Esse código de quatro dígitos que marca sem pensar pode, em silêncio, tornar-se o seu maior ponto fraco financeiro, muito antes de qualquer cartão ser roubado.
A maioria das pessoas preocupa-se com hackers e fugas massivas de dados, mas o maior risco muitas vezes está à vista, num retângulo de plástico na carteira. Um PIN previsível dá aos criminosos uma vantagem, por vezes suficiente para esvaziar uma conta antes mesmo de a vítima perceber que algo está errado.
Porque é que PINs fáceis são um presente para ladrões
Os bancos investem milhões em encriptação e sistemas antifraude. Depois, os titulares dos cartões escolhem 1234. Ou 0000. Ou 1111. A distância entre a proteção de alta tecnologia e os hábitos humanos continua enorme.
Investigadores de segurança e redes de pagamentos veem os mesmos padrões repetirem-se vezes sem conta. Um pequeno grupo de PINs aparece muito mais do que os restantes. Estas combinações incluem:
- 1234
- 1111
- 0000
- 1212
- 7777
- 2000
- 4444
- 2222
- 6969
Os burlões conhecem estas preferências de cor. Quando conseguem um cartão físico e têm algumas tentativas para inserir o PIN, passam primeiro por estes “suspeitos do costume”. Muitos ATM e sistemas de pagamento em loja permitem várias tentativas erradas antes de bloquear o cartão - mais do que suficiente para um palpite básico ou para um ladrão persistente.
Um PIN comum não precisa de ser quebrado. Só precisa de ser tentado.
Em toda a Europa, a fraude com cartões continua a aumentar em valor e sofisticação. Ainda assim, uma percentagem surpreendente dos casos continua a resultar de roubos tradicionais de cartões combinados com códigos muito previsíveis. Alguns estudos apontam que a fatia de utilizadores que escolhe PINs altamente previsíveis ronda os 10–20%. É uma parte significativa da população que, sem o saber, transporta um código que quase podia vir impresso no cartão.
A motivação é óbvia: medo de esquecer. As pessoas escolhem o ano de nascimento, o número da porta, parte do número de telefone ou um padrão simples. O preço a pagar se o cartão desaparecer pode ser brutal: acesso imediato a uma conta à ordem, a um descoberto ou a uma linha de crédito.
Como é, de facto, um PIN “forte”
Evite tudo o que pareça arrumado ou pessoal
Os especialistas em segurança repetem o mesmo conselho - e sim, parece aborrecido. Mas funciona. Certos padrões ajudam mais os criminosos do que ajudam a si a lembrar o código.
- Nada de sequências diretas: 1234, 2345, 6789
- Nada de dígitos repetidos: 0000, 1111, 9999
- Nada de números espelhados ou em pares: 1212, 1122, 2020
- Nada de datas de nascimento, aniversários ou anos: 1985, 1990, 2010
- Nada de dados visíveis: código postal, número de porta, matrícula, dígitos do telefone
Estes padrões parecem “certinhos” e satisfatórios - precisamente por isso aparecem constantemente em bases de dados de PINs expostos. Junte-se a isso o excesso de partilha nas redes sociais e um criminoso consegue adivinhar um número preocupante de datas e números pessoais apenas ao analisar perfis públicos.
Se um detalhe pode ser visto nas suas redes sociais, nunca deve ajudar ninguém a adivinhar o seu PIN.
Crie um PIN aleatório de que o seu cérebro ainda goste
Um bom PIN parece aleatório para quem está de fora. Mas a sua memória continua a precisar de um “gancho”. Um método é associar os dígitos a uma frase privada e depois usar uma regra simples para a converter em números.
Por exemplo, escolha uma frase curta que mais ninguém conheceria: “Primeiro concerto com a Ana em Leiria.” Depois crie uma regra:
- Use o comprimento das primeiras quatro palavras: Primeiro(8), concerto(8), com(3), a(1) → 8831
- Ou use a posição no alfabeto das primeiras letras (P=16, C=3, C=3, A=1 → 16331, ajustando para quatro dígitos conforme a sua regra)
Não precisa de elegância matemática; precisa apenas de um processo que consiga repetir mentalmente. O resultado deve parecer sem sentido para qualquer outra pessoa, mesmo que por acaso conheça a história por trás da frase.
Se tiver vários cartões, resista à tentação de reutilizar o mesmo PIN em todo o lado. Um compromisso num cartão não deve dar acesso imediato a todas as suas contas. Escolha um código diferente por banco, ou pelo menos separe cartões de crédito e de débito.
Mantenha o seu PIN fora de qualquer dispositivo e de qualquer papel
Esta parte ainda apanha muita gente. Escrever o PIN numa nota do telemóvel ou num post-it na carteira parece inofensivo - até ao momento em que um ladrão leva ambos. Muitos casos de fraude incluem exatamente esse cenário.
Evite estes hábitos:
- Nunca escrever o PIN no cartão ou na capa do cartão
- Nunca guardá-lo na app de notas, rascunhos de e-mail ou galeria de fotos
- Nunca o enviar por mensagem, nem sequer a um parceiro(a) ou familiar
Alguns bancos podem recusar o reembolso de pagamentos fraudulentos se considerarem que houve “negligência grosseira”, o que pode incluir guardar o código com o cartão ou partilhá-lo com demasiada facilidade. O PIN é estritamente pessoal, não é uma ferramenta doméstica partilhada.
