Monday, 8:57 da manhã
O teu portátil ronca em cima da mesa da cozinha, o café ainda está quente demais e, tecnicamente, estás “no escritório” - a usar meias com um buraco. A câmara está desligada, a lista de tarefas está aberta noutro separador e o polegar continua a derivar para o Instagram como se tivesse vontade própria. Olhas para a roupa para lavar. A cama. O sofá. O último email do teu chefe com “uma atualização rápida?”.
Estás a trabalhar ou apenas a fingir, com alguma delicadeza, que estás?
A linha entre a preguiça e a libertação nunca pareceu tão fina.
Estamos a ficar preguiçosos ou, finalmente, a respirar?
O grande medo em torno do trabalho a partir de casa é sempre o mesmo: que todos vamos escorregar para uma preguiça em forma de pijama e nunca mais voltamos. Os chefes imaginam funcionários a ver Netflix com um relatório meio escrito ao lado. Os pais imaginam-se a afogar-se em loiça e notificações. E algures entre esses dois pesadelos, a vida real acontece.
A maioria das pessoas não acorda a pensar: “Como é que posso evitar trabalho hoje?” Acorda cansada, sobre-estimulada e um pouco farta de ser vigiada em escritórios em open space.
Vejamos a Camille, 32 anos, gestora de projetos em Paris. Antes de 2020, passava duas horas por dia no metro, mais outra hora a ficar pelo escritório só para provar que era “comprometida”. Chegava a casa às 20h, com o cérebro em papa, a fazer scroll por anúncios de emprego aos quais nunca tinha energia para responder.
Desde que passou a trabalhar maioritariamente à distância, a Camille levanta-se mais tarde, trabalha de leggings e, de facto, termina às 18h. Faz ioga duas vezes por semana. O seu manager brinca que ela “amoleceu”. Os resultados dizem o contrário: projetos entregues mais cedo, menos erros, menos baixas por doença. A única coisa que desapareceu foi o teatro da azáfama.
Quando as pessoas dizem “o remoto torna-te preguiçoso”, muitas vezes querem dizer “não te vejo a sofrer, por isso desconfio”. Os escritórios recompensam esforço visível: ficar até tarde, parecer stressado, teclar alto. Trabalhar a partir de casa remove esse palco e substitui-o por algo mais assustador para alguns gestores: confiança.
Os psicólogos são diretos: a maioria dos humanos não é naturalmente preguiçosa; é naturalmente poupadora de energia. É uma diferença enorme. Se o teu trabalho parece inútil, tóxico ou vigiado, vais arrastar os pés no escritório ou em casa. Se o teu trabalho tem significado e o teu horário tem oxigénio, normalmente fazes mais, não menos. A verdadeira pergunta não é “o remoto torna-te preguiçoso?”, mas “o que é que andámos a chamar produtividade todos estes anos?”
De pijamas caóticos a um ritmo são e humano
Há um teste simples para saber se o trabalho remoto te está a libertar ou a entorpecer: olha para o teu dia, não para o teu cargo. Se as tuas horas são um borrão de pings do Slack e tarefas a meio, não estás a ser preguiçoso - estás inundado. Começa brutalmente pequeno: uma hora clara para começar. Uma hora clara para acabar. Uma pausa de almoço a sério, longe do ecrã.
Depois escolhe apenas três tarefas inegociáveis para o dia. Não dez. Não uma coluna inteira do Trello. Três. Se terminares essas, “ganhaste” o dia. Tudo o resto é bónus, não é prova de que mereces o teu salário.
Muitos trabalhadores remotos caem num buraco estranho de culpa. Sentem-se mal se metem uma máquina de roupa entre dois emails, mal se respondem tarde a uma mensagem, mal se fecham o portátil às 17h30 enquanto colegas escrevem no chat “ainda aqui a dar no duro”. Essa culpa não é sinal de preguiça. É o fantasma da cultura de escritório a viver, sem pagar renda, no teu corredor.
A armadilha clássica é tentar recriar o escritório em casa: chamadas umas atrás das outras, sem limites, responder em 30 segundos a cada ping. Isso não prova dedicação - só derrete o cérebro. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. E os que fingem, muitas vezes rebentam em silêncio, fora da câmara.
“O trabalho remoto não me tornou preguiçoso”, disse-me um programador em Berlim. “Mostrou-me o quão exausto eu estava. Quando isso me caiu a ficha, deixei de confundir modo de sobrevivência com produtividade.”
