A primeira vez que reparei mesmo num pisco-de-peito-ruivo foi numa dessas manhãs de janeiro geladas até aos ossos, quando o jardim soa a silêncio. Sem abelhas, sem corta-relvas - apenas o estalar da geada debaixo das botas. Eu estava à janela da cozinha, mãos à volta de uma caneca, quando um lampejo de vermelho pousou na vedação, cabeça inclinada, olho escuro fixo em algo que eu não conseguia ver.
Depois vi-o. Uma única baga alaranjada, ainda agarrada teimosamente a um ramo nu, enquanto tudo o resto já se tinha rendido ao inverno. O pisco aproximou-se aos saltinhos, apanhou-a num instante e ficou. Não por um segundo. Por toda a semana.
Desde então, todos os invernos, reparo no mesmo ritual silencioso. O jardim despido, as bagas brilhantes, o pisco fiel que se recusa a ir embora.
Há um fruto que eles parecem amar mais do que qualquer outro.
O fruto de inverno que faz os piscos voltar
Em inúmeros jardins britânicos e norte-americanos, os observadores de aves notam repetidamente o mesmo. Quando o inverno deixa canteiros e relvados numa paleta baça e gelada, há uma planta que continua a parecer estranhamente festiva. Uma pequena árvore ou arbusto, com ramos salpicados de esferas laranja-avermelhadas luminosas - cada uma como uma pequena lanterna contra o cinzento.
É a humilde macieira-brava (crabapple).
Não as maçãs reluzentes do supermercado na fruteira, mas as suas primas selvagens e ácidas, que aguentam o frio. Estas mini-maçãs não caem e apodrecem tão depressa. Mantêm-se presas durante todo o inverno, amolecendo o suficiente para um pisco faminto lhes enterrar o bico minúsculo.
Passe um domingo tranquilo a observar uma macieira-brava em janeiro e o padrão torna-se óbvio. Um pisco aparece ao romper do dia, pousa mais baixo, asas ligeiramente descaídas, como se estivesse a testar o ar. Bica um fruto, depois outro, por vezes arrastando uma “baga” para um ramo próximo para comer em paz.
Os jardineiros contam histórias muito parecidas. “Assim que as maçãzinhas ficam moles, o meu pisco praticamente muda-se para cá”, disse-me um professor reformado de Kent, a rir. Outro, na Pensilvânia, chama à sua macieira-brava “o hotel dos piscos”, porque as aves se alinham nos ramos nas manhãs geladas.
Pode não dar por isso no primeiro dia. Mas, uma semana depois, percebe que é o mesmo pisco, à mesma hora, na mesma árvore.
Há uma lógica simples por detrás desta lealdade. Os insetos desaparecem. Os relvados ficam rijos como pedra. As hastes com sementes colapsam sob a neve. Para uma ave pequena como o pisco, o inverno é uma crise energética diária. As maçãzinhas entram discretamente em cena como uma fonte de alimento densa em calorias e de “libertação lenta”, precisamente quando faz mais falta.
O fruto costuma manter-se muito para lá da primeira geada - e esse frio transforma as maçãs duras como rocha em bocados doces e macios. Fermentam ligeiramente, os amidos degradam-se e, de repente, uma bolinha amarga torna-se numa guloseima açucarada.
Os piscos aprendem depressa. Assim que mapeiam um “posto” de alimentação fiável no inverno, defendem-no. Por isso tantos jardineiros relatam o mesmo pássaro teimoso e eriçado a voltar ao “seu” crabapple dia após dia, expulsando rivais como um minúsculo senhorio de penas.
Como transformar a sua macieira-brava num íman para piscos
Trazer esta magia para o seu jardim começa muito antes do inverno. O segredo é escolher a variedade certa de macieira-brava e plantá-la no sítio certo. Opte por tipos ornamentais de fruto pequeno como ‘Evereste’, ‘Red Sentinel’ ou ‘Golden Hornet’. O fruto mantém-se por mais tempo, muitas vezes até ao fim do inverno e ao início da primavera.
Plante a macieira-brava onde a consiga ver de uma janela que usa com frequência. Perto da cozinha, junto à sala, em frente à secretária. Não está apenas a alimentar aves - está a dar-se um lugar na primeira fila.
Uma posição soalheira, solo razoável e algum espaço para a copa se expandir costumam bastar. Depois, é esperar. A verdadeira recompensa chega quando a primeira geada cai e o resto do jardim desiste.
Muita gente desiste após um inverno porque nada de dramático acontece de imediato. A árvore é pequena, o fruto parece duro e pouco apetecível, e os piscos não parecem interessados. A natureza não funciona segundo os nossos prazos.
