Uma linha de costa marciana perdida, escrita na rocha
Estas ideias não vêm de “achismos”: vêm de geologia observável a partir da órbita. Missões como a Mars Express (ESA) e a Mars Reconnaissance Orbiter (NASA) conseguem mapear relevo e texturas com detalhe suficiente para reconhecer formas que, na Terra, são típicas de água a escoar e a depositar sedimentos.
Em Valles Marineris, foram identificadas estruturas amplas em forma de leque, em patamares ao longo das paredes dos canhões. Na Terra, leques/deltas semelhantes formam-se quando um rio abranda ao entrar em água parada (lago, mar) e “larga” carga sedimentar.
O ponto forte é a consistência: vários destes deltas aparecem a altitudes muito próximas ao longo de grandes distâncias, sugerindo uma antiga superfície de água pouco inclinada e relativamente estável.
Os leques concentram-se em Coprates Chasma. Os seus topos situam-se aproximadamente entre -3 750 e -3 650 m em relação ao “datum” marciano (uma referência altimétrica, não um nível do mar atual). Um intervalo tão estreito é mais compatível com um nível de água mantido por muito tempo do que com um evento rápido (cheia pontual).
Além disso, vêem-se canais ramificados que descem de terrenos mais altos e convergem ao aproximar-se dos leques. Esse padrão, na Terra, é comum em bacias de drenagem que desaguam num corpo de água maior-uma sequência coerente de “terras altas → rios → delta → costa”.
Um oceano marciano com um quilómetro de profundidade
A hipótese recente vai além de um grande lago: propõe um oceano nas terras baixas do hemisfério norte com profundidades que, nalgumas zonas, poderiam chegar a ~1 km.
Uma peça central são os “depósitos com escarpa frontal” (scarp-fronted deposits, SFDs): camadas sedimentares que terminam numa quebra abrupta de declive, como um “degrau” topográfico. Na Terra, escarpas deste tipo podem marcar a transição entre plataforma e zonas mais profundas, moldada por ondas/correntes e por variações do nível da água.
Em Marte, SFDs aparecem em Coprates Chasma e noutros locais (como Capri Chasma e Hydraotes Chaos) e tendem a ocorrer dentro de faixas de altitude semelhantes. Ao ligar esses pontos, obtém-se um contorno compatível com um único corpo de água muito extenso no norte.
- Profundidade máxima (estimada): ~1 000 m
- Idade (aprox.): 3,0–3,5 mil milhões de anos
- Onde: sobretudo nas terras baixas do hemisfério norte
- Evidência usada: deltas, SFDs e redes de canais
Isto encaixa perto da transição Noaquiano tardio / Hesperiano inicial-um período frequentemente associado a mais água à superfície, antes da aridez dominar. Nota importante: “linha de costa” em Marte é difícil de cravar ao metro; deformações posteriores (vulcanismo, tectónica, impactos) podem ter alterado altitudes e mascarado marcas costeiras.
Que tipo de clima poderia manter líquido um oceano marciano?
Para água líquida persistir à superfície, Marte teria de ter tido uma atmosfera mais espessa do que a atual (hoje, a pressão média é muito baixa, perto do limite em que a água pura tende a ferver/sublimar). Uma atmosfera mais densa ajudaria a reter calor (efeito de estufa), permitiria mais transporte de vapor e sustentaria precipitação ou, pelo menos, degelo sazonal.
A própria topografia ajudaria: as terras baixas do norte estão vários quilómetros abaixo das do sul, funcionando como “bacia de recolha” do escoamento. A analogia com o Oceano Ártico é útil como imagem: muitos rios a alimentar um mar relativamente fechado.
O conjunto de canais + deltas + patamares sugere um ciclo hidrológico ativo: precipitação/degelo, escoamento, transporte de sedimentos e acumulação em mares duradouros.
Mesmo assim, o cenário mais provável é de um Marte frio: gelo costeiro, períodos de congelação/degelação e água líquida talvez intermitente. Ainda assim, água líquida mesmo por janelas repetidas (e em contacto com rocha) aumenta muito as oportunidades para química complexa.
Habitabilidade: porque é que um oceano do tamanho do Ártico importa
Para a astrobiologia, a diferença está na duração e no “ambiente certo”. Um lago curto pode ser habitável, mas um oceano (ou mar interior) persistente durante milhões de anos oferece mais estabilidade química, mais tempo para ciclos biogeoquímicos e maior probabilidade de preservação sedimentar.