- Cria um pequeno “ritual de deslocação” em casa
Portátil fechado? Dá uma volta ao quarteirão, muda de roupa, ou até apenas acende uma lâmpada específica para marcar o fim do dia. - Protege um bloco de “foco profundo”
Noventa minutos com todas as notificações desligadas, o telemóvel noutra divisão e uma tarefa no ecrã. É aí que vive a produção a sério. - Separa preguiça de descanso
Ver séries em maratona às 15h todos os dias pode ser evitamento. Uma sesta de 20 minutos ou uma pausa com um livro pode, na verdade, salvar a tua tarde do burnout. - Faz um check-in honesto por semana
Pergunta-te em voz alta: “Estou a esconder-me do trabalho ou estou a recuperar dele?” A resposta muda o que precisas a seguir.
Para lá de escritórios tóxicos e sofás confortáveis
Trabalhar a partir de casa pode parecer uma rebelião silenciosa contra luzes fluorescentes, bolos de aniversário obrigatórios e emboscadas de “tens um minuto?”. Para alguns, é a primeira vez que trabalham sem serem interrompidos a cada 6 minutos. Para outros, é uma armadilha: o drama do escritório desapareceu, mas também a conversa casual que os mantinha sãos. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
O trabalho remoto não cura magicamente culturas tóxicas. Emails passivo-agressivos viajam tão depressa como comentários sarcásticos junto à máquina de café. O que muda é a distância. Tens mais controlo sobre o teu espaço físico, o volume, as pausas. Podes sussurrar “não” antes de escrever “como discutido na semana passada…”.
Algumas pessoas descobrem em casa que o verdadeiro problema nunca foi o escritório. Era um chefe que acha que presença é igual a lealdade. Ou uma empresa que valoriza tarefas urgentes acima de trabalho profundo. Ou uma função que nunca jogou a favor dos seus pontos fortes. O sofá não criou isso. Apenas removeu as últimas distrações que o escondiam.
Do outro lado, muita gente prospera genuinamente ao ir ao escritório. Gostam de se arranjar, ouvir teclados a bater, fazer conversa junto ao micro-ondas. Chamá-los “dinossauros” falha o ponto. O verdadeiro futuro do trabalho provavelmente vai ficar algures no meio confuso: uma mistura de remoto, escritório e escolha pessoal - não uma ideologia rígida sobre onde acontece o trabalho “a sério”.
O debate preguiçoso vs. libertado é barulhento, mas a maioria das pessoas vive discretamente na zona cinzenta. Alguns dias és uma máquina: caixa de entrada a zero, tarefas esmagadas, almoço preparado. Noutros dias, a única vitória é responder a dois emails e finalmente tomar banho às 15h. Isso não significa que falhaste. Significa que és um humano cuja energia vem em ondas, não um router Wi‑Fi preso nos 100% para sempre.
Escritórios tóxicos nunca tornaram ninguém mais profissional, apenas mais performativo. Trabalhar a partir de casa não vai, automaticamente, salvar a tua saúde mental - mas pode dar-te espaço para notares o que a está realmente a drenar. A partir daí, podes começar a desenhar uma forma de trabalhar que pareça menos sobrevivência e mais uma vida adulta da qual não precisas de “férias” todos os meses.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Remoto não é igual a preguiça | Energia, significado e confiança impulsionam mais a produtividade do que a presença física | Alivia a culpa e ajuda-te a avaliar os dias pelos resultados, não pelas horas online |
| Estrutura simples vence a auto-vigilância | Início/fim claros, três tarefas-chave, um bloco de foco profundo | Transforma dias caóticos em casa em algo estável e sustentável |
| A liberdade revela problemas reais | O trabalho remoto expõe culturas tóxicas e funções desalinhadas | Dá-te pistas sobre o que negociar, mudar ou, eventualmente, deixar |
FAQ:
- Trabalhar a partir de casa reduz mesmo a produtividade? A maioria dos grandes estudos mostra produtividade igual ou ligeiramente superior em trabalhadores remotos, especialmente quando têm controlo sobre o horário e menos reuniões inúteis.
- Porque é que me sinto culpado por fazer pausas em casa? Provavelmente internalizaste normas de escritório em que ser visto equivale a ser produtivo. Em casa, as pausas são invisíveis, por isso parecem “erradas” mesmo quando te ajudam a trabalhar melhor.
- Como posso deixar de me sentir tão lento durante o dia? Começa pelo básico: luz do dia, movimento, hidratação e uma pausa real longe dos ecrãs. Muitas vezes, a quebra é sobrecarga física - não falha moral.
- E se o meu manager achar que remoto é “andar a fazer pouco”? Leva a conversa para resultados. Partilha objetivos claros, prazos e entregáveis. Progresso visível é um argumento mais forte do que defender cada hora.
- É normal ter saudades do escritório, mesmo que fosse stressante? Sim. Os humanos são sociais, e até rotinas irritantes podem ser reconfortantes. Podes ter saudades do “buzz” e, ainda assim, querer uma forma de trabalhar mais saudável e flexível.
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