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O truque da bola de ténis para destrancar o carro quando as chaves ficam lá dentro.

Pessoa coloca uma bola de ténis num carro, perto de um caderno e telemóvel sobre o capô, com chaves no para-brisa.

O pesadelo começa: a porta fechou, as chaves ficaram lá dentro e a internet diz que uma bola de ténis resolve. Antes de estragar a fechadura (ou o dia), vale perceber o que este “hack” promete e o que acontece num carro real.

O truque viral da bola de ténis, explicado

A receita é sempre a mesma: fazer um buraco numa bola de ténis, encostar o buraco ao canhão da fechadura e esmagar a bola com força.

Os vídeos dizem que o “jato” de ar entra pelo canhão, mexe no mecanismo e destranca o fecho central.

A alegação: o ar comprimido de uma bola de ténis gera pressão suficiente para acionar a fechadura através do canhão.

O problema é que, para a pressão fazer algum trabalho, teria de haver vedação quase perfeita entre bola e canhão (não há) e um caminho de ar até ao mecanismo interno (muitas vezes não existe).

O que o MythBusters e os especialistas realmente descobriram

Testes independentes - incluindo o MythBusters - tentaram replicar o método em vários veículos.

O veredito: o truque da bola de ténis não cria pressão útil para destrancar fechaduras modernas; foi considerado “desmentido”.

Serralheiros automóveis relatam o mesmo por motivos práticos:

  • O ar escapa imediatamente pelo próprio buraco e pelas folgas do canhão, por isso a “explosão” perde força quase toda.
  • Em muitos modelos, o canhão não tem ligação mecânica direta às hastes da fechadura; aciona um componente interno e/ou um interruptor. Ar na face do cilindro não chega a esse ponto.
  • Há carros recentes em que nem existe canhão acessível em todas as portas (ou está oculto), tornando o truque impossível à partida.

Em resumo: não é uma técnica fiável - e tentar repetidamente só aumenta o risco de danos.

Porque é que ainda circulam alguns vídeos de “sucesso”

Se falha em testes, porque é que parece funcionar em alguns clips? Normalmente por duas razões: o carro é antigo/atípico, ou o vídeo não mostra a história toda.

Sistemas de fecho antigos vs. tecnologia nova

Muitos “sucessos” apontam para carros mais antigos (anos 1980/início de 1990), com sistemas menos protegidos, por vezes com:

  • Ligações mecânicas simples do canhão ao fecho
  • Componentes mais gastos e com folgas maiores
  • Em alguns casos, sistemas com atuação por vácuo/pressão (dependendo do modelo)

Mesmo aí, seria preciso uma combinação muito específica de desgaste, ângulo e sorte. Na prática, é pouco repetível.

Nos carros atuais, as portas e fechaduras são desenhadas para dificultar precisamente este tipo de acesso: proteções internas, mecanismos mais fechados e integração com eletrónica/alarme. Um impulso de ar não chega ao que interessa.

Truques de edição e demonstrações encenadas

Outra parte da explicação é menos técnica: vídeos com cortes, tentativas falhadas omitidas, ângulos que escondem alguém a destrancar com comando, ou carros já destrancados antes da gravação.

Num formato que recompensa “milagres” rápidos, a encenação é comum - e quem fica a perder é quem tenta replicar no mundo real.

Opções reais quando tranca as chaves dentro do carro

Quando acontece mesmo, o objetivo é entrar sem partir nada (e sem criar uma avaria cara por “poupança”).

Se houver uma criança, idoso dependente ou animal preso no carro, trate como urgência: ligue 112 e peça ajuda. Não perca tempo com truques.

Hábitos de prevenção que realmente compensam

Prevenir custa pouco e evita quase todos os cenários:

  • Tenha uma chave suplente (em casa, com alguém de confiança, ou num local seguro no trabalho).
  • Habitue-se a trancar com o comando/chave por fora, não com o botão interior, para “obrigar” a ter a chave na mão.
  • Se o seu carro tiver app oficial/serviços conectados, configure antes (muitas permitem destrancar à distância).
  • Confirme no manual se o carro tem proteção contra trancar com a chave lá dentro - existe em muitos modelos, mas não em todos e pode falhar (ex.: chave de reserva dentro do carro).

Seguro e assistência em viagem

Em Portugal, muitas apólices (e serviços tipo assistência em viagem/clubes automóveis) incluem abertura de porta ou envio de reboque/ajuda no local, mas os limites variam.

Antes de meter cabides, chaves de fendas ou “hacks” nos vedantes, veja a apólice/app e ligue para a assistência: a intervenção certa costuma sair mais barata do que reparar danos.

Equipas de assistência e serralheiros usam cunhas de plástico e ferramentas próprias para reduzir o risco de:

  • marcar a pintura e os frisos
  • estragar o vedante (depois entra água/vento)
  • interferir com cablagens e airbags laterais

Quando chamar um serralheiro automóvel

Se a assistência não cobre (ou demora), um serralheiro automóvel é, em muitos casos, o caminho mais rápido. Em cidades e principais eixos, é comum haver serviço 24/7.

Opção Intervalo de custo típico* Principal vantagem
Assistência em viagem Muitas vezes incluída (ou franquia baixa) Menos custo e menos risco
Serralheiro automóvel ~60–180 € Rápido e preparado para carros modernos
Partir um vidro ~150–450 €+ Entrada imediata, mas com danos e substituição

*Valores frequentemente variáveis por zona, hora (noite/fim de semana) e complexidade do veículo.

Partir um vidro raramente é “o fim”: além do vidro, há limpeza de estilhaços, possível dano no elevador do vidro e risco de infiltrações se a montagem ficar imperfeita.

Porque é que truques improvisados podem sair pela culatra

Cabides, laços e alavancas podem até funcionar em carros antigos com botões simples, mas nos atuais os riscos sobem muito:

  • Airbags laterais e respetiva cablagem podem estar na zona da moldura/porta; mexer às cegas é má ideia.
  • Forçar a porta pode desalinhá-la: depois surgem ruídos aerodinâmicos, água a entrar e desgaste prematuro do vedante.
  • Ferramentas metálicas riscam facilmente a película/vidro e podem danificar mecanismos do elevador.

Um “grátis” de 5 minutos pode virar uma reparação cara se afetar vedantes, sensores ou componentes de segurança.

E ainda há a parte prática: se o alarme dispara ou algo fica danificado, o “truque” passa a ser mais caro do que uma abertura profissional.

Um rápido teste de realidade para hacks virais de carros

Antes de tentar qualquer método que prometa derrotar um carro com um objeto doméstico, faça este filtro rápido:

  • Que carro é? Um modelo antigo não representa um veículo atual.
  • O vídeo é contínuo (sem cortes) e mostra tudo, inclusive a fechadura/fecho?
  • O método faz sentido com o sistema real (mecânico vs. eletrónico vs. keyless)?
  • Há testes independentes (mecânicos, serralheiros, defesa do consumidor) a confirmar?

A lição é simples: fechaduras e sistemas de entrada evoluíram para resistir a tentativas improvisadas. O que continua a funcionar, ano após ano, é o básico bem preparado: chave suplente, assistência ativa e contactos à mão.

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