Deltas são alvos fortes porque concentram sedimentos finos e podem “enterrar” rapidamente matéria orgânica, protegendo-a parcialmente. Em Marte, há um trade-off: quanto mais antiga a rocha, mais tempo teve para ser alterada por radiação e oxidação à superfície-por isso, camadas enterradas e bem estratificadas são especialmente valiosas.
As prioridades das missões a Marte estão a mudar
Missões como o Perseverance já apostam em deltas (Jezero). Se a evidência para um oceano maior se consolidar, faz sentido procurar depósitos costeiros e margens antigas, onde se cruzam sedimentos fluviais e processos marinhos.
A recolha de amostras de SFDs e de depósitos deltaicos em Valles Marineris poderia ajudar a:
- Distinguir deposição subaquática de deposição “seca” (vento/deslizamentos) pela granulometria e pelas camadas internas
- Identificar minerais que costumam formar-se com água persistente (por exemplo, certas argilas e sulfatos)
- Medir assinaturas isotópicas úteis para reconstruir atmosfera e perda de água
- Procurar bioassinaturas (se existiram), em sedimentos finos e bem preservados
Trazer amostras para a Terra continua a ser decisivo: laboratórios conseguem detetar compostos orgânicos em níveis muito baixos e fazer análises que um rover, por limitações de massa/energia, raramente iguala.
Como é que um oceano pode desaparecer de um planeta inteiro?
A pergunta difícil é “para onde foi a água”. Hoje há gelo nos polos e água retida no solo/minerais. Um oceano deste tamanho corresponderia a uma “camada global equivalente” de dezenas a centenas de metros, se espalhada por todo o planeta.
A explicação mais comum envolve vários processos a atuar em conjunto:
| Processo | Efeito na água marciana |
|---|---|
| Escape atmosférico | O vento solar e a radiação facilitaram a perda de gases e de hidrogénio, reduzindo a capacidade de manter água líquida. |
| Perda do campo magnético | Sem magnetosfera global, a atmosfera ficou mais exposta à erosão pelo vento solar. |
| Arrefecimento do interior | Menos vulcanismo → menos gases com efeito de estufa → superfície mais fria e seca. |
| Congelação e enterramento | Parte da água terá ficado como gelo subterrâneo ou presa em minerais hidratados. |
Em escalas de centenas de milhões de anos, isto pode transformar um planeta com água superficial episódica num mundo frio, seco e com atmosfera rarefeita-sem exigir uma “desaparição” rápida e única.
Termos-chave que ajudam a compreender o oceano de Marte
Alguns termos aparecem muito e valem uma tradução direta.
Deltas: leques de sedimentos formados onde um rio entra em água mais lenta/parada. A estratificação (camadas) pode registar mudanças de caudal e de nível da água ao longo do tempo.
Depósitos com escarpa frontal (SFDs): superfícies relativamente planas que terminam numa arriba/“degrau” acentuado. Podem resultar de acumulação sedimentar e erosão posterior; quando aparecem a altitudes semelhantes em regiões diferentes, podem indicar antigas margens ou declives submersos.
Noaquiano e Hesperiano: “eras” do tempo geológico marciano. Em geral, o Noaquiano é mais antigo (muitas crateras e mais sinais de água) e o Hesperiano é posterior (mais vulcanismo em planícies e tendência para condições mais secas).
O que isto pode significar para futuros humanos em Marte
Se existiu um oceano no norte, antigas zonas submersas podem esconder gelo, argilas e sais sob camadas de sedimento-recursos potencialmente úteis para água, construção e produção de combustível. Na prática, a extração não é “pegar e usar”: sais (incluindo percloratos, comuns em Marte) podem complicar o tratamento da água e a agricultura, exigindo processamento.
Modelos e dados orbitais ajudam a apontar onde o gelo enterrado pode estar mais protegido da sublimação: tipicamente, onde há cobertura sedimentar suficiente e condições térmicas favoráveis. Esses locais interessam tanto para ciência (registos do clima antigo) como para logística (zonas de aterragem e bases).
A história deste possível oceano do tamanho do Ártico ainda está em construção. Novos mapas e medições devem refinar a “linha de costa” e, um dia, missões no terreno poderão testar diretamente se estas escarpas e deltas são mesmo o rasto de um antigo mar marciano.
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