Hábitos do dia a dia que protegem discretamente o seu dinheiro
Mantenha as suas contas debaixo de olho
As apps bancárias modernas dão visibilidade quase em tempo real sobre pagamentos. Use esse poder. Uma verificação rápida diária ou semanal das transações pode revelar pequenos débitos de teste que os criminosos usam antes de avançarem.
A maioria dos bancos já oferece alertas imediatos por SMS ou notificação push para transações com cartão.
| Tipo de alerta | O que sinaliza |
|---|---|
| Notificação de pagamento | Cada compra com cartão, ideal para detetar lojas ou localizações desconhecidas |
| Alerta de levantamento em ATM | Levantamentos em máquinas invulgares ou em países estrangeiros |
| Aviso de compra online | Pagamentos “sem cartão presente” que podem surgir após uma fuga de dados |
Quanto mais cedo reparar numa transação estranha, mais fácil é limitar os danos e recuperar o dinheiro.
Se uma transação parecer errada, use a sua app bancária para bloquear o cartão (se existir essa funcionalidade) e depois ligue para o número de emergência oficial impresso no verso do cartão.
Proteja o seu PIN em locais públicos
Em ATMs e terminais de pagamento, os ladrões dependem muito da observação. “Shoulder surfing”, câmaras minúsculas ou teclados adulterados continuam a ser métodos comuns.
- Cubra o teclado com a mão livre sempre que inserir o PIN
- Recuse qualquer pedido para dizer o PIN em voz alta, seja qual for a desculpa
- Afaste-se de ATMs ou terminais que pareçam danificados, soltos ou estranhamente alterados
- Se um(a) empregado(a) ou um estranho estiver demasiado perto, peça mais espaço
Se o pagamento falhar várias vezes sem razão clara, pare e reavalie a situação. Experimente outro terminal, outra loja, ou pague por contactless ou em dinheiro. O essencial é manter o controlo sobre quando e onde o seu PIN é utilizado.
O que fazer no momento em que algo parecer errado
Mesmo utilizadores cuidadosos têm azar. Os cartões caem do bolso, as carteiras são roubadas em comboios cheios, fugas de dados atingem grandes retalhistas. Quando deteta um problema, a rapidez conta.
Atue por esta ordem:
- Bloqueie o cartão imediatamente via app ou número de emergência
- Contacte o seu banco e reporte os pagamentos suspeitos ou o roubo
- Reúna provas: extratos, recibos, capturas de ecrã, mensagens suspeitas
- Apresente queixa na polícia ou na autoridade competente do seu país
As regras de proteção do consumidor em muitos países obrigam os bancos a reembolsar transações fraudulentas se o cliente não as autorizou e não agiu com negligência. Essa avaliação depende muitas vezes de comportamentos como partilhar o PIN ou guardar de forma descuidada dados de segurança.
A armadilha online: quando os criminosos dispensam a carteira
Os atacantes já não precisam do cartão físico para visar o PIN ou outras credenciais bancárias. A engenharia social cresceu até se tornar uma atividade industrial. E-mails falsos do banco, SMS alarmistas e chamadas convincentes tentam levar os utilizadores a revelar PINs, códigos de utilização única ou os dados completos do cartão.
Qualquer mensagem que peça o seu PIN ou código de segurança não é, por definição, do seu banco.
Regras simples ajudam aqui:
- Nunca siga links em e-mails ou SMS não solicitados para aceder ao seu banco
- Escreva você mesmo o endereço do banco ou use a app oficial
- Desligue chamadas de quem pede PINs, palavras-passe ou códigos por SMS
- Volte a ligar usando o número impresso no cartão ou em documentos oficiais
Muitos grupos de fraude combinam táticas: uma chamada a fingir ser do departamento de fraude, um cabeçalho de SMS falsificado que faz a mensagem aparecer na mesma conversa dos alertas reais do banco e um link para um site clonado. Estar consciente destes truques já remove grande parte do seu efeito.
Se hesitar sobre o seu PIN, trate isso como um sinal de alerta
Uma sensação de dúvida sobre o seu código geralmente significa que ele segue algum padrão ou se liga à sua vida pessoal. Só isso já justifica uma alteração. A maioria dos bancos permite mudar o PIN nas caixas automáticas ou através do apoio ao cliente. O processo demora minutos e pode poupar dias de burocracia e stress mais tarde.
Pense no seu PIN como pensa num gestor de palavras-passe: um pequeno sistema mental, e não um único código frágil. Crie um método para gerar e memorizar números imprevisíveis e aplique-o aos seus cartões. Junte a isso verificações regulares da conta, hábitos discretos ao teclado e silêncio absoluto sobre códigos de segurança, e reduzirá drasticamente a janela de oportunidade para os criminosos.
Para quem tem dificuldade de memória, há um truque adicional: pratique o novo PIN várias vezes nas primeiras 24 horas, em casa, num teclado falso desenhado num papel, sem escrever os dígitos em si. Isto reforça o padrão nos dedos através da memória muscular, em vez de o deixar num post-it. E se ainda assim parecer instável, defina lembretes diários no calendário para fazer uma consulta de saldo ou uma pequena compra até a sequência se tornar natural.
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