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O sinal silencioso de esgotamento que quase todos ignoram

Mulher escreve num caderno em frente a um portátil numa cozinha, com uma chávena de café ao lado.

On parle-se muitas vezes de burn-out como um colapso espetacular: lágrimas no escritório, baixa médica, apagão total.

A realidade, para muita gente, parece-se mais com uma deriva lenta. Continuas a responder a emails, a entregar dentro dos prazos, a fazer o que esperam de ti. Sorris em videochamada, publicas no LinkedIn, preenches as caixinhas. Por fora, parece que está tudo sob controlo.

Por dentro, é outra história. Os dias sucedem-se como num nevoeiro morno, sem relevo. Não estás “mal” no sentido clássico, não desmoronas. Sentes-te apenas… ausente da tua própria vida. Nem bem aqui, nem bem noutro lado.

E é aí que se esconde o sinal silencioso de burn-out que quase toda a gente ignora.

O sinal de burn-out que se esconde à vista de todos

O sinal silencioso de que ninguém fala não é o cansaço. Nem a ansiedade. É quando vais deixando, pouco a pouco, de sentir seja o que for em relação ao que realmente importa para ti. Os projetos que te entusiasmaram deixam-te indiferente. As vitórias tornam-se mecânicas. Anuncias uma boa notícia e ouves a tua própria voz a soar vazia.

Não é dramático num dia. Nem numa semana. É quando se instala que se torna perigoso. Continuas a avançar, mas em piloto automático, como se alguém tivesse baixado a saturação de toda a tua vida. Tudo funciona, mas já nada vibra.

Vejamos a Emily, 34 anos, gestora de projeto numa start-up londrina. No Slack, é a colega “fiável”, aquela que responde depressa, que desenrasca toda a gente. Lança campanhas brilhantes, garante orçamentos, é citada nas reuniões. O manager elogia-a: “You’re on fire this quarter.”

O que ele não vê: à noite, a Emily fica sentada na cozinha, telemóvel na mão, a fazer scroll no Instagram sem olhar realmente para nada. Cancela jantares “porque está exausta”, mas quando se deita, não dorme. Não chora, não explode. Sente apenas um grande “meh” permanente. Um dia, o parceiro diz-lhe: “I miss you, and you’re sitting right here.”

Não é o trabalho em si que a destrói; é esta anestesia lenta que se instala. E ninguém dá o alarme, porque ela “aguenta”.

Esta desconexão emocional é um mecanismo de sobrevivência. Quando o cérebro recebe pressão a mais, durante tempo a mais, começa a desligar o que custa energia: o entusiasmo, a curiosidade, até a tristeza. Menos emoções, menos ondas. Continuas a entregar, mas ao preço de uma espécie de gelo interior.

A dificuldade é que esta fase é socialmente valorizada. És “forte”, “resiliente”, “profissional”. Não fazes drama, não crias problemas. Tornas-te aquele colega “com quem se pode contar”, que absorve urgências sem pestanejar. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem deixar pedaços de si pelo caminho.

A longo prazo, esta ausência de sentir abre a porta ao burn-out a sério: o corpo acaba por falhar porque a mente puxou pela corda durante demasiado tempo em silêncio.

Como acordar suavemente antes de bateres no fundo

O primeiro gesto é voltar a ligar um fio muito pequeno entre a tua vida e o que sentes. Não precisas de um diário de 20 páginas nem de uma app premium de mindfulness. Tira um momento do teu dia - no duche, à espera do autocarro, a caminho da cozinha - e faz a ti próprio/a uma única pergunta honesta: “O que é que eu senti, de facto, hoje?”

Não o que fizeste. O que sentiste. Podes até dizê-lo em voz alta, à moda antiga. “I felt bored in that meeting.” “I felt weirdly tense before that call.” “I felt nothing when my manager praised me.” Cabe em dez segundos. A ideia não é analisar, é reparar. É como acender a luz numa divisão onde já não entras.

Todos já vivemos aquele momento em que nos ouvimos dizer “I’m fine” sabendo que não é verdade. É aí que um micro-ritual pode mudar a trajetória. Uma pessoa que entrevistei, o Sam, consultor numa grande empresa, começou com uma regra simples: uma vez por dia, registava no telemóvel três palavras - energia, humor, presença - com uma nota de 1 a 5.

No início, era tudo “3”. Neutro. Cinzento. Ao fim de duas semanas, viu um padrão muito claro: nos dias com reuniões seguidas, descia para 1 ou 2 em “presença”, mesmo quando os emails, esses, continuavam a sair sempre a horas. Foi este pequeno quadro que o ajudou a admitir que estava a deslizar para o burn-out, muito antes de o corpo o obrigar a parar.

Não te estão a pedir um diagnóstico clínico. Apenas que apanhes estes micro-sinais antes de virarem um muro.

Este sinal silencioso - deixar de sentir - faz sentido quando olhamos para a forma como vivemos. Saltas de um separador para outro, de uma notificação para outra; o teu cérebro nunca tem tempo de digerir. Quando comprimes tudo, a emoção torna-se um luxo que a tua mente corta para sobreviver. É como se o teu sistema interno entrasse em “modo poupança de energia”.

A confusão vem do facto de muitas vezes confundirmos ausência de pânico com bem-estar. Não tens crises de ansiedade, não acordas a suar… portanto “está tudo bem”. Na realidade, a apatia crónica, este “já nada me mexe”, é um sinal tão sério como uma crise de choro. É apenas mais silencioso, mais socialmente aceitável, quase chique em certos meios.

Reconhecer este sinal não é ser “fraco/a”. É admitir que o teu sistema está a negociar nos bastidores para aguentar mais um pouco. E que precisa de um aliado, não de um carrasco.

Formas práticas de voltar a sentir - sem te despedires amanhã

Uma forma simples de sair do piloto automático: a regra dos “mini-checkpoints”. Em vez de te dizeres “tenho de mudar a minha vida inteira”, o que paralisa, divides o dia em três momentos: manhã, meio do dia, noite. Em cada checkpoint, identificas uma única atividade que possas tornar 10% mais viva.

Pode ser algo tão banal como: pôr uma música de que gostas enquanto abres os emails. Caminhar cinco minutos lá fora antes de uma reunião grande. Beber o café sem ecrãs, só a olhar pela janela. A ideia não é bem-estar perfeito: é introduzir um gesto minúsculo que te lembre que és um ser humano, não um fluxo de tarefas.

O erro mais comum é esperar “o momento certo” para cuidar de ti. No próximo fim de semana. Depois deste projeto. Depois desta promoção. Só que a vida profissional moderna está montada como um tapete rolante: assim que passas uma etapa, a próxima chega - por vezes ainda mais depressa.

Então continuas a dizer a ti próprio/a que vais abrandar “quando estiver mais calmo”. E isso nunca acontece. Não precisas de te transformar numa pessoa zen. Precisas de acrescentar, num quotidiano imperfeito, espaços onde possas perguntar: “Ainda sinto alguma coisa aqui?” E se a resposta for “não” durante semanas, isso é um sinal - não um falhanço.

“Burnout isn’t just when you can’t work anymore. It’s also when you can work, but you can’t feel yourself in the work at all.”

Para que estes sinais não se percam, um pequeno “kit de regresso a ti” pode ajudar. Não algo instagramável, mas algo cru, à tua maneira:

  • Um lugar onde possas ser honesto/a (um amigo, um terapeuta, um caderno, uma nota de voz).
  • Um indicador corporal que vigies (enxaquecas, tensões, insónias - tudo o que volta em loop).
  • Uma atividade não produtiva que protejas a sério (leitura, desporto lento, jardinagem, videojogos - o que for).
  • Uma frase-guia, do tipo: “Se eu não sentir mais nada sobre isto durante um mês, tenho de falar com alguém.”
  • Um direito inegociável: dizer “not today” a pelo menos um pedido por semana.

Estas coisas parecem minúsculas. São o teu guarda-corpo.

Deixar as pessoas verem o que realmente se passa

Este sinal silencioso de burn-out prospera na sombra, onde tudo parece “normal”. Continuas a entregar. Respondes às mensagens. Ris às piadas no Teams. Nada, à superfície, justifica puxar o travão de emergência. É precisamente por isso que vai tão longe em tantas pessoas brilhantes, conscienciosas, leais.

A verdade é que não precisas de esperar estar à beira do colapso para dizer “há qualquer coisa que não bate certo”. Podes dizer a um colega de confiança: “I’m functioning, but I feel weirdly numb these days.” Podes dizer ao teu médico que já não te reconheces, mesmo que ainda te levantes de manhã. Podes simplesmente pôr uma palavra no que parece difuso. Às vezes, essa confissão simples já afrouxa o aperto.

O que muda mesmo o jogo é quando começamos a falar disto como um fenómeno coletivo, e não como um defeito individual. Enquanto cada um vive esta anestesia no seu canto, ela parece uma fraqueza pessoal. Quando a trazemos para a luz, torna-se um sintoma de um sistema que puxa demasiado pela corda humana. E, nesse espelho, podes começar a olhar para ti com um pouco menos de dureza.

Vende-se muitas vezes a ideia de que a solução é tornares-te “mais resiliente”. Ser mais forte, mais organizado/a, mais disciplinado/a. Talvez a verdadeira coragem, hoje, seja o contrário: reparar que já quase não sentes nada, admitir isso e recusar que se torne o teu novo normal.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
O sinal silencioso Perda progressiva de sentir em relação ao que antes importava Dá nome a uma experiência difusa mas frequente
Micro-rituais Checkpoints emocionais e gestos simples ao longo do dia Permite agir sem virar a vida do avesso nem culpabilizar-se
Falar cedo Partilhar este “numbness” com alguém de confiança Evita o isolamento e o burn-out “surpresa”

FAQ

  • How do I know if it’s burnout or just a rough week? Observa a duração. Uma semana complicada cansa, mas as emoções voltam assim que a pressão baixa. Se te sentes “apagado/a” durante várias semanas, apesar de alguns momentos mais calmos, há motivos para explorar melhor.
  • Can I be burned out if I’m still performing well at work? Sim. Muitas pessoas atingem objetivos enquanto estão emocionalmente no zero. O desempenho não é um bom indicador do teu estado interior, sobretudo em culturas de “high achiever”.
  • Is feeling numb always a sign of burnout? Nem sempre. A apatia pode estar ligada à depressão, a um luto, a uma mudança de vida. Se esta sensação persistir ou se intensificar, falar com um profissional de saúde mental é mesmo uma boa ideia.
  • What should I tell my manager if I think I’m heading for burnout? Sê concreto/a: fala de carga, ritmo, tipos de tarefas que te esgotam. Podes dizer: “I’m coping, but I’m noticing signs of exhaustion and I don’t want it to get worse.” Propõe ajustes específicos, em vez de um “já não aguento” genérico.
  • Do I have to quit my job to recover from this? Não necessariamente. Algumas pessoas precisam de uma mudança radical; outras recuperam com limites mais claros, apoio e, por vezes, uma pausa temporária. O importante é não ficares sozinho/a com o que se está a passar.

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