa. Os economistas chamam-lhe “transferência do fardo entre gerações” - gastar capital político agora, gastar dinheiro a sério mais tarde. A distância entre o que parece glorioso e o que é sustentável alarga-se em silêncio. Quando os adolescentes de hoje se tornarem contribuintes, herdam não só estradas e estádios, mas também os juros de escolhas que nunca fizeram. O orgulho envelhece; o juro composto nunca se cansa.
Como identificar a linha entre orgulho e fardo
Há um teste prático que qualquer cidadão pode usar. Antes de aplaudir uma nova iniciativa “histórica”, procure três números: custo total, fonte de financiamento e horizonte temporal de reembolso. Se nenhum destes aparece de forma clara em discursos ou manchetes, é um sinal de alerta. Pergunte: este projeto gera rendimento futuro, ou é sobretudo simbólico? Um hospital tende a compensar em produtividade e saúde. Um monumento dourado raramente o faz. Quando os líderes falam apenas de “grandeza” e “destino” e nunca de custos de manutenção, o seu alarme interior deve começar a zumbir baixinho.
A maioria de nós não é macroeconomista. Estamos cansados depois do trabalho, passamos os olhos por artigos no telemóvel, meio adormecidos nos transportes públicos. É precisamente por isso que a linguagem vaga é tão poderosa. “Investimento estratégico”, “renovação nacional”, “oportunidade de uma vez por século” - tudo soa irresistível. Sejamos honestos: ninguém lê realmente as anexos orçamentais todos os dias. Um hábito pequeno e concreto ajuda: sempre que um governo anuncia algo enorme, procure reações de entidades orçamentais independentes, ONG de fiscalização ou estudos universitários. Se os especialistas discordam de forma selvagem sobre custos ou benefícios, é outro sinal de que o projeto pode inclinar mais para fogo-de-artifício do que para alicerce.
Há também um lado moral que não cabe bem em folhas de cálculo. É justo celebrar conquistas pagas por pessoas que ainda não nasceram? Muitos jovens adultos já equilibram empréstimos estudantis, empregos precários e rendas a disparar. Acrescentar dívida nacional para projetos de prestígio pode parecer um imposto duplo sobre o futuro deles. Como me disse um jovem ativista em Seul:
“Os meus avós pagaram a guerra, os meus pais pagaram o desenvolvimento, e à minha geração pedem que pague o branding.”
- Procure transparência: custos, prazos e planos de retorno claros.
- Valorize projetos aborrecidos: reparações, escolas, resiliência climática em vez de brilho.
- Fale de compensações: o que é que não estamos a financiar para construir isto?
- Inclua as vozes dos jovens: se vão pagar, devem ajudar a decidir.
- Recompense líderes que dizem “não agora” tanto quanto os que dizem “sim”.
Repensar o que “orgulho nacional” realmente significa
Talvez o problema não seja o orgulho em si, mas aquilo de que escolhemos orgulhar-nos. Um país pode brilhar porque construiu o maior estádio, ou porque nenhuma criança passa fome. Pode ser famoso por desfiles, ou por tratamentos oncológicos gratuitos. Investimentos silenciosos e pacientes em educação, habitação social e segurança climática não se prestam a cerimónias dramáticas, mas moldam como as pessoas livres realmente se sentem. Um orgulho assente no bem-estar real é mais difícil de medir, mais leve de carregar. Quando se pergunta aos cidadãos o que verdadeiramente os comove, muitos falam de segurança, dignidade e justiça muito antes de mencionarem monumentos.
A política emocional adora atalhos. Bandeiras, hinos, passagens aéreas militares - encaixam na perfeição num ecrã e num discurso. A responsabilidade de longo prazo é mais confusa. Implica admitir limites, dizer não a alguns sonhos, explicar trocas como um adulto a outros adultos. Os líderes temem que essa honestidade lhes custe votos, por isso embrulham a contenção em silêncio. As pessoas comuns sentem a discrepância, o que alimenta o cinismo: “Dizem-nos para apertar o cinto enquanto eles cortam fitas.” Quebrar esse ciclo começa em conversas, não em ministérios. À mesa do jantar, nas caixas de comentários, nas reuniões da escola, as pessoas podem fazer a pergunta incómoda: estamos bem em deixar esta conta em cima da mesa dos nossos filhos?
O orgulho nacional não tem de ser um jogo de soma zero em que cada festival significa menos uma cama de hospital. Feito como deve ser, pode até apoiar a responsabilidade. Países que se gabam de equilibrar as contas públicas, reduzir a pobreza infantil ou cumprir metas climáticas estão discretamente a reescrever o guião. Mostram que o ego coletivo pode ligar-se à paciência, e não apenas ao espetáculo. A escolha é cultural tanto quanto financeira: celebramos o político que “trouxe os Jogos para casa”, ou aquele que, em silêncio, arranjou o sistema de abastecimento de água? Um dá um título empolgante. O outro talvez permita que a próxima geração respire um pouco mais livre.
Assim, o fumo do fogo-de-artifício dissipa-se, as bandeiras dobram-se e a vida retoma o seu ritmo menos cinematográfico. O estádio continua de pé. A dívida também. Entre os dois, fica suspensa uma pergunta que nenhum slogan governamental consegue apagar por completo: o que queremos que os nossos futuros cidadãos herdem quando abrirem as contas e olharem para trás, para nós? Alguns dirão que o risco e a audácia fazem parte do progresso. Outros defenderão que a prudência é um ato de amor. Talvez a resposta honesta esteja algures nessa tensão - um país orgulhoso o suficiente para sonhar em grande e humilde o suficiente para pagar a sua própria conta. É uma conversa que vale a pena ter em voz alta, antes de se cortar a próxima fita.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Custo real do orgulho nacional | Grandes projetos, dívidas públicas, encargos transferidos para as gerações mais jovens | Compreender quem paga concretamente as escolhas “históricas” |
| Identificar o limite entre símbolo e fardo | Verificar custos, fontes de financiamento, retornos futuros, transparência | Adotar um reflexo crítico antes de aplaudir ou rejeitar |
| Redefinir o que torna um país orgulhoso | Privilegiar bem-estar, justiça social e sustentabilidade em vez de prestígio vazio | Projetar-se num modelo de orgulho que não destrói o futuro |
FAQ:
- A dívida nacional é sempre uma coisa má? Nem sempre. Dívida usada para investimentos produtivos - como educação, infraestruturas ou transição verde - pode gerar valor futuro que supera o seu custo.
- Como posso perceber se um projeto é sobretudo simbólico? Procure promessas vagas, fontes de receita pouco claras e foco na imagem em vez de benefícios práticos para a vida quotidiana.
- Que papel têm os eventos internacionais neste debate? Eventos como Mundiais ou Jogos Olímpicos criam explosões curtas de orgulho e turismo, mas muitas vezes deixam custos financeiros e ambientais de longo prazo.
- As gerações mais novas conseguem influenciar estas escolhas? Sim. Através do voto, do ativismo e do debate público, podem pressionar por orçamentos climáticos, despesa social e transparência em vez de projetos de vaidade.
- Como é um “orgulho nacional responsável”? É um orgulho assente em impostos justos, orçamentação honesta e investimentos que melhoram a vida de cidadãos presentes e futuros - e não apenas manchetes durante algumas semanas.
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