Na prática, árvores jovens demoram alguns anos a produzir colheitas generosas, e as aves precisam de tempo para aprender que o seu jardim vale a visita. Não corte o fruto “feio” e enrugado no outono. Essa “desordem” é exatamente o que as aves de inverno esperam que deixe.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, mas até um olhar rápido semanal para a árvore no inverno lhe dirá se a rotina do pisco está a começar. Vai ver marcas de bicadas, frutos meio comidos e pequenos visitantes de penas a tomar notas mentais.
“Quando a minha macieira-brava amadureceu, percebi que o pisco não se limitava a visitar”, diz a observadora de aves Hannah Briggs, com muitos anos de experiência. “Ele começou a patrulhar. Ficava ali, peito empertigado, a expulsar melros com o dobro do tamanho, só para ficar com aqueles frutos para si. Foi aí que soube que a árvore se tinha tornado a âncora dele no inverno.”
- Escolha uma cultivar de macieira-brava de fruto pequeno que mantenha o fruto até tarde no inverno.
- Plante-a onde as aves se sintam seguras: longe de passagens muito movimentadas, mas perto de abrigo como sebes.
- Resista à tentação de podar e remover todo o fruto velho ou enrugado no outono.
- Adicione uma fonte de água rasa nas proximidades, pois a geada seca pode ser tão difícil quanto a fome.
- Mantenha a zona relativamente tranquila ao início da manhã, quando os piscos gostam de comer em paz.
Quando uma árvore se transforma num ritual de inverno
Depois de ver um pisco a tratar uma macieira-brava como a sua despensa pessoal, é difícil olhar para os jardins de inverno da mesma forma. De repente, aqueles ramos nus não parecem apenas vazios; parecem oportunidades perdidas. Uma única árvore pequena pode mudar o ritmo de toda uma estação fria - para si e para as aves que observam desde a sebe.
Pode começar a reparar noutras coisas também. Como a primeira geada aprofunda a cor do fruto. O trânsito silencioso de outros visitantes: melros, piscode-peito-ruivo? (robins) - aqui já; talvez um grupo de tagarelas, talvez um tordo tímido a entrar entre visitas do pisco.
Alguns invernos são duros, daqueles que nos fazem puxar o edredão para cima da cabeça e desejar que passem depressa. Depois apanha um relance daquele pisco teimoso e fiel a abrir caminho pelas maçãzinhas - e o frio parece um pouco menos vazio.
É apenas uma árvore. Um tipo de fruto. E, no entanto, para uma ave minúscula e para a pessoa que observa da janela, isso pode bastar para sustentar uma estação inteira.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Plante macieiras-bravas | Variedades de fruto pequeno, que mantêm o fruto até tarde, como ‘Red Sentinel’, atraem piscos no inverno | Transforma o seu jardim num posto de alimentação fiável no inverno |
| Deixe a “desordem” | Não remova o fruto velho ou enrugado no outono; os piscos alimentam-se do fruto amolecido | Aumenta a disponibilidade de alimento quando insetos e sementes são escassos |
| Crie uma zona de alimentação segura | Combine macieiras-bravas com abrigo e água por perto e limite a perturbação ao amanhecer | Incentiva os piscos a manterem-se fiéis ao seu jardim, em vez de apenas passarem |
FAQ:
- Os piscos preferem mesmo macieiras-bravas no inverno? Sim. Muitos observadores de aves relatam piscos a regressar repetidamente às macieiras-bravas quando o fruto amolece após a geada, porque a polpa rica em energia é fácil de comer quando há pouca comida disponível.
- Posso usar apenas fatias de maçã normal em vez de plantar uma árvore? Pode oferecer maçã cortada num comedouro ou mesa de alimentação, e os piscos podem comê-la, mas uma árvore fornece alimento e abrigo contínuos e naturais durante vários meses.
- Quanto tempo demora uma macieira-brava a atrair aves? Normalmente, alguns anos até produzir fruto em quantidade e mais uma ou duas estações para os piscos locais a “adotarem” plenamente como local regular de alimentação.
- As macieiras-bravas atraem outras aves além dos piscos? Sim. Melros, tordos, estorninhos, tagarelas e até gaios podem visitar, transformando o seu jardim num polo animado no inverno.
- Preciso de proteger o fruto com rede? Não. O objetivo é permitir que as aves acedam livremente ao fruto; evite apenas podas fortes no fim do verão, para não remover a produção em desenvolvimento de que irão depender no inverno